quarta-feira, 18 de junho de 2008

Meus netos, eu vi um show do Chuck Berry!



Seria a minha primeira e, talvez, a última chance de ver um dos país do rock and roll, Chuck Berry, em ação. O show do último dia 17, no Vivo Rio, em um primeiro momento, quando eu esperava ver e escutar todos os maravilhosos riffs e agressivas palhetadas do velho roqueiro, poderia ser encarado como uma grande decepção.

Apesar de toda a simpatia do norte-americano nascido em 1926, na cidade de St. Louis, o público pode ter estranhado a performance do guitarrista de 81 anos. Sinceramente, acredito que todos pecaram por uma certa ingenuidade: é fisiologicamente impossível um senhor ocatagenário agüentar o pique, em uma turnê exaustiva por diversos países.

Notas desafinadas, acordes fora do tempo e voz desgastada. A banda que o acompanhava era bem fraca, incluindo seu filho, Charles Berry Jr., na guitarra. O cansaço era tanto a ponto dos solos serem executados pelo filho. Até mesmo a guitarra base sofria com o peso da idade. Acredito que um show em outro formato, talvez, uma guitarra, um microfone e um banquinho, desse ao mestre do rock um melhor desempenho, com músicas mais lentas.

O concerto começou com a clássica Memphis Tennessee e, logo na canção de abertura, infelizmente, mostrou a debilitação física de Chuck. Depois, vieram Maybeline, Sweet little Sixteen e Nadine, todas distantes anos-luz da boa forma de 40 anos atrás. O hino Johnny B. Goode teve seu emocionante solo esfacelado e seu refrão cantado pelos fãs. Ainda teve uma tentativa de cover de Yesterday, dos Beatles. Apenas uma tentativa.

Mas, todos esses comentários e críticas não passam de detalhes técnicos que um aspirante a crítico musical faz a fim de mostrar um limitado conhecimento. Após a adrenalina e um inicial desapontamento abaixarem, entendi o privilégio que tinha naquele momento. Porra, via, a poucos metros, o cara que desbancou o forte racismo estadunidense e conquistou por todo o mundo um imenso legado de fiéis amantes de rock.

Quisera eu com oitenta verões nas costas ter a vontade e o amor por algo que me fizesse tirar do boteco ou do carteado com antigos camaradas, cruzar um continente apenas pelo prazer de contagiar alguns estranhos com a sua música. Sem dúvida, a grande razão do coroa ainda viver. E daí se a voz e a pegada não são mais as mesmas? O importante foi vê-lo feliz.

O crazy legs ainda tirou forças para executar seus famosos pulinhos com a guitarra, apesar de ter acabado com seu fôlego. Foi emocionante constatar que o tempo não tira a alegria e o espírito fanfarrão de um homem, que na saidera pede para 12 mulheres da platéia subirem ao palco e dançarem (quase resultando em um uma invasão generalizada).

Infelizmente ainda não tenho uma máquina do tempo que me mande para os anos 60, de forma que eu pudesse me deliciar com shows de grandes bandas. Porém, depois de quase 50 anos, pude ver O Cara que criou aquilo que mais amo em minha medíocre vida e me dá ânimo de levantar da cama: o rock. Certamente, daqui a uns anos, quando eu colocar um rock para os meus netos conhecerem este estilo musical, contarei: “Meus queridos netos, eu tive a honra de ver um show do Chuck Berry. Vocês não o conhecem? Bem, ele foi um dos criadores do rock junto com...”.


Foto: Divulgação

Crianças, prestem atenção à aula de blues!



Este ano fui ao Rio das Ostras Jazz & Blues Festival. Fui na expectativa de ver o lendário John Mayall e os Bluesbreakers. Mas, antes do show do pai do blues inglês, tive um momento de aprendizado. Sim, aprendizado, e em pleno festival, no meio de mais de 15 mil pessoas. Quando o Blues Etílicos subiram ao palco e começaram seu concerto tive a impressão de estar em uma aula música, fazendo (escutando) a lição sobre blues.

Ao contrário do que muitos podem pensar, esta não foi a primeira vez que assisti ao show da banda. Seria mais um. Mas, um sentimento estranho, aos poucos, tomou conta de mim. Meio a releituras de Muddy Waters e algumas canções próprias, o grupo que tem 21 anos de estrada esbanjou técnica e mostrou o verdadeiro feeling do blues. Se em clássicos como I want to be loved de Willie Dixon, Good morning little school girl de John Lee Williamson, e Walking blues de Muddy Waters, o quinteto mostrava a intimidade com o estilo centenário, o mesmo pode ser dito em relação a Semms like the whole world was crying, um blues-rock do gaitista Charlie Musselwhite. Havia, ainda, espaço para interpretações brasileiras: um cover do saudoso Raul Seixas, Canceriano sem lar, e Dente de ouro, uma versão de blues com capoeira.

Ver a apresentação dos Etílicos foi participar de um imenso orgasmo musical coletivo, onde todos, sem excessão, entravam em um estado de insanidade devido à performance incendiária de Otávio Rocha, sem dúvida o melhor slide tupiniquim e ao virtuosismo de Flávio Guimarães, gaita e vocal, hoje um dos músicos brasileiros mais respeitados fora do Brasil. Há de se reverenciar esses desbravadores do blues nacional, que ainda conta com a guitarra base e o incrível vocal do americano Greg Wilson, natural do Mississipi, e uma cozinha em perfeita sintonia, Pedro Strasser (bateria) e Cláudio Bedran (baixo).

O show encaminhava-se para o final e, paulatinamente, o sentimento de êxtase diminuia. Após uma aula de como o blues deve ser tocado, o público parecia estar esgotado emocionalmente com o privilégio de ter visto a maior banda de blues brasileira. Porém, todos tinham uma certeza, aquele momento seria para sempre recordado: o dia em que a cidade de Rio das Ostras teve uma aula de música para 15 mil alunos insandecidos pelo calor da boa música.


Foto: Divulgação

domingo, 1 de junho de 2008

Hamilton de Holanda Quinteto, Brasilianos 2


Nos EUA ele é considerado o “Jimi Hendrix do bandolim”, na França é chamado de “Príncipe do bandolim” e em seu currículo constam importantes prêmios, como o Tim de melhor banda e performer 2007. Em show realizado no Circo Voador (RJ), Hamilton de Holanda Quinteto lançou neste último sábado, 31/05, seu novo CD, Brasilianos 2.

O repertório, composto por composições antigas e inéditas de seu novo trabalho, casos de Ano bom, Mundo não acabou, Tamandua e Ajaccio (em performance solo), contagiou o público, que se deixava embalar pelas belas melodias do excelente quinteto. A gaita cromática de Gabriel Grossi e o competente violão de Daniel Santiago garantiam uma harmonia leve e suave, enquanto que a cozinha, contra-baixo e bateria, André Vasconcellos e Marcio Bahia, respectivamente, ditavam o rítmo perfeito. “Considero o Brasilianos 2 como o meu amadurecimento. Fiquei muito feliz com o resultado pois foi gravado com muita união entre todos da banda”, conta o bandolinista.

O músico, que inova ao tocar um bandolim de 10 cordas, pode ser considerado a nova cara da música instrumental brasileira.

“Eu fiz esse instrumento sob encomenda. Sempre quis compor de forma orquestral, ou seja, fazer a harmonia, melodia e rítmo. Com a adição dessas duas cordas ganhei uma maior extensão e um som mais grave. Queria, e consegui, um novo jeito de tocar”, diz Hamilton.

Influenciado pela música popular (mestres do choro, samba e bossa nova) e música erudita (jazz e música clássica), Hamilton de Holanda consolida o seu trabalho com uma música que trascende classificações. “Sinceramente, eu não sei e nem pretendo rotular o meu trabalho. Acho importante esse elo entre o passado e futuro. Costumo dizer que o moderno é tradição. E, convenhamos, a tradição é moderna (risos)”.

No entanto, enganam-se aqueles que pensam que o carioca tenha escutado apenas nomes como Pixinguinha. O rock também o ajudou na formação de músico. “Cresci em Brasiília na época em que bandas como Legião Urbana e Paralamas do Sucesso estouravam nas rádios. Ainda tive um grupo chamado Entregadores de Pizza, onde eu tocava baixo”, revela. E do mundo roqueiro veio um dos momentos mais emocionantes de sua carreira: em terras francesas, dividiu o palco com John Paul Jones, baixista do Led Zeppelin.

- Eu dava aula em um workshop de bandolim, quando me pediram para fazer uma melodia no baixo. Foi quando apareceu um senhor que se ofereceu para tocar o instrumento, de forma que eu não parasse com o bandolim. Me falaram depois que era o Cara. Não acreditei! Conversamos um pouco e depois demos uma canja juntos. Até hoje nos falamos, pois temos amigos de bluegrass em comum - relembra Hamilton.

Hamilton de Holanda constrói, de forma sólida, uma carreira vitoriosa. Querido no Brasil e no exterior, o músico esbanja técnica e um virtuosismo ideal. Atualmente, já pode integrar a lista dos grandes nomes da música brasileira.



Foto:Ugo Medeiros