segunda-feira, 9 de novembro de 2009

"Poeteiros" do meu Brasil #1


Essa nova coluna tem como objetivo mostrar todo o lirismo de grandes compositores brasileiros. Como a grande mídia mostra apenas as bobagens de bestas quadradas como Caetano Veloso (que recentemente falou que "Woody Allen é um diretor pequeno e muito heterossexual") e Carlinhos Brown, colocarei algumas das mais belas e malditas canções. Inaugurando esse espaço, uma letra de uma das minhas bandas favoritas de rock nacional: Porque não, dos Replicantes.

Em poucos versos, a banda gaúcha extravaza toda a raiva ao endeusamento à tropicália, à chatice da bossa nova e alfineta com muito bom humor alguns dos mais renomados nomes da MPB. Enfim, uma letra PERFEITA.

Porque não

"Me disseram que sem lenço era a grande solução,
Joguei fora os documentos e acabei no camburão,
Eu não vou porque não não não,
Os baianos nos trovaram que o amor tinha futuro,
Quis transar com uma mina que mordeu o meu pau duro,
Eu não vou porque não não não,
Agora eu sei qual é a deles. Já peguei no pé do gil,
Eu quero que o caetano vá pra PUTA QUE O PARIU,
Eu não vou porque não não não,
O Gismonti é um chato tô cansado de saber,
O Chico era um velho mesmo antes de nascer,
Eu não vou porque não não não,
O samba me da asma bossa nova é de fuder,
Prefiro tocar bronha e punkar até morrer."

Lindo né?

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Entrevista John Hammond Jr.


Aos 67 anos e com mais de quarenta anos de estrada, John Hammond Jr. é uma lenda viva do blues. Considerado por muitos o representante do delta blues mais importante desde Robert Johnson, Hammond propaga o verdadeiro blues pelos quatro cantos do mundo. Durante a passagem pelo Brasil, esse “senhor” deu uma aula de história da música e contou sobre o começo de carreira e como ajudou as carreiras de grandes nomes, como Bob Dylan e Jimi Hendrix.

Ugo Medeiros – Em 1967 você gravou dois discos, I Can Tell e Mirrors, com integrantes do The Band. Como foi essa parceria com aqueles grandes músicos?

John Hammond – Eu conheci o The Band em 1962, em Toronto. Eles ainda se chamavam Levon and the Hawks e eram liderados por um cara chamado Ronnie Hawks. Nós tínhamos a mesma faixa etária, eu estava começando a minha carreira e eles já eram todos profissionais, realmente, excelentes músicos. Eles costumavam ir à Nova Iorque. Lá, nós saímos, passávamos tempo juntos e, às vezes, eles apareciam nas minhas apresentações. Ficamos muito amigos. Em 1965 ou 1964 eles estavam na cidade e eu tinha assinado com a Vanguard Records. Perguntei à gravadora se podia fazer uma sessão com a banda e outros músicos, como Michael Bloomfield e Charlie Musselwhite. Assim, depois de três horas de estúdio e 12 faixas gravadas, estava pronto So Many Roads. Um ano depois nos reunimos em outro estúdio para tentar gravar pela Red Bird Records. Tínhamos grandes nomes, como Robbie Robertson (guitarrista do The Band), Bill Wyman (ex-baixista dos Stones) e Artie Butler (piano). Daí saiu I Can Tell, do qual uilizamos os outtakes, assim como os de So Many..., para gravar o Mirrors.

UM – Alguns críticos referem-se a você como o Robert Johnson branco. O que você acha disso? O quanto a música e estilo dele te influenciou?

JH – Eu aprendi todas as suas canções, acho que ninguém me influenciou mais do que ele. Eu sempre o achei o grande “sintetizador” do blues, pois ele escutava todos os grandes músicos da sua época e fazia o blues com o seu próprio estilo. Eu pirei quando o escutei pela primeira vez. De fato, ele era o melhor de todos os caras daquela época.

UM – A sua carreira começou durante o revival do blues nos anos 60. Naquela época o americano estava interessado nas influências folks e do blues clássico. Você acha que, atualmente, o americano perdeu aquele interesse?

JH – O americano, em geral, não tem tanto interesse no blues, acredito que seja apenas mais um segmento. Agora, os que gostam de blues, realmente gostam...

UM – Como foi a transição da guitarra acústica para a elétrica? Você sofreu algum preconceito, como o Bob Dylan sofreu?

JH – Bob e eu somos grandes amigos. Ele sempre amou o blues. Eu o apresentei ao The Band e ao Michael Bloomfield, portanto acho que tenho a ver com a transição dele... Ele acabou se tornando uma grande estrela.

UM – Ao longo da sua vasta carreira, qual a parceria que mais te marcou?

JH – Eu sempre tive o prazer de sair com grandes pessoas. Ninguém tinha dinheiro, mas havia uma amizade forte e éramos todos iguais. Tive a chance de gravar com nomes como Duane Allman, Charlie Musselwhite, The Band, JJ Cale, Charles Brown, Little Charlie & The Nightcaps, todos eles fenômenos. Tive muita sorte em estar lá (risos)...

UM – Eu li em um site que o Jimmy Reed te marcou profundamente. O que você pode falar sobre ele?

JH – Ele tinha um estilo, uma voz e uma forma de tocar que todos gostavam. Todos sofreram algum tipo de influência do Jimmy. O pessoal do country ama a sua música, pois ele soa muito puro e profundo. Ele foi o primeiro músico que eu vi tocando violão e gaita ao mesmo tempo. Aquilo me marcou imensamente.

UM – Como foi a sua relação com Jimi Hendrix?

JH – Eu o conheci quando ele estava “encostado” em Nova Iorque. Eu não sabia quem ele era, na verdade, ninguém sabia. Um amigo em comum nos apresentou, ele ficou muito feliz em ter me conhecido. Ele tinha escutado algumas gravações minhas e tocou para mim. Quando o vi, não acreditei, era um fenômeno. Ele me perguntou se eu arrumaria algum gig para ele. Eu fui à uma casa que eu já tinha me apresentado anteriormente e perguntei ao dono se ele nos contrataria se eu montasse uma banda. Ele topou e marcou para a semana seguinte. Juntei uma banda e coloquei o Jimi como lead guitar e, assim, tocamos lá por uma semana. Os The Animals estavam na cidade e foram ao show. Chas Chandler (baixista do Animals) ofereceu ao Jimi um contrato para gravar na Inglaterra. Uma semana depois, ele partiu e voltou um ano depois, já como uma grande estrela na Europa. Nessa época, eu me apresentava em um club em Nova Iorque. Ele tinha um semana de folga e se ofereceu para tocar na banda. No dia seguinte, o Cream chegou à cidade. Eu havia conhecido o Eric Clapton em 1965, e ele compareceu ao show. Para minha surpresa, quando me dei conta, eu tinha Clapton e Hendrix na minha “pequena” banda por uma semana. Foi demais! Hendrix tinha um talento natural, ele era único. Não acho que existirá alguém como ele.

UM – Você gravou com um dos maiores gênios da guitarra, Duane Allman. Como foi?

JH – Foi incrível! Em 1969, fui para Musselshows, Alabama, para gravar com a banda de estúdio que gravou com grandes nomes, como Aretha Franklin e Wilson Pickett. Durante dois dias, tentei mostrar a eles o que eu queria, mas eles não estavam entendendo muito bem. Foi quando, do nada, me apareceu aquele garoto que dirigiu de onde morava só para me conhecer. O guitarrista da banda, Eddie Hinton, nos apresentou e disse que eu deveria escutar o Duane. Ele era muito bom e acabamos gravando uma canção. Perguntei se ele não queria gravar mais uma. No final, foram cinco musicas, que estão no álbum Southern Fried (Atlantic). Nos tornamos muito amigos. Isso foi antes de formar o Allman Brothers Band, quando ele ainda era músico de estúdio. Depois disso, fiz muitas apresentações com o Allman.

UM – Essa é a sua primeira vez no Brasil acompanhado com uma banda. Como você prefere, tocar com uma banda ou sozinho?

JH – É mais fácil pra eu tocar sozinho, 90% dos meus shows são assim. Acompanhado é diferente, mas esses caras que vieram são excelentes músicos e amigos. Com eles, posso tocar guitarra e isso me diverte (risos). Estava com um bom pressentimento do que poderíamos fazer juntos.

UM – O seu pai (John Hammond Sr.) era um grande produtor e caçador de talento da Columbia. Ele descobriu nomes como George Benson, Billie Holliday, Bob Dylan, Aretha Franklin e Bruce Springsteen. O que você aprendeu com ele? Como foi crescer nesse ambiente musical?

JH – Ele era um bom homem, com um grande conhecimento musical. Ele descobriu Count Bassie e montou uma banda para o Benny Goodman, na verdade “tio Benny”, pois ele se casou com a irmã do meu pai (risos). Meus pais se divorciaram quando eu tinha cinco anos. Eu o via ocasionalmente, passava duas semanas com ele durante o verão. Muitas pessoas pensam que eu aprendi com ele, mas, na verdade, foi na “marra”, sozinho, subindo ao palco. Ele tinha muita preocupação comigo, achava que era um grande erro eu me meter no mundo da música. Alguns anos depois ele me viu em ação e se tornou um grande entusiasta. Eu cometi muitos erros, mas de alguma forma, no final, deu tudo certo (risos)...

UM
– O que você escutava na sua infância?

JH – Eu escutava muito country-blues, artistas como Sonny Terry & Brownie McGhee, Josh White, Leadbelly, Pete Seeger. Nos anos quarenta, durante o primeiro folk revival, ouvia muito folk e folk-blues. Adorava nomes como Wood Guthrie. Eu morava no Greenwich Village (Nova Iorque), lugar que era o centro do folk, e lá tive a oportunidade de ver muita gente boa durante a minha adolescência. Quando ganhei minha primeira guitarra aos dezoito anos, tinha certeza de que faria isso para o resto da minha vida. Eu tenho 67 anos e não me arrependo de um minuto sequer, é incrível...

UM – Você acha que o público brasileiro é diferente dos outros?

JH – É melhor! O público aqui tem um feeling especial para a música, uma paixão diferente. É um país com vocações musicais e artísticas. Adoro tocar aqui.

UM – E o seu último disco, Rough & Tough (Chesky)?

JH – Vocês o conhece?! Eu o fiz em apenas uma tarde, em uma antiga igreja. Foi difícil, mas gravei dezesseis faixas. Dessas, apenas uma não entrou. Eu queria gravar um álbum sozinho, mostrar o que eu faço agora, que tipo de música eu escuto e consigo fazer.

sábado, 17 de outubro de 2009

Debate PUC-Rio


Para Finalizar o curso de jornalismo musical, que aconteceu durante este mês de outubro, organizei uma mesa sobre música e sua relação com a indústria fonográfica:

MÚSICA X INDÚSTRIA FONOGRÁFICA,UM DEBATE INTERDISCIPLINAR

Participantes:
- Eduardo Carvalho (jornalista de música clássica)
- Alexandre Coelho (revista Backstage)
- Otavio Rocha (guitarrista do Blues Etílicos)
- Big Joe Manfra (músico e dono da Blues Time Records)

* Mediador - Ugo Medeiros (geógrafo)

Data: 22/10 (5ªf)

Hora: 15h

Local: C.A de Geografia

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Blind Faith: a fé cega de uma mega banda



Há quase quarenta anos surgia no mundo do rock o primeiro supergrupo, o Blind Faith. Formado por integrantes do Cream, Eric Clapton e Ginger Baker (guitarra e bateria, respectivamente), do Traffic, Steve Winwood (teclado, piano, órgão e vocais), e do Family, Rick Grech (baixo e violino), a banda teve curta duração, infelizmente. Apesar de pouco tempo, de junho a agosto de 1969, e de ter gravado apenas um disco, Blind Faith (Polydor), o quarteto fez história e deixou um importante legado.

Tudo começou em meados de 67, quando Clapton era, junto com Jimi Hendrix, o guitarrista mais venerado, um verdadeiro guitar hero. Após passar pelos Yardbirds e Bluesbreakers, ele conquistara roqueiros mundo afora com o Cream. O power trio, que ainda contava com o já citado Ginger Baker e Jack Bruce (baixo), explodiu nos EUA e logo depois na Inglaterra.

Rapidamente, as apresentações, que eram longas improvisações em cima da base de alguma música, despertaram interesses em plena explosão psicodélica (EUA) e Swinging London (Inglaterra). Eram tempos de efervecência cultural e, ao que tudo indicava, o Cream era um dos líderes dessa revolução.

Enquanto Baker esbanjava a técnica e precisão dos seus tempos de jazz e Clapton dava coloridos ao som, Bruce era o virtuoso que fazia a máquina andar. Além de compor boa parte das canções, o baixista ainda liderava os vocais com excelência. O segundo disco da banda, Disraeli Gears (Polydor), era um sucesso comercial e Sunshine of your love um grande hit na terra do Tio Sam.

Porém, os lucros não garantiam o bom relacionamento entre os três. Jack e Ginger sentiam um ódio mútuo e Eric não estava satisfeito com o rumo que a banda tomava. As longas turnês e o lado “selvagem” do rock o desgastavam. Ele queria participar de um projeto menor, em casas menores, já que estava cansado do show business. Além disso, sentia que o grupo perdia a unidade em meio às longas improvisações e ao virtuosismo.

As desavenças entre eles levou ao inevitável: no dia 26 de novembro de 1968, o Cream fazia o show de despedida no Albert Hall, Londres. Cada um foi para o seu lado.

Durante os meses seguintes, Clapton ficou parado e logo ficaria perdido, completamente desorientado. Cada vez mais amigo de George Harrison, teria o coração dilacerado pelo amor platônico à Pattie Boyd, esposa do beatle. Sem perspectivas profissionais e em depressão, entregou-se à bebida. A salvação atenderia pelo nome de Steve Winwood.

Após boa passagem pelo The Spencer Davis Group e genial participação no Traffic, o tecladista estava sem banda. As sucessivas brigas com Dave Mason culminaram no fim temporário do Traffic em janeiro de 1969. A admiração de Clapton por Winwood era antiga. Nos primórdios do Cream, ele queria um som mais consistente e, para isso, acreditava que o tecladista seria perfeito. A sugestão fora negada, mas o desejo de trabalhar juntos não cessou.

Assim, sem compromisso, Eric e Steve, passavam a maior parte do tempo livre tocando, fumando e tomando ácido no mesmo chalé que o Traffic ficou hospedado para se inspirar e criar o primeiro disco da banda, Mr. Fantasy (Island). As jams eram tranquilas até que, em uma madrugada, Ginger Baker chegou atraído pelos boatos de que lá havia boa música.

O trio passou a ensaiar e, em pouco tempo, uma nova banda concretizava-se. Apesar de Clapton ficar assustado com a provável volta à badalação dos tempos de Cream, sua vontade de gravar com o novo parceiro o fazia aguentar todo aquele mise en scène. Ainda faltava um baixista. Rick Grech, um camarada de Clapton, foi o escolhido para a função.

Uma vez formado o Blind Faith, o repertório era criado e o disco tomava forma. Jimmy Miller foi chamado para a produção do álbum, já que era conhecido pelo bom trabalho no Traffic. Entre maio e junho a obra-prima foi gravada.

Logo na abertura do disco um riff redondo de Clapton em Had to cry, além do vocal característico de Winwood. Can’t find my way home carrega uma leveza e, ao mesmo tempo, uma riqueza sonora. Well... Allright, cover de Buddy Holly, traz um Ginger Baker inspirado e um belo solo de teclado. O álbum também revela um Eric Clapton compositor, caso de Presence of the Lord, escrita na época em que comprou sua primeira casa. Durante a gravação da canção houve atritos entre ele e Steve: o guitarrista não queria cantar e ainda interferia na forma em que o tecladista gravava o vocal. Problemas dessa natureza seriam comuns mais tarde... Sea of Joy conta com um show a parte da voz marcante de Winwood. Para encerrar, Do what you like, composição de Baker. Uma verdadeira viagem psicodélica de 15 minutos, onde todos têm um momento na música, inclusive Rick Grech que passava, até então, despercebido.

Sem mais palavras, um tesouro do rock. Seu impacto foi enorme e até a capa da compilação trouxe polêmica. O artista Bob Seidemann colocou uma menina nua segurando um avião, fato que causou rebuliço na sociedade puritana norte-americana. Após uma ameaça de boicote ao disco por parte dos comerciantes, a gravadora mudou a capa: uma triste e fria foto da banda. Enfim, viva a liberdade de expressão...

A estreia do supergrupo foi em um show gratuito para um público de mais de 100 mil pessoas, no dia 7 de junho, no Hyde Park, em Londres. A expectativa era grande, tanto por parte dos fãs quanto pela imprensa, porém a estrutura disponível era insuficiente. O registro marca um Clapton distante, sem empolgação, e uma banda sem identidade. Aos interessados, este show foi lançado em DVD pela Sanctuary Visual Entertainment.

O grupo tentava achar um ponto de convergência entre eles. A sensação era que havia quatro músicos de renome que há pouco tinham se encontrado no palco. Apesar de uma boa turnê pela Escandinávia, Clapton estava cada vez mais à margem daquilo tudo. Steve cobrava uma postura mais preponderante de Eric, que não queira de forma alguma liderar a banda.

Ainda que os shows no Madison Square Garden, em Nova Iorque, estivessem lotados e do disco figurar entre os mais vendidos, a digressão pelos EUA foi o começo do fim. A banda contratada para abrir os shows do Blind Faith, Delaney & Bonnie, primeiro grupo branco contratado pela Stax (especializada em R&B e soul), logo roubaria as atenções de Clapton. O guitarrista venerava o som do casal, a ponto de sentir-se constrangido de subir ao palco depois deles. Aos poucos, o inglês passaria mais tempo com a banda de apoio do que com a sua própria. O fim do Blind Faith aproximava-se.

No dia 24 de agosto de agosto de 1969, em Honolulu (EUA), o quarteto realizava sua última apresentação. Neste dia os amantes do rock davam um adeus prematuro. O Blind Faith foi um cometa que passou pela Terra em um piscar de olhos, mas que ajudou a definir a música dos anos 1960.

sábado, 26 de setembro de 2009



Em carreira solo desde 1993, o guitarrista norte-americano é hoje um dos grandes representantes do blues. Após passagens pela banda de Albert Collins e pelos Bluesbreakers, Coco viaja pelo mundo com sua inseparável Stratocaster e impressiona o público com sua pegada blues-rock e feeling. Após a apresentação no 7º Rio das Ostras Jazz & Blues Festival, ele bateu um papo bem descontraído sobre o começo da carreira.

Ugo Medeiros – Nos anos 70, você tocou bateria na banda do Albert Collins. A partir da relação com o bluesman você passou a tocar guitarra. Você o considera seu grande mestre na guitarra?

Coco Montoya – Com certeza! Ele foi a maior influência na forma que eu toco e na minha vida, foi como um pai para mim. Apesar de eu ter escutado outros grandes guitarristas, como Eric Clapton e os “Kings” (BB, Albert e Freddie), Albert Collins foi o músico que mais me marcou.

UM – Você decidiu ser músico após assistir o Albert King em 69. O que você pode dizer sobre ele?

CM – Um ícone único. Ele é um daqueles guitarristas, assim como Albert Collins, que é impossível imitá-lo, pois ele tem um estilo próprio. Ao escutar uma nota da sua guitarra o ouvinte já reconhece. Esse é o sonho de todo músico, ser reconhecido de primeira pela música, mesmo que seja para dizer: “Ah não, esse tal de Coco Montoya é insuportável (risos)”.

UM - Depois, você integrou o Bluesbreakers por 10 anos. O que você aprendeu com o John Mayall?

CM – Ele me deu muita auto-confiança, pois eu era muito inseguro. Por Deus, eu estava na banda que Eric Clapton participou! Ele sempre falou para eu tocar o melhor que pudesse, independente do que os outros achassem.

UM – Durante a passagem pelo Bluesbreakers, você tocou com o Walter Trout. Como foi essa parceria?

CM – Posso dizer uma coisa sobre o Walter, ele vem daqui (apontando para o coração). Um guitarrista incrível e um cara sensacional que faz tudo de coração. Às vezes nos vemos e tocamos em alguns festivais, como nos tempos de Bluesbreakers. Somos muito amigos.

UM – Você tem uma pegada típica de blues-rock. Além dos mestres do blues, quais as bandas de rock que mais te influenciaram?

CM – Eu sempre gostei dos guitarristas de blues-rock. Eric Clapton foi uma grande influência, pois eu gostava muito do Cream. Jimi Hendrix também, mas um pouco menos. Eu escutava outras bandas, casos de Wishbone Ash (grupo que contou com excelentes músicos), Mike Bloomfield e Jeff Healey (um grande amigo que tocava como ninguém). Nossa, tinha muita coisa para escutar…

UM – O seu disco Can’t look back (2002) foi produzido por Jim Gaines. Como foi trabalhar com o cara que produziu músicos do calibre do Santana e Stevie Ray Vaughan?

CM – Ele é sensacional, um grande professional e, ainda sim, muito simples. Eu aprendi muito com ele, já que ele é das antigas. Todos que gravaram com ele tiveram grandes trabalhos. Eu, realmente, adoro aquele cara.

UM – Você começou a carreira solo em 93. Você acha que o seu som mudou ao longo desses anos?

CM - Espero que sim, pois eu gosto sempre de tentar coisas novas. Tem certas sonoridades que eu gosto de manter, mas no geral gosto de inovar. Estou gravando um disco novo, espero que vocês gostem do que estou fazendo.


Foto: Cezar Fernandes

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Curso de Jornalismo musical


A partir do dia 2 de outubro, ministrarei um curso de Jornalismo Musical na PUC-Rio. A realização é do Centro Acadêmico de Comunicação Social (CACOS). As aulas serão às sextas e segundas, das 15 às 17h. Todos que tenham interesse na área de comunicação e música podem participar. Valor do curso: R$10.

Justificativa: A música tem importante papel na sociedade, pois ela representa uma manifestação que ultrapassa apenas a esfera cultural. A música, independente do estilo ou nacionalidade, aponta para as características de um dado lugar, é uma forma de investigação. Desde o aparecimento de uma cultura pop e estilos mundialmente conhecidos e consumidos, o jornalismo teve relações com o cenário musical. Entretanto, com o crescimento da indústria fonográfica e a explosão dos meios de comunicação de massa, falar sobre música transcendeu textos técnicos (resenhas e críticas). Falar e escrever sobre música é ter uma profunda leitura sobre cultura, comunicação de massa, história, relações econômicas e choques de identidade, todos temas de largo interesse ao estudante de comunicação social.

Objetivo: Capacitar o aluno, com uma visão crítica, a entender o que representa, de fato, a música. Dá-lo ferramentas técnicas (padronização de textos e dicas jornalísticas) e teóricas (leituras e exercícios de reflexão). Ao final do curso, o aluno entenderá como se dá a relação músico/mercado/consumidor.

Conteúdo:

1ª aula – Abertura. Algumas técnicas de escrita a partir de leitura de reportagens. O que era o jornalismo musical. O que ele é hoje em dia.

2ª aula – Apresentação de vídeos de diferentes épocas, desde o blues, jazz, samba e rock. Exercícios.

3ª aula
– Exposição de trabalhos dos alunos. Apresentação de vídeos. Introdução ao debate sobre o mercado fonográfico.

4ª aula – O que é o espetáculo? A música como mercadoria. Exercícios.

5ª aula – Debate: Jornalismo musical e as perspectivas da indústria musical. Exercício final: resenha de um Show realizado CACOS.

Carga horária: 10h

Horário: Segundas e sextas, das 15h às 17h.

Local: Centro Acadêmico de Comunicação Social, CACOS.

Turma: Entre 10 e 15 alunos.

Professor: Ugo Medeiros – Geógrafo formado em Geografia pela PUC-Rio, licenciatura e bacharelado. Ex-editor do site Rio Rock & Blues, editor do Blog Coluna Blues Rock, Colaborador do site da Revista Blues’n’Jazz, Colaborador do Blog Collectors Room e da Revista Poeira Zine. Participou da cobertura de festivais como o 3º Festival Nacional de Blues (2007) e Rio das Ostras Jazz & Blues Festival (2007, 2008 e 2009).

Bibliografia básica:
• CANCLINI, Néstor Garcia. Consumidores e Cidadãos – conflitos multiculturais da globalização. Editora UFRJ. 2008, Rio de Janeiro.
• DEBORD, Gui. A Sociedade do Espetáculo. Editora Contraponto. 1997, Rio de Janeiro.
• CLAPTON, Eric. Eric Clapton: a autobiografia. Editora Planeta. 2007, São Paulo.
• WENNER, Jann S. e LEVY, Joe (Orgs). As Melhores Entrevistas da Revista Rolling Stone. Editora Larousse. 2008, São Paulo.
• HARRIS, John. The Dark Side of the Moon: os bastidores da obra-prima do Pink Floyd. Jorge Zahar Editor. 2005, Rio de Janeiro.
• BANGS, Lester. Reações Psicóticas. Editora Conrad. 2005, São Paulo.
• DIMERY, Robert (Org). 1001 Discos para Ouvir Antes de Morrer. Editora Sextante. 2007, Rio de Janeiro.
• Artigos das revistas Rolling Stone, Poeira Zine e Blues’n’Jazz.

Bibliografia complementar:
• MARCUS, Greil. A Última Transmissão. Editora Conrad. 2006, São Paulo.
• RIBEIRI, Helton. Blues. Editora Abril. 2005, São Paulo.
• FRIEDLANDER, Paul. Rock and Roll – uma história social. Editora Record. 2006, Rio de Janeiro.
• CHACON, Paulo. O que é Rock. Editora Brasiliense. 1982, São Paulo.
• LAWRENCE, Sharon. Jimi Hendrix – a dramática história de uma lenda do rock. Jorge Zahar Editor. 2008, Rio de Janeiro.
• MEDEIROS, Ugo. Um Brinde à farsa de Woodstock. 2009, Rio de Janeiro.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Um brinde à farsa de Woodstock!


“Conheci muita gente que participou de Woodstock. Se queixaram do som ruim, do excesso de pessoas, do cheiro de fezes e urina, mas que, maconhados, acabaram achando tudo bom. Mas o efeito real de Woodstock foi impor o rock às gravadoras”, escreveu Paulo Francis à Folha de São Paulo em 1989. Nunca pensei que um dia citaria esse velho reacionário. Eis que esse dia chegou. E logo para me auxiliar em um texto sobre rock.

Ultimamente, as grandes mídias têm reservado a parte de cultura, que já é pequena, com matérias sobre os quarenta anos de Woodstock. Infelizmente, nesse país sem tradição roqueira em que Blitz é considerado rock e Carlinhos Brown é atração do Rock in Rio (maior festival brasileiro de rock), é de se esperar que essa cobertura musical seja fraca e extremamente previsível. Páginas e páginas de pura inutilidade jornalística abordando apenas o óbvio. Houve até entrevistas com convidados inusitados, como a do comentarista de futebol Casagrande. Perde-se um valioso espaço para celebrar o senso comum. A mídia brasileira aparenta um fetiche à ignorância e à preguiça, e isso fica claro na falta de conhecimento sobre o estilo musical e na investigação histórica insuficiente. Enfim, um verdadeiro mau gosto. Assim como o público “maconhado”, o jornalismo brasileiro demonstra estar dopado sob fortes medicações que o impede de raciocinar.

Ao contrário do que circula nos grandes veículos de comunicação, o Woodstock Music & Art Fair não foi uma celebração contracultural em prol da paz e liberdade. “Paz” e “liberdade” foram apenas fantasias para disfarçar o verdadeiro objetivo do festival: lucro à indústria fonográfica. De quebra, talvez como brinde, o evento também celebrou a morte da contracultura norte-americana e marcou o nascimento do espetáculo no rock. O estilo musical se tornaria, dessa forma, nocivo e bastante proveitoso (leia-se lucrativo). Um ano depois, com o sucesso do documentário dirigido por Michael Wadleigh, Woodstock, o rock seria facilmente domesticado e perderia seu caráter original de contestador e “anárquico”. Vale a pena mencionar, rapidamente, que o punk, como um subestilo, retomou a tradição contestadora, mas infelizmente teve vida curta até o seu quase total corrompimento pela grande indústria (salvo algumas exceções).

A Contracultura

Primeiramente, é válido determinar e entender o que seria contracultura, para, então, traçar o contexto que os Estados Unidos viviam. A contracultura foi uma tentativa ideológica anti-establishment, originalmente criada nos EUA, ao final dos anos 50, e na França, em 68. Segundo CASTRO, este movimento foi “(...) um grande sonho coletivo, de uma poderosa utopia de transformação social, características de um tempo em que se acreditou em quebrar antigos padrões e introduzir, criar, novos valores, em que a vida livre encontrava a sua celebração. Rompendo sem querer romper, esses artistas-pensadores insuflaram a cultura mundial com um sopro vital ao mesmo tempo de destruição e criação (CASTRO in ALMEIDA e NAVES, 2007, pág. 13)”.

Esse movimento pregava a estética da ruptura, ou seja, a busca pela “verdade”. Esta não seria o próprio desvendamento, mas, sim, o meio de se tentar chegar a ela. E apenas semeando a discórdia em relação ao senso comum, chegar-se-ia a este objetivo. Como diria Platão, a busca seria através da primeira etapa do pensamento filosófico: o questionamento (MEDEIROS, 2008).

“A verdade, compreendida como revelação, tem sua morada na materialidade da linguagem e das formas artísticas, e espera a interpretação inovadora que a faça reaparecer em um relampejar messiânico. Longe de ser um conhecimento que intenciona encontrar cada coisa a sua classe ou o seu gênero, ela é um conteúdo inseparável da forma: a violência sublime que, ao destruir toda completude ilusória, suscita precisamente o experimento da perda, da evasão, a experiência da própria origem da linguagem e da arte que coloca em xeque a pretensão totalizante do discurso (CASTRO in ALMEIDA e NAVES, 2007, pág. 23)”.

A sociedade baseada na organização pelo Estado-nação, repressor por natureza, pregava uma dominação via alienação cultural. Assim, o principal objetivo desse movimento (contra) cultural era o rompimento dos horizontes, extrapolar o pensamento imposto pelo Estado e a ideologia consumista do poder privado. Os representantes e principais líderes dessa “escola” sabiam que a dominação via cultura era a forma mais eficaz de controle. A contracultura queria romper. A revolução não seria através da política, como muitos pregavam naquele período bipolar de Guerra Fria; mas, sim, da cultura.

“A poesia tem um caráter duplamente ‘revolucionário’: primeiro porque vai contra o mundo-mercadoria que cada vez mais domina a face do planeta, e seu caráter lúdico torna-se transgressor: ela não pertence à lógica e ao mundo da compra-e-venda. A poesia é gratuita, ‘não tem finalidade’, sua utilidade é sua in-utilidade: mostrar ao mundo da produção e do consumo sua contra-face, oculta, sufocada – o mundo da imaginação e da sensibilidade, ‘incontrolável’ mundo dos sentimentos do qual a razão nunca vai tomar posse. Como disseram grandes poetas e escritores que sofreram nas prisões, a única coisa que nunca pode ser aprisionada é a imaginação. E a imaginação pode nos proporcionar a poesia mais profunda, as viagens mais alucinantes; mesmo na clausura mais recôndita do mundo (HAESBAERT, 2002, pág. 147)”.

O começo dos anos 1960 foi marcado por uma nova onda, o LSD. Aldous Huxley escreveu sobre as possibilidades trazidas pelo ácido lisérgico. Timothy Leary, que mais tarde faria participações em gravações de algumas bandas, como a alemã Ash Ra Tempel, pregava o uso do químico para fins médicos e tinha o lema “Turn on, tune in, drop out” (“ligue-se, entre na onda, caia fora da sociedade”). “Ken Kesey, o beatnik Neal Cassidy e o pessoal do The Merry Pranksters propagavam o uso de LSD. O pessoal chegou a usar um ônibus escolar de 1939, pintando tudo com cores berrantes e durante uma viagem de São Francisco a Nova Iorque espalharam a ‘droga da felicidade’ pelo país. Ao longo do caminho, cruzaram com Allen Ginsberg, Jack Kerouac e Timothy Leary” (ARAÚJO, 2006, nº11, pág. 11). Era uma efervescência cultural que atacava os antigos costumes e comportamentos daquela sociedade em crise política (confronto no Vietnã) e social (questão racial). As barreiras da percepção e concepção de mundo eram expandidas. Os EUA mudavam. O mundo nunca mais seria o mesmo.

A tentativa de transformar a sociedade e transformar o cotidiano urbano em uma grande experiência psicodélica transcendental através da literatura, meditação oriental e drogas lisérgicas, marcou a cidade de São Francisco. Os jovens adeptos desse retorno à uma vida mais simples, negavam a imposição ao mundo “coisificado” pelo valor mercantil. Norte-americanos de todas as partes do país destinavam-se à Haight-Ashbury (São Francisco) com a certeza de que lá seriam capazes de viver da subsistência, onde o câncer do capitalismo e o Estado autoritário comunista não destruiriam a mente do ser humano. Todos poderiam viver em paz, escutando jazz, rock e fumando maconha.

A explosão psicodélica, em 1966, trouxe uma nova perspectiva das artes. “Os happenings estavam indo além de meras experiências sonoras. 1966 marcou também a explosão da cena West-Coast norte-americana, onde a contracultura, literatura underground, mensagens pacifistas e um modo de vida oposto ao american way of life eram embalados com muito LSD, sempre tendo trilha sonora as maravilhosas bandas locais” (ARAÚJO, 2006, nº13, pág. 13). Naquele contexto, algumas bandas ganhavam gradativa fama e atenção do público da região. Inicialmente, a cena musical era composta por bandas interessantes que apresentavam-se em festas e grandes salões abandonados. A lista é bem grande, eis algumas: Country Joe & The Fish, The Charlatans, The Beau Brummels, The Great! Society, Quicksilver Messenger Service, The Stained Glass, The Chocolate Watchband, Moby Grape, Love, etc. As bandas mais relevantes, que alcançaram maior maturidade musical e sucesso comercial, foram o Big Brother & the Holding Company (da onde saiu Janis Joplin), o Grateful Dead, Jefferson Airplane, Santana e Mothers of Invention (banda liderada pelo genial Frank Zappa). Essa geração formou o som de São Francisco.

A experiência do psicodelismo e da subsistência ganhava força, principalmente durante o Summer of Love, 1967. Festas, sexo livre, experimentações e shows gratuitos nos parques: era um sonho coletivo. Mais do que isso, era uma viagem sem bad trips. O ano também marcou a criação do mais importante veículo de comunicação daquele novo segmento jovem, a revista Rolling Stone Magazine, que em pouco tempo ganharia leitores por todo o país, difundindo por todo o território norte-americano o que se passava por terras californianas. “No verão do amor, o Human Be-in em São Francisco marcou época. 20000 ‘friques’ unidos no Golden Gate Park. Sabadão ensolarado, LSD, poesia beat e shows com as melhores bandas locais como o Grateful Dead, Jefferson Airplane, Quicksilver Messenger Service, Country Joe & The Fish e muitos outros. Esse foi o marco zero do hype sobre o ‘Frisco Sound’” (ARAÚJO, 2006, nº11, pág. 11).

As primeiras marcas daquela nova subcultura logo ficariam expostas por aquele lugar. Lojas com produtos típicos, como insenso, roupas indianas, revistas undergrounds e alguns produtos ilícitos ocupavam os velhos casarões de Haight-Ashbury. Rapidamente, um grande evento, trazendo aquela nova cultura pop, foi organizado nos arredores de São Francisco naquele mesmo ano, o Monterey Pop Festival. Esse pioneiro festival de rock, contou com a nata das bandas daquele período e, diga-se de passagem, foi um evento sem fins lucrativos, onde todas as bandas tocaram de graça (com exceção de Ravi Shankar e The Mamas and the Papas). “Em pleno ano de 1967, quem foi ao festival curtiu uma grande feira, onde eram vendidos comida macrobiótica, artesanato, jóias, pôsteres, flores, amuletos e outros badulaques. Havia também um auditório, onde as pessoas podiam assistir numa tela o que rolava no palco, isso através de um moderníssimo circuito fechado de vídeo. Outra atração futurista era a Moog Exhibit, uma demonstração dos sintetizadores Moog, que funcionava para os hippies como uma espécie de ‘alucinação auditiva’”(ARAÚJO, 2007, Edição Especial nº1, pág. 16). Apesar de ter sido estereotipado como o evento dos “malucos da California” e por ter a canção-tema São Francisco (be sure to wear flowers in your head), interpretada por Scott Mackenzie, o Monterrey Pop Festival é o verdadeiro encontro da contracultura, ainda com seus valores intactos. Vale lembrar que foi a ocasião em que artistas como Jimi Hendrix, Janis Joplin e Otis Redding ganharam notoriedade.

Porém, a partir do final daquele ano, o mesmo que começou de forma tão mágica, muitas dessas bandas foram seduzidas pelos dólares das grandes gravadoras e junto com o sucesso dessas bandas, aumentavam suas casas (mudando-se das casas coletivas) e coleções de carros de luxo. Produtos típicos daquela tribo, vestimentas exóticas e insensos, passam a ser vendidos em lojas patenteadas por todo o território norte-americano, a violência em Haight-Ashbury aumenta e as drogas “puras” para expandir a mente são falsificadas e vendidas através do crescente tráfico de drogas. “A taxa de criminalidade de Haight aumentou, em parte por causa do uso de heroína e anfetaminas e, em parte, pelo número de pessoas pobres que largaram o segundo grau e que, ao contrário dos jovens mais abastados que tinham largado a universidade nos anos anteriores, encontraram dificuldades para sobreviver. Em 6 de outubro de 1967, uma multidão carregava um caixão em uma passeata pela Haight Street, numa cerimônia simbolizando a morte da cultura hippie. Entretanto, a comunidade não desapareceu da noite para o dia, e enclaves da contracultura da Haight continuaram a pipocar por todos os Estados Unidos. Não muito atrás estava a Madison Avenue (nota: parte rica de São Francisco), que usava os símbolos e artefatos da contracultura em suas propagandas (FRIEDLANDER, 2006, pág. 282)”.

Aos gritos de “Os hippies morreram, vivam os homens livres!”, um novo tipo de organização nascia, a Youth International Party (YIP). Essa entidade representava a politização dos ex-hippies, uma Nova Esquerda, avant garde. A esfera cultural era substituída pela política e autores da geração beat pelo marxismo. Era o fim da contracultura norte-americana.

Mas, afinal, o que foi Woodstock?

“1967 foi o ‘ano da flor’, um ano de ênfase cultural. As grandes manifestações de massa de 1968 foram principalmente políticas. E em 1969 observou-se uma convergência político –cultural, culminando em Woodstock” (MUGGIATI, 1973, pág. 26).

Concebido como um evento meramente mercadológico e embalado em uma desculpa pacifista, Woodstock elevou (ou rebaixou) o rock a um patamar inimaginável. O badalado evento, que causou um caótico congestionamento pelas rodovias do país, ganhou proporções continentais. Todo jovem norte-americano, hippie ou não, queria participar daquilo que propunha mudar o mundo.

“Três dias de música, paz e amor”. Apenas três dias, depois disso todos voltariam para suas casas com o rabo entre as pernas e continuariam com suas vidas medíocres e sem graça. As bandas, diferentemente de Monterey, ganharam cachê e lutavam pela participação, já que aquela seria a oportunidade certa de ganhar renome internacional. Os shows em locais públicos eram trocados por caros ingressos (justiça seja feita ao Grateful Dead, que nunca deixou de realizar shows gratuitos. Não é de se assustar com o fato da banda ter um grande número de seguidores). Era contraditório o fato das bandas protestarem contra os valores norte-americanos, se eles mesmos o afirmavam indiretamente: “O rock pode ter vindo da rua, mas separando você dos músicos existem bilhões de dólares; algumas gravadoras também têm contratos com o governo e ou ganham com a cultura jovem antibelicista, ou ganham matando na guerra” (MUGGIATI, 1973, pág. 76).

Woodstock foi pago. Ok, Monterey também, mas a proposta era outra. Woodstock foi a primeira mega-produção de rock exportada para o resto do planeta (levando-se em conta que a ascensão meteórica de Elvis Presley foi restrita aos EUA e Inglaterra). Monterrey foi um evento de menor aglomeração, já Woodstock foi faraônico, foram vendidos 100 mil ingressos, mas calcula-se em torno de 500 mil presentes. Monterey trazia o frescor de uma geração sedenta pela arte, Woodstock trazia curiosos antropofágicos que consumiam culturas estilizadas pelo main stream. Monterrey contou as principais bandas no auge, exemplos de Jimi Hendrix, Janis Joplin e 13th Floor Elevator; Woodstock apresentava shows mal equalizados e artistas consumidos e esfacelados pela selvagem relação com a indústria fonográfica. É evidente que Woodstock teve alguns belos concertos, tais como Sly & the Family Stone, Crosby, Stills, Nash & Young e Canned Heat, mas no geral foi um engodo marketeiro para as grandes gravadoras.

Dizem que o Led Zeppelin recusou a oferta de tocar no festival, pois teria achado a proposta uma palhaçada. FINALMENTE essa banda marcada por atitudes imbecis, declarações bestas e por acareações desproporcionais por parte da mídia (apesar de ser musicalmente quase perfeita) pensou certo. Woodstock foi a concretização da domesticação do rock. E, desde então, esse estilo musical sofre reflexos em sua ideologia e estrutura. Brindemos à morte do rock espontâneo, à ignorância cultural e ao mercado, pois sem ele não podemos ser felizes...

Cultura do espetáculo e o american way of life

Após o sucesso comercial de Woodstock os comandantes da indústria fonográfica viram o quanto o rock tinha muito a lhes oferecer. A transição do rock como grande negócio não acontecera apenas em 1969. Afirmar que o festival foi o responsável por isso seria de uma grande irresponsabilidade histórica.

“Pode-se medir o poder do dinheiro jovem pelas vendas de discos nos EUA, que subiram de 277 milhões de dólares em 1955, quando o rock apareceu, para 600 milhões em 1959, e 2 bilhões em 1973 (HOBSBAWM, 1993, pág. XXIX). Cada membro do grupo etário de cinco a dezenove anos, nos EUA, gastava pelo menos cinco vezes mais em discos em 1970 do que em 1955. Quanto maior o país, maior o negócio fonográfico: jovens nos EUA, Suécia, Alemanha Ocidental, Países Baixos e Grã-Bretanha gastavam entre sete e dez vezes mais por cabeça que os países mais pobres, porém em rápido desenvolvimento, como Itália e Espanha (HOBSBAWM, 1994, pág. 322)”.

Entretanto, procuro frisar que Woodstock ajudou na mutação do rock como grande negócio para um entretenimento espetacular das grandes corporações. O espetáculo, termo criado pelo francês Guy Debord, em 1967, representa uma série de medidas que o sistema capitalista faz para fetichizar e aumentar o consumo. Minha intenção é utilizar esse termo e mostrar como ele foi absorvido pelo mercado fonográfico.

O espetáculo é uma relação social entre pessoas, mediada por imagens. É a representação do mundo materializado, uma visão demasiadamente objetiva. Infelizmente, a realidade contemporânea surge no espetáculo e o espetáculo é mais real do que nunca. “O espetáculo é o herdeiro de toda a fraqueza do projeto filosófico Ocidental” (DEBORD, 1967).

O ser humano, perdido meio as suas frustrações, consome imagens e estas são artificiais. O sujeito abandona a relação com o sagrado e o orgânico para viver com o pseudo-sagrado. Isso é o espetáculo, a dominação do homem pela mercadoria. “O consumidor real torna-se consumidor de ilusões. A mercadoria é essa ilusão efetivamente real, e o espetáculo é sua manifestação geral” (DEBORD, 1967).

Esse consumo de espetáculos roqueiros potencializou-se após o grande festival. “Criou-se a Woodstocklogia, ramo do conhecimento dedicado ao estudo exclusivo de Woodstock e, dos negócios destinado a fazer com que as pessoas consumissem Woodstock: em disco (um álbum de 3 LP’s, sucesso de vendas, seguido por outro de 2 LP’s), no cinema (com o filme multimilionário de Michael Wadleigh), em camisetas, edições (livros, revistas, álbuns, fotografias), etc” (MUGGIATI, 1973, pag. 27).

As bandas, que antes tocavam em garagens ou casas modestas, ornamentavam suas apresentações com artes independentes. Após o novo boom do rock pós-69, efeitos pirotécnicos, shows de lasers e uma série de parafernálias tornaram-se comuns nesse meio. Isso tudo não foi de graça, quem sentiu na pele (ou melhor, no bolso) foi o público, que, além de consumir a música, consumiria “coisas” agregadas à apresentação. Um dos grupos que mais utilizou incrementos técnicos para construção de um espetáculo, foi o Led Zeppelin.

“De 1972 a 1975 a banda ganhou a estrada. Suas turnês continuavam a ser recordes de público e arrecadação, em parte pelas táticas visionárias de Peter Grant (nota: empresário da banda). Para a turnê de 1972, o Zeppelin decidiu oferecer aos organizadores locais 10 por cento da renda em vez dos habituais 40 ou 50 por cento. A banda alugou estádios, criou uma campanha promocional e contratou promotores locais para desenvolvê-las. Valeu o risco. Excursionando ao mesmo tempo que os Rolling Stones – e apesar de estes terem conseguido notas positivas na imprensa - , o Zeppelin tocou para platéias maiores. Para a turnê americana de 1973, quando Houses of Holy foi lançado, o Zeppelin contratou um novo jornalista e uma empresa de iluminação e com chamada Showco; o espetáculo de luz, que utilizava globos, canhões, refletores giratórios, gelo seco, foi considerado de primeira categoria” (FRIEDLANDER, 2006, pág. 340).

Um exemplo mais recente, e que me toca muito, é a turnê mundial do ex-integrante do Pink Floyd, Roger Waters. Um espetáculo computadorizado, com telão high tech, lasers, fogo, porco voador, animação, etc. Uma banda composta por quase quinze músicos deixava o som quase igual à gravação original do disco. Eu gostaria de ver um show mais humano, um som mais cru e com menos músicos. O show era artificial, apesar de ser tecnicamente perfeito. Um produto caro, mas bom para ser degustado. Mercadoria...

Às vezes, cabe a pergunta: e quando falaremos de música? Sinceramente, a música virou mero detalhe, haja vista a quantidade de inúteis que temos nesse meio. O importante é transmitir a mensagem. Que mensagem? Não nos esqueçamos que o mundo era bipolar e havia uma disputa pela hegemonia mundial entre capitalismo e comunismo. Após a espetacularização do rock, o governo norte-americano deixou de enxergá-lo como música de protesto e como um mau sintoma da sociedade, para usá-lo como principal ferramenta de divulgação do american way of life.

“O blue jeans e o rock se tornaram marcas da juventude ‘moderna’, das minorias destinadas a tornar-se maiorias, em todo país onde eram oficialmente tolerados e em alguns onde não eram, como na URSS a partir da década de 1960 (Starr, 1990, capítulos 12 e 13). Letras de rock em inglês muitas vezes nem eram traduzidas. Isso refletia a esmagadora hegemonia cultural dos EUA na cultura popular e nos estilos de vida, embora se deva notar que os próprios núcleos da cultura jovem ocidental eram o oposto do chauvinismo cultural (HOBSBAWM, 1994, pág. 320)”.

Woodstock e sua construção megalomaníaca rodou o mundo através dos cinemas e ganhou adeptos distantes que sonhavam estar lá. Sonhavam, mas também consumiam. São quarenta anos de festival e sabe o que foi anunciado para “celebrar” a data? Uma nova série de CD’s com algumas das apresentações. Surpresa? Não, nada mais coerente.

E o legado de Woodstock?

As principais conseqüências de Woodstock foram a domesticação do rock e o aumento do valor agregado aos produtos, como já foi dito. Posso dar alguns exemplos. O primeiro, um depoimento de Bill Graham (um dos maiores empresários do rock). Em 1971, “Disse Bill Graham (nota: Grande empresário do rock) ao anunciar o fechamento (nota: Referindo-se aos fechamentos de Filmore West e East, dois dos maiores templos do rock): ‘quando começamos em 1965, eu lidava com “músicos” sindicalizados. Agora só lido com “executivos” e “acionistas” de grandes corporações – com a única diferença de que usam cabelos compridos e tocam guitarra. O rock está se tornando uma General Eletric, uma Pacific Gas & Eletric’. Alegando que sua motivação principal nunca foi o dinheiro, Graham acrescentava: ‘A inflação irracional e quase destrutiva dos concertos ao vivo foi por mim denunciada. Dois anos atrás, adverti que o síndrome do Festival de Woodstock seria o começo do fim. Eu estava com a razão... Continuo a deplorar a exploração das gigantescas salas de concerto, muitas delas cobrando ingressos altíssimos. Quando um grupo me pede $5000 por um concerto, eu posso cobrar $3 ou $4 por ingresso. Mas se me pedem $30000, $40000 ou $50000, não tenho outra saída senão aumentar o preço do ingresso’(MUGGIATI, 1973, pág. 75).

Se dentre os vários equívocos de Woodstock, algo deu certo (mesmo tendo tudo para der errado) foi a calma entre as centenas de milhares de pessoas. Infelizmente, o mesmo não pode ser dito em relação ao Altamont Festival. Enciumados por não serem chamados para o festival de meses antes, os Rolling stones produziram um festival. O evento, mal organizado e que atraíra uma multidão de quase meio milhão de pessoas, foi um desastre do começo ao fim e teve até mortes. E tudo isso, apenas para provar que Mick Jagger e companhia eram os maiores nomes do rock. O estilo “mega” de Woodstock virara sinônimo de poder entre as bandas mais poderosas. Essas cenas podem ser vistas no DVD Gimme Shelter.

Outro exemplo é o quebra-pau durante o Festival Express, 1970, ocorrido no Canadá. Tratado como o “Woodstock canadense”, o evento itinerante levou o público à ira devido ao preço da entrada. Vale a pena assistir este documentário e ver a relação músicos/produtores/público. É bom observar a cobertura dentro do trem, onde os músicos são tratados como celebridades. Não que já não fossem altamente reconhecidos, mas até então esses festivais funcionavam de forma que a grande banda participava de um evento em que o público era o mais importante. Após o Woodstock, o músico ficou maior, evidenciando o que Lester Bangs chamava de fetichização do super star.

Um exemplo recente, que serve para mostrar o quão poderoso foi o efeito Woodstock. 13 de julho é o Dia Internacional do Rock. Para celebrar essa data, organizaram um show gratuito do Cachorro Grande nos Arcos da Lapa. Eu respeitava a banda pelas boas influências que os integrantes tiveram em suas respectivas formações musicais. Pois bem, chegamos ao local e fomos tomar uma cerveja. A apresentação iniciara. Ao terminarmos a bebida, nos encaminhamos pra ver o show, afinal era o dia do rock. Para nossa surpresa, após 4 (quatro) canções aqueles farsantes encerraram. E ainda teve uma alta dose de cinismo ao gritarem “Viva o rock!”. Viva o Rock? Que rock? No Dia Internacional do Rock, uma banda relativamente grande tem uma grande chance de tocar para um bom público, mas eles saem depois de 15 minutos? “Mas isso é coisa da gravadora...”, argumentam os mais ingênuos. O rock é rebelde por natureza e vai além de algumas palavras escritas e assinadas em um contrato frio e sem sentimentos. O espírito anárquico do rock morreu e graças, em grande parte, ao Woodstock. Por Deus, ainda bem que ainda há nomes como Jello Biafra, um dos únicos que bateu de frente com o Office-rock (rock de terno e gravata)! Mas enfim, escrever sobre o Dead Kennedys fica para outra oportunidade.

O efeito Woodstock foi tão avassalador que até John Lennon, um dos maiores publicistas do rock e um verdadeiro mala, falou sobre a morte dos ideais roqueiros. Em 1971, para o espanto de todos, Lennon desabafa em entrevista a Rolling Stone Magazine: “O sonho acabou! Com isso quero dizer que toda essa euforia de ‘poder jovem’ – mito da ‘nova geração’, enfim, se foi” (MUGGIATTI, 1973, pág. 72).

Esse texto pode pecar pelo radicalismo, mas sinceramente pouco me importa. Assumo que já fui ignorante, de fato, já fui um fã daquele espetáculo. Mas tive a sorte de ler essa passagem de John Sinclair. Essa fala é tão forte e consciente que não tenho coragem de escrever depois. Agradeço aos que leram. Encerro por aqui.

“John Sinclair – poeta, fundador do grupo radical White Panther e de um grupo de rock, o MC5 – condenado a 10 anos de prisão por porte de maconha, escreve da prisão numa carta: ‘Muitos jornalistas falaram de Woodstock como sendo um campo de concentração hippie ou disseram que era possível entrar na onda se existisse um campo de concentração prafrente como aquele, onde cada um pudesse ficar na sua e não ter que aturar os gritos incríveis que existem no mundo. Não admira que os negros não tenham respeito por estes débeis mentais. Mas é nossa tarefa educar o povo, e isso precisa ser feito ou então é melhor chutar tudo pro alto e esquecer – pelo menos é assim que penso. Não quero ser parte de uma nação de imbecis que ficam sentados consumindo drogas e ouvindo discos medíocres. Isso me encheu pra vida. E os outros, os “políticos”, são tão medíocres quanto os hippies e sua cultura igualmente medíocre. Os discos que ouvem são ainda piores...” (MUGGIATI, 1973, pág. 27).



Referências Bibliográficas:


CASTRO, Claudia Maria de. “Ruptura e utopia: entre Benjamin e a contracultura”. In: “Por que não?”, organizado por Almeida, Maria Isabel Mendes de, e Naves, Santuza Cambraia. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2007.
FRIEDLANDER, Paul. Rock and Roll: uma história social. Rio de Janeiro: Editora Record, 2006.
HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
MUGGIATI, Roberto. Rock - o grito e o mito. Petrópolis: Editora Vozes Ltda, 1973.
DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo, 1967.
MEDEIROS, Ugo. Críticas à sociedade norte-americana: uma leitura a partir do rock, 2008.
ARAÚJO, Bento. Poeira Zine edições 11 e 13, 2006.
_______________ Poeira Zine edição especial 1, 2007.

sábado, 8 de agosto de 2009

"Esse disco mudou a minha vida" #1 - Ricardo Batalha


"Este disco mudou a minha vida" - VOL 4 – Black Sabbath


Descobri o Heavy Metal por acaso, na passagem de 1979 para 1980, ouvindo o disco Vol 4 da banda inglesa Black Sabbath, a grande precursora do estilo. Como meu falecido pai havia sido advogado da gravadora Odeon e habitualmente levava para casa caixas LPs, especialmente na época do Natal, o álbum estava largado em algum canto, mas nunca tinha escutado-o. Em meio a muitas coletâneas, a maioria de Disco Music do final dos anos 70, lá estava o Vol 4, que rapidamente se tornou meu preferido. A partir daí, passei a ouvi-lo todos os dias.

O Black Sabbath pode ter simplificado o título de seu quarto trabalho de Snowblind para Vol 4, mas demonstrou maturidade e evolução em relação aos anteriores: Black Sabbath, Paranoid e Master of Reality. Como conseguir isto num período de excessos com drogas, álcool e o esgotamento físico é algo que só o Heavy Metal explica.

O grupo deixou a Inglaterra para gravar no Record Plant Studios, em Los Angeles (EUA). Lá, se fixou em uma mansão localizada em Bel-Air que pertencia ao milionário John DuPont. Mesmo em meio a alguns abusos e muita farra, o Sabbath compôs outra grande obra, lançada em 25 de setembro de 1972.

A abertura vem em grande estilo com Wheels of confusion e lá está Bill Ward detonando na batera. O disco segue com a furiosa Tomorrow's dream. Supernaut fala de drogas e só o sussurro 'Cocain' de Ozzy em Snowblind dispensa comentários. Os momentos calmos vêm com Laguna sunrise e na balada Changes, que virou hit de rádio. A música, que teve os teclados executados por Tony Iommi (piano) e Geezer Butler (mellotron), foi usada tempos depois no "Lado B" do single Sabbath bloody sabbath.

Vol 4 ainda traz Cornucópia, St. Vitus dance e Under the sun, típicos exemplos de onde veio o estilo Doom Metal. Os timbres dos instrumentos viraram referência e muitos músicos ainda tentam captar a essência de Vol 4, que em menos de um mês obteve o disco de ouro, posteriormente sendo o quarto disco consecutivo da banda a obter a marca de um milhão de cópias vendidas nos EUA.

Por Ricardo Batalha, editor-chefe da revista Roadie Crew

Luz, câmera e música! – More (1969)



Ficha técnica:

Direção – Barbet Schroeder
Roteiro – Barbet Schroeder e Paul Gegauff
Fotografia – Nestor Almendros
Trilha sonora – Pink Floyd
Elenco – Mimsy Farmer, Klaus Grunberg, Heinz Engelmann e Michael Chanderli
Duração – 116 minutos

Os anos 60 foram conturbados, o mundo estava em ebulição. O filme do diretor alemão Barbet Schroeder retrata com perfeição a contracultura europeia, sem frescuras ou pudores. More foi concebido como um filme de pura arte que tentava buscar respostas para a mutação de pensamentos dos mais novos. Rodado na França e Espanha, o longa metragem é, de fato, uma produção multicultural, já que ao longo da obra fala-se inglês, espanhol, francês e alemão.

Drogas, sexo e rock’n’roll. Pode parecer um clichê, mas essa frase resume bem o filme, que tem o Pink Floyd como responsável pela trilha sonora. Como um floydmaníaco assumido, tenho o disco homônimo ao filme como um dos favoritos. Nesse disco os ingleses apresentam o último resquício da psicodelia. Mas, deixemos a resenha desse álbum para outro dia.

Voltando a sétima arte, More é perfeito do começo ao fim. Em plena Paris, cidade sede de revoltas estudantis e de movimentos de esquerda, um alemão se apaixona por uma americana, meio a algumas ações ilegais. Consumo deliberado de álcool e maconha, sexo e um mundo a ser descoberto. A estética é belíssima, sem qualquer uso artificial. Nos rostos dos atores ainda havia um ar ingênuo que todo aquele idealismo deixara, mas que, infelizmente, acabaria em pouco tempo.

O casal viaja para Ibiza, onde passa a morar afastado de tudo. Lá, vivem apenas por viver, escutando música, lendo, vivendo da natureza e utilizando drogas. Não demora muito até que a heroína adentre em suas vidas, deixando uma cicatriz aberta e infecciosa. A relação de amor entre os dois é substituída pela necessidade à droga.

Esse não é um típico filme com um final feliz ou que mostra a contracultura de forma romantizada e vendida, como Hair (1979). More é dramático, lento, ácido e crítico. Uma obra prima do cinema. Se a contracultura faliu, esse filme é preciso em mostrar as razões.

domingo, 2 de agosto de 2009

10 anos de estrada



O Beale Street, banda carioca de blues, comemora nesta quinta (6) os dez anos de carreira com um show no Conversa Afinada, Ipanema. Ivan Mariz (guitarra e vocal) e Cesar Lago (baixo) terão reforços de peso: Beto Werther, baterista do extinto Big Allanbik (um dos grupos mais importantes do blues nacional), e Léo Torresini, guitarrista inseparável de Big Joe Manfra.
O quarteto viajará pelas águas do Mississipi e trará um repertório composto de clássicos de Albert King e outros nomes históricos, além de canções autorais contidas nos dois álbuns, Noubári Isóf Áiron (independente) e Vibratto (Blues Time Records). A apresentação ainda contará com participações especiais de diversos músicos, como a dupla Jefferson Gonçalves e Kléber Dias e Sergio Rocha.
Ao longo desses dez anos, o Beale Street mantém a bandeira do blues erguida, apesar das dificuldades inerentes à cena. Esse show, mais do que justo, representa uma vitória de todos os músicos de qualidade que não recebem devida atenção dos grandes canais de comunicação. Quem comparecer verá uma banda tocar o blues com uma pegada rock. Blues simples e direto. Sem arrependimentos.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Entrevista Johnny Ohnmacht


Considerado uma das grandes revelações do blues americano, o guitarrista do Colorado faz um blues com bastante influência de funk e jazz. Atualmente, lidera a Johnny O. Band, com a qual já gravou três discos, Johnny O. Band (1997), River in the Sky (2000) e Time for Turnaround (2004). Esbanjando simpatia e humildade, o bluesman bateu um papo bem descontraído antes de sua apresentação no Rio Rock & Blues.

Ugo Medeiros – O seu som tem influências de jazz e funk. O que você escutava na infância?

Johnny Ohnmacht – O primeiro contato com a música foi através do meu avô. Ele era da filarmônica de Nova Iorque e eu sempre o escutava praticando. No colégio, passei a escutar outras coisas. O primeiro guitarrista que escutei foi o Santana. Depois conheci Allman Brothers Band e Stevie Ray Vaughan, fui aos shows dessas duas bandas em 84, 85, 86 e 87. Entretanto, o meu blues vem de nomes como Albert King, Freddie King, BB King e Albert Collins. Essas foram as grandes influencias quando eu era menor.

UM – Você é do Colorado. Qual o perfil musical daquela região? Você acredita estar criando um “Colorado blues”, assim como já existe o Chicago e o Memphis blues?

JO – É uma boa pergunta. No Colorado tem uma cena de jam bands, grupos com o mesmo estilo do Grateful Dead e do Phish. São bandas que prezam mais pelo improviso, os shows são sempre diferentes. Essas bandas têm muito do blues, estão trazendo o verdadeiro blues de volta.

UM – O seu último CD, Time for Turnaround, apresenta uma evolução/amadurecimento seu enquanto músico?

JO – Eu acredito que o bom músico está sempre crescendo e mudando. Toco há mais de 20 anos. São muito shows e há sempre algo diferente que o influencia, dependendo do que eu estou fazendo e escutando, do que o governo faz ou de um relacionamento. Eu escrevo escreve sobre o que está acontecendo na minha vida. Fiquei mais esperto e experiente. Aprendi muito com os outros discos, haja vista que eu produzi esse disco. Espero que no futuro a minha guitarra soe ainda melhor.

UM – Você pode falar um pouco sobre a cozinha que te acompanha, Marion Edwards (baterista) e Ian Anderson (baixo)?

JO – Eu amo esses caras. Marrion viveu em Nova Orleans por dez anos. Ele fez um teste para o Ed Sullivan em 1969, quando eu tinha apenas três anos. Ele é um baterista incrível, está há muito tempo na estrada. Meu grande objetivo é trazê-lo ao Brasil. O Ian está comigo há dois anos. Ele tem um estilo jamaicano e é muito criativo. A cada dia está melhor. Ambos são muito talentosos.

UM – O cenário do blues no Brasil é precário. Como é nos EUA? A crise afetou o mercado do blues?

JO – Não apenas o mercado do blues. Todos os setores se deram mal. Na verdade, em tempos mais difíceis as pessoas sempre escutam mais blues. A economia está ruim, como nos anos 20 e a Grande Depressão. Foi quando o blues mais se desenvolveu. Quem sabe em uma nova grande crise surja o novo Robert Johnson?

UM – Ainda há espaço para o blues tradicional?

JO – Com certeza. As pessoas ainda amam esses músicos. Às vezes reservo uma parte do show para fazer uma sessão acústica, utilizando o finger style e tocando alguns clássicos de bluesmen como, Lonnie Johnson e Blind Blake. Eles ainda estão vivos na memória de todos.

UM – Você acredita em inovações no blues, como influências do rap e música eletrônica?

JO – Provavelmente eu escutaria coisas mais antigas, pois não escuto esse novo tipo de blues. Gosto de escutar algo que já estou familiarizado. Não me vejo tocando com essas novas influências.

UM – Qual foi o momento mais importante da sua carreira?

JO – Quando conheci o meu empresário, Grenville (risos). E claro, vir para o Brasil!

UM – Qual o recado para os jovens aprendizes de guitarra?

JO – Se vocês gostam de blues, escutem os três reis: Albert King, Freddie King e BB King.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Jukebox – The decline (NOFX)


Raoni Feijó enviou uma sugestão para o primeiro jukebox, diga-se de passagem, uma baita sugestão! A banda escolhida, NOFX, foi uma das mais importantes para a minha formação musical. Durante o período do ensino médio, a minha raiva às instituições estava a flor-da-pele, assim como aos professores, às patricinhas e outros mongolóides sem neurônios, ao vestibular, enfim, ao mundo. Eu queria quebrar tudo em volta, mas ao som do NOFX!

A banda californiana, formada basicamente por Erik Sandin (bateria), Eric Melvin (guitarra) e Fat Mike (baixo), apareceu em 1983, com um som punk bem característico daquela região, com influência de surf music, skate punk e ska. A competência os levaram a gravar alguns singles e discos. Após algumas trocas de músicos, em 1991 com ingresso de El Hefe (guitarra), o NOFX consolidou-se como um dos grandes do estilo e lançou grandes álbuns, tais como Punk in Drublic (1994).

Entretanto, em 1999 o quarteto romperia os limites do punk. The Decline (Fat Wreck Chords) é um disco que traz apenas uma canção homônima. Com 18:20 minutos, uma eternidade para os seguidores do estilo, a música é praticamente uma “ópera punk”. Sinceramente, meu conhecimento sobre esse seguimento do rock é pequeno, portanto não sei dizer se foi a primeira “ópera de moicanos”. Mas, posso dizer, com toda tranqüilidade, que é uma obra-prima!

Não há surpresas no começo, um hardcore com a cara do NOFX. Logo na primeira frase uma amostra do que viria pela frente: “De onde vêm todas as pessoas estúpidas?”. Alternando alguns momentos calmos e caóticos, o grande destaque é o baterista, que não erra e coloca bastante peso. Depois, a canção muda e traz árduas críticas aos EUA: “Eu queria ter um schilling, por cada matança sem noção, por cada matador sem noção. Eu compraria um governo. América está a venda e você pode conseguir um bom negócio nela, um bom negócio nela, e fazer um lucro revigorante. Ou talvez, chorar. Comece com a suposição de que um milhão de pessoas são espertas. Mais espertas que uma!”.

Há espaço ainda para um ska-punk que emociona. A canção continua em uma pegada californiana com bastante suingue, até que chega a transição entre os dois momentos que dividem a peça. Um momento dark, recheado de explosões, e uma fala desesperançada: “Mais uma pílula para matar a dor...”.

Após a catábase, uma viagem ao mundo dos mortos, o grupo retorna bravamente à terra do hardcore, lugar que se sentem em casa. É um verdadeiro expresso punk! A volta traz mais frustrações da sociedade competitiva por natureza: “E então nós vamos, indo com nossas vidas. Nós sabemos a verdade, mas preferimos mentiras. Mentiras são simples, simples é felicidade. Por que ir contra a tradição enquanto nós podemos admitir derrotas, viver no declínio! Ser a vítima de nosso próprio projeto, O status quo construído sob suspeita. Por que alguém gostaria de arrancar seus pescoços? Caros membros do clube "Nós Conseguimos o Nosso", Eu gostaria de apresentá-los ao nosso anfitrião, Ele conseguiu o dele, e eu consegui o meu. Conheçam O Declínio”.

A obra encerra ao som do ska-punk e sob os gritos enraivecidos: “Nós somos as bichas. Nós somos as putas Munição! Na guerra de classes. Nós somos trabalhadores Nós amamos nossa rainha. Nós sacrificamos. Nós estamos à beira do fim”.

The decline é uma daquelas canções gravadas despretensiosamente, mas que depois se tornaram hinos do rock. Interessados em conhecer um pouco sobre o punk devem correr atrás do NOFX, especialmente dessa canção.


Gostou da escolha? Mande uma sugestão. No jukebox, você quem manda!

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Olho nele: Léo Torresini



Fiel escudeiro do bluesman Big Joe Manfra, Léo Torresini aos poucos constrói sua reputação de guitarrista pela cena do blues-rock carioca. Dono de uma pegada com bastante groove, o músico trabalha no seu projeto solo, após passagens por outras bandas, como Seu Cuca e Jojo & The Mofos.

- Eu comecei a tocar tarde, aos 18 anos, em 1994. Tive aula com um professor bahiano que venerava Van Halen e, ao mesmo tempo, odiava Nirvana e o grunge em geral. Fiquei viciado naquilo e, a partir dalí, muita coisa ao estilo Bon Jovi e Mötley Crüe.

Porém ele não queria escutar apenas bandas de rock “farofa lakê”, estava em busca de algo mais orgânico. Paralelamente, passou a freqüentar ambientes musicais diferentes, tais como o extinto Teatro de Lona (Barra da Tijuca). Nesses lugares assistiu grandes nomes, dentre eles Blues Etílicos, Celso Blues Boy e Victor Biglione.

- Com a guitarra bem alta e equalizada fica mais fácil para tocar, entretanto não tira um som muito bom. Eu queria um som encorpado, pois naquele momento ouvia bastante Black Crowes e Cinderella, grupos que faziam um rock mais limpo – Comenta sobre a mudança.

Em uma de suas andanças pela Music Mall (loja de instrumentos), comprou um CD de um guitarrista de blues chamado Big Joe Manfra. Até então era um estilo inexplorado por Léo, mas ao sentir aquela estrutura musical simples e com arranjos guitarrísticos ricos não teve dúvidas do rumo a seguir. Ligou para Manfra e o pediu que desse aulas. Big Joe Manfra fala sobre o seu aluno:

- O Léo sempre tocou rock e por isso tinha um estilo diferente. Começou a ter aulas de guitarra comigo. Eu passava algumas coisas de blues e na semana seguinte estava tocando tudo de forma impecável. Foi assim durante um tempo. Parei de dar a aula e começamos a tocar juntos. Na gravação do meu segundo CD assumi todos os vocais, assim precisava de uma guitarra base. Não hesitei em chamá-lo. Com o tempo pegamos o entrosamento. Ele tem um potencial para, em breve, fazer o trabalho dele, basta ter concentração e determinação.

Ao lado do peso pesado desde então, Léo desenvolveu sua técnica e pegada. Concomitantemente ao trabalho blueseiro, dedicou-se ao funk. Comprou muitos discos e livros de conjuntos, como James Brown, Tower of Power e Stevie Wonder, e aprendeu “na marra”. Agora, Torresini dedica-se ao seu trabalho solo:

- Quero fazer um projeto que englobe essas minhas influências do funk e, indiretamente, do blues. Tenho usado a minha Fender Strato e um amplificador valvulado da Peavey junto com bastante beat box, muitos sons sampleados e “barulhos não harmônicos” – define Léo Torresini.

Para escutar os sons do guitarrista basta acessar o link: http://rapidshare.com/files/236808706/Sons_Torresini.rar.html


Foto: João Marcelo Dias

segunda-feira, 22 de junho de 2009

História do rock - Parte 3 Folk: a música de protesto.


Folk: a música de protesto

Desde a sua criação, em plena Guerra de Secessão, o folk representa a indignação de uma parcela que não acredita no que o sistema lhe passa como verdades:

A música folk sempre foi uma parte importante da tradição musical, e as canções de protesto – histórias pessoais ligadas aos eventos políticos e sociais correntes – são partes essenciais de sua herança. Defensores da Guerra de Secessão cantavam canções em homenagem a seus heróis; democratas jeffersonianos desferiam ataques aos federalistas com a música “Jefferson and Liberty ”; abolicionistas atacavam a escravidão e ambos os lados – União e Confederados – em suas canções tristes falando de um país dividido por uma guerra civil (FRIEDLANDER, 2006, pág. 194).

Um dos grandes representantes do estilo, Woody Guthrie, serviu de guia a muitos dos cantores que fariam sucesso a partir dos anos 60, como Joan Baez e Bob Dylan. Vivendo o período da grande Depressão, na década de 20, cruzou os EUA divulgando suas idéias através de suas canções. Recusando-se a gravar para grandes gravadoras, fazia shows em cerimonias de sindicatos e universidades. Representante de uma esquerda, em plena era macartista, era visto como uma ameaça às classes dominantes. “Ao defender suas crenças, ele não ganhou mais do que uns poucos machucados pelo corpo, porém seu idealismo persistente, aliado a um talento para refletir as atitudes e esperanças da classe trabalhadora, com músicas simples e diretas (...)” (FRIEDLANDER, 2006, pág. 194). Junto com sua carreira, ganha uma desagradável companhia, o Comitê de Atividades Antiamericanas (HUAC): passou a ser duramente perseguido por integrantes da direita.

Letras como “The Deportees” (“Os Deportados”) denunciavam as relações de trabalho no campo e a difícil vida de um bracero mexicano, que desde a década de 50, arrisca-se em cruzar a fronteira na ilegalidade para conseguir trabalho e arrecadar dinheiro:

"A colheita está toda aí e os pêssegos estão estragando/ As laranjas empilhadas em seus depósitos creosotos/ Eles os estão mandando de volta para a sua fronteira mexicana/ Para pegar todo o seu dinheiro, para vadiar/marchar com dificuldade de novo.../ O próprio pai do meu pai, ele vadiava/marchava com dificuldade aquele rio/ Eles pegaram todo o dinheiro que ele fez na vida/ Meus irmãos e irmãs trabalharam nas árvores frutíferas/ E eles andaram no caminhão até eles serem derrubados e morrerem/ Alguns de nós são ilegais e alguns não são bem vindos/ Nosso contrato de trabalho terminou e nós devemos seguir em frente/ Seiscentas milhas até aquela fronteira mexicana/ Eles nos perseguem como foras da lei, como ladrões de gado/ladrões, gatunos."

A tradição folk não morreu com a Guerra Fria, ao contrário. Quando um certo Robert Zimmerman, aos 20 anos, mudou-se para Nova Iorque e passou a frequentar o Greenwich Village, o centro do Folk, a conjuntura político-social americana era conturbada e muitos sentiam-se num mal-estar constante, onde a música era o único remédio.
Tocando o violão desde cedo, Robert Zimmerman sempre fora grande fã de Woody Guthrie e suas letras politizadas. Quando esse cantor já estava em estado terminal, no hospital, Robert entrou em contato com seu ídolo. O pouco tempo serviu de aprendizado. Pouco tempo depois, Robert Zimmerman passaria a se chamar Bob Dylan, o rei do folk.

"Como milhares de garotos de sua idade, Bob Dylan assume a pobreza – ou a idéia de pobreza – como um desencanto, uma reação à sociedade de consumo e ao American Way of Life. Olhando em volta, lendo os jornais e vendo os noticiários da TV, ele percebe que as coisas não estão assim tão maravilhosas. É nelas que encontra o material de suas canções (MUGGIATI, 1973, pág. 16)".

Após gravar seu primeiro álbum e ser apresentado ao público por Joan Baez (a rainha da música de protesto), virou o grande líder da luta pelos Direitos Civis. Canções como “Masters of War” (“Senhores da Guerra”), “Blowin’ in the Wind” (“Assoprando no Vento”) e “Only a Pawn in the Game” (“Apenas um Peão no Jogo”) representam o caráter político de Dylan. Na primeira, critica o militarismo norte-americano: “Venham seus senhores da guerra/ Vocês que constroem as grandes armas/ Vocês que constroem os aeroplanos da morte/ Vocês que constroem todas as bombas/ Vocês que se escondem atrás das paredes/ Vocês que se escondem atrás das mesas/ Eu só quero que vocês saibam/ Que eu enxergo através de suas mascaras (...)”. A mundialmente conhecida, “Blowin’ in the Wind”, o elevou ao status de “poeta-profeta”, devido a sensibilidade e grande poder de sua lírica. Esta música foi o hino dos direitos civis: “Quantas estradas precisará um homem andar/ Antes que possam chamá-lo de um homem?/ Sim e quantos mares precisará uma pomba branca sobrevoar/ Antes que ela possa dormir na areia?/ Sim e quantas vezes precisará balas de canhão voar/ Até serem para sempre abandonadas?/ A resposta meu amigo está soprando no vento/ A resposta está soprando no vento”. A terceira, “Only a Pawn in the Game”, foi uma das maiores críticas às elites brancas, racistas por natureza:

"Um político do sul prega para o pobre homem branco/ "Você tem mais do que os negros, não reclame/ Você é melhor do que eles/ você nasceu com pele branca" ele explicou/ E o nome Negro é usado obviamente para o lucro do político/ Enquanto ele sobe em fama/ E o pobre branco permanece no vagão do trem/ Mas não é ele a se culpar/ Ele é apenas um peão em seu jogo/ O deputado, o xerife, os soldados/ Os governadores são pagos/ E os delegados e policiais recebem o mesmo/ Mas o pobre homem branco é usado/ Nas mãos de todos estes como uma ferramenta/ Ele está preso em sua educação/ Desde o inicio pela regra/ Que a lei está com ele/ Para proteger sua pele branca/ Manter o seu ódio/ Para que nunca pense direito/ No estado que ele está/ Mas não é ele a culpar/ Ele é apenas um peão em seu jogo".

“À imprensa que começa a procurá-lo, Dylan faz sua profissão de fé: ‘Minhas canções protestam contra a guerra, contra as bombas e os preconceitos raciais, contra o conformismo”. O mesmo comenta Baez: “Há cosias que me chocam profundamente: o assassinato de crianças por poeira radioativa ou assassinato dos espíritos pela segregação racial. Gosto de cantar e não posso esquecer tudo isso quando canto” (MUGGIATI, 1973, 18). Ela foi mais radical e passou a não pagar os impostos, alegando que esse dinheiro seria usado para a guerra, assim fazendo uso da Desobediência Civil.
O público do folk raramente era o mesmo que o de rock. Enquanto o primeiro achava que o rock era uma música altamente comercial e sem ideologia, o rock via o folk como uma música muito simples, sem graça. Porém, aos poucos, graças às novas experiências musicais de Dylan, o folk passa a eletrificar-se e ganhar um “ar de rock”, formando assim o folk-rock. Enquanto Baez e outros grupos continuam com o folk tradicional, Dylan passa a trabalhar em canções existencialistas e com distorções.
Rapidamente, alguns jovens de São Francisco pegam este novo som folk carregado de críticas, e adicionam uma dose de psicodelia. Representantes da contracultura, pegam a música como mais uma expressão cultural. Usam a arte, em todos os sentidos, para criticar o sistema.

"O novo exército de recrutas que Dylan conquista em 1965 com a canção ‘Mr. Tambourine Man’ são os hippies, que florescem à somba da sociedade de consumo nas grandes cidades americanas, principalmente em Nova Iorque e São Francisco. Mas só no verão de 1967 o Establishment se dá conta daquelas estranhas figuras (freaks) que invadiram Greenwich Village e Haight-Ashbury, jovens budistas de mantos amarelos, cabeças raspadas e pés descalços que saem pelas calçadas batendo gongos e entoando o Hare Krishna, que marcham com flores nas mãos ao lado dos estudantes radicais de Berkeley e Columbia, ‘trazendo mais cor à Revolução’. A revista Time tenta resumir tudo num artigo de capa sobre ‘A Subcultura dos Hippies’. É nesse clima que surge uma nova modalidade de rock: o ‘Som da Califórnia’ (nota do autor: Som de São Francisco), também chamado de acid rock ou head music (MUGGIATI, 1973, pág. 20)".

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Entrevista Damo Suzuki


Em sua recente passagem pelo Rio de Janeiro, que incluiu um workshop e dois shows, o ex-vocalista do Can mostrou porque deve ser considerado um dos grandes gênios da música. Anti-herói do rock por natureza, Damo roda o mundo atrás de jams com músicos de diferentes formações em busca de novos horizontes musicais. Aparentando desconforto em relação aos rumos que a música tomou, o mestre do experimentalismo nos concedeu uma entrevista após um dos shows.


Ugo Medeiros – Você gira o mundo tocando com músicos locais. Qual foi a passagem que mais te marcou? E a que mais te deixou desconfortável?

Damo Suzuki - Bem, eu já tive muitas experiências pelo mundo. Momentos marcantes? Acredito que 95% desse tour pelo mundo foram positivas e apenas 5% foram negativas.

UM – Com que idade você saiu do Japão? Como era a cena musical lá naquela época? Ainda era restrita à música tradicional ou já havia influências ocidentais?

DS - Fui embora do Japão quando tinha dez anos. Sinceramente, não me lembro muito da cena musical japonesa daquela época, pois eu escutava muita soul music (risos).

UM
– Li em um site que, antes de entrar para o Can, você rodou a Europa graças ao On the Road (Jack Kerouac). Quais obras literárias mais te influenciaram?

DS - Não é verdade. Inventaram isso. Nessa época eu tinha apenas 16/17 anos e ainda não tinha lido o livro. Até então não tinha lido nada que tivesse me marcado.

UM – Você entrou para o Can em 70. Como foi o seu primeiro contato com Holger Czukay?

DS - Foi muito casual, ele me encontrou no meio da rua (risos).

UM – Como foi substituir Malcolm Mooney? Em um primeiro momento você tentou manter a mesma linha vocal dele ou fez da sua forma?

DS - Com certeza eu fiz da minha maneira porque eu nunca tinha escutado o Malcolm cantar.

UM – Soundtracks ainda tinha muita sonoridade de Mooney. Tago Mago foi a primeira gravação com nova cara do novo Can. Como foi gravar esse disco, que para muitos é uma das grandes obras primas do rock?

DS - Você acha, realmente, que Tago Mago é uma obra prima do rock (risos)? Bem, foi uma gravação muito louca. Queríamos ir a diferentes direções, fazer algo novo, inédito.

UM – A imprensa inglesa sempre exaltou artistas como ELP e Rick Wakeman. Você acha que ela foi injusta com o Can?

DS - Acho que não. Aquela era a opinião deles. Todos têm direito de pensar diferente. Respeito a opinião neles. Na verdade, nunca dei muita importância a eles.

UM – O que você acha dos discos do Can após a sua saída?

DS - Não gostei. Não achei nem um pouco interessante. Mas essa é apenas a minha opinião...

UM – Na hora de cantar, o que você prioriza: a melodia ou a harmonia?

DS - Nenhum dos dois. O SOM é o mais importante. Eu me considero um “sound curious”.

UM – O que você acha da música eletrônica atual?

DS - É ok. Não gosto muito da música atual. Eu penso que a música eletrônica deve ser simples, utilizando-se muitos sons, mas sem perder o rumo.

UM – Há algum estilo ou banda atual que te chame mais atenção?

DS - Sinceramente, não. Gosto apenas de música. Já escutei tanta coisa boa que acaba sendo difícil abandoná-las...

UM – Você conhece algo da música brasileira? Há algum músico que lhe chame mais atenção?

DS
- Não conheço muito. Conheço Sérgio Mendes. É o pianista dos anos 60, né? É muito difícil para o estrangeiro conhecer a música brasileira, pois tem muita musicalidade diferente. Isso se deve ao fato da música brasileira ter vindo da África. É um estilo musical bem diferente do estilo Ocidental.

domingo, 14 de junho de 2009

Uma lenda viva


Rio das Ostras. A última noite de festival foi especial. O segundo show da programação foi do experiente John Hammond Jr, um dos últimos remanescentes do blues tradicional. Nossa, foi difícil crer que aquele senhor, que já tocou com os maiores nomes do blues e ajudou nas carreiras de Duane Allman, Jimi Hendrix, Eric Clapton e The Band, estava a alguns metros de mim .
Vê-lo em ação foi fazer uma volta aos anos 60, época do revival do blues, quando o estilo era uma verdadeira febre entre os jovens que buscavam uma música vinda do coração e com bases no folk. Sua forma de tocar é uma aula aos guitarristas que pretendem ter uma pegada raiz. O seu estilo de cantar é outro caso a parte: o grito, marca registrada dos escravos que criaram o blues, seguido de uma frase mais “calma” e melódica.
Apenas o Rio das Ostras Jazz & Blues Festival proporciona essa oportunidade. Ver uma lenda da música norte-americana como o Sr. Hammond é um privilégio para poucos. Agradeço a Deus por ver um dos últimos ainda vivos a tocar o verdadeiro blues.
A noite ainda contou com shows do Bad Plus e Spyro Gyra, diga-se de passagem, bons shows. Entretanto, durante a primeira apresentação eu estava muito ansioso para ver Hammond e no encerramento estava completamente desnorteado após a fantástica atuação do bluesman.
Essa sétima edição do festival, de fato, mudou a minha vida. Agora, é esperar 2010 chegar!

sábado, 13 de junho de 2009

Que noite!


Rio das Ostras. PUTA QUE PARIU! Desculpem-me o linguajar, mas essa é a única forma de descrever a terceira noite do festival. A primeira banda no palco de Costa Azul foi o Rudder. Apesar de ter um som contemporâneo interessante, baseado no fusion e no progressivo, a apresentação foi morna e não conseguiu empolgar a plateia. Porém, a noite ainda contaria com dois shows antológicos.
Coco Montoya, ex-integrante do Bluesbreakers, colocou todo o feeling para fora através da sua Stratocaster. Sendo bastante sincero, eu estava com receio, já que os discos solo não chegam a me empolgar muito. Felizmente, ele mostrou que ao subir no palco e ao plugar sua guitarra, o mundo para e curte o bom e velho blues. Sua pegada blues-rock, suas bases precisas e paletadas levemente agressivas deixaram todos boquiabertos. A apresentação foi uma verdadeira aula de blues. Ao soar a última nota havia um sentimento de êxtase, ninguém acreditava que o próximo grupo pudesse chegar ao nível de Coco e companhia. Ledo engano, ainda bem!
Encerrando a noite, um empolgante show da Big Time Orquestra. A big band de neo-swing esquentou o clima com um repertório sensacional, passando por Twist and shout, Pretty women, País tropical, Glen Miller (em uma releitura rejuvenecedora) e clássicos da jovem guarda. Os integrantes, esbanjando simpatia e humor, não deixaram o pique cair. Durante quase duas horas, os presentes se esbanjaram. O concerto chegava ao seu final, mas o público não queria ir embora. Após dois ou três “bis”, as luzes se apagaram e, por alguns minutos, todos ficaram inertes pensando na experiência quase transcendental que foram os shows.
Este é o terceiro ano que cubro o evento. De longe, foi uma das melhores noites de todos os tempos!

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Olha a chuva! Mas, quem se importa?


Rio das Ostras. A abertura da segunda noite do evento reservou gratas emoções, com um show que ficou por conta do gaitista Jefferson Gonçalves. Em uma apresentação matadora, o carioca que flerta com ritmos nordestinos mostrou que a sua música amadurece a cada dia.
O repertório, composto majoritariamente por canções do seu trabalho mais recente - Ar Puro (Blues Times Records) – levou os expectadores a loucura com o seu “blues arretado” e fez com que boa parte dos presentes dançassem ao som de Baião para Jú. Após, a banda executou 500 miles e um cover fantástico de Bob Dylan, All Along The Watchtower.
Ainda houve espaço para uma participação inusitada em Wild girl blue. Um baixista de apenas 13 anos, menor que o próprio instrumento. Michael Pipoquinha provou que tem um enorme talento, apesar da pouca idade (e tamanho).
Entretanto, o concerto guardou a maior surpresa para o final. Ao começar a saidera, Melow down easy, desabou uma tempestade.O que, teoricamente, espantaria as pessoas serviu para deixar o clima em “ebulição”. Durante uma grande medley com citações de diversas composições regionais, caso de Asa branca, o público dançou, cantou, pulou, enfim, se divertiu embalado com boa música. Nossa, e ainda restam mais três dias!

Foto: Cezar Fernandes

domingo, 7 de junho de 2009

História do rock - Parte 2


O rock’n’roll

Os anos 50 chegam, e junto uma geração de adolescentes inquietos com o seu entorno. A explosão da economia pós 2ª Guerra causava desconfiança aos que viviam um cotidiano linear e sem novidades.

Antes do surgimento estrondoso do rock’n’roll no início da década de 1950, o consumo de música se distribuía segundo um esquema compartimentalizado. Grande parte da população urbana consumia ‘música clássica’, de preferência do genêro ‘ligeiro’ e/ou música popular: canções românticas açucaradas ou cançonetas mais rápidas no balanço diluído das orquestras brancas de swing. Até então, os filhos dessa ‘maioria silenciosa’ não diferiam grandemente dos pais em matéria de gosto, com uma pequena diferença: a sua preferência por uma música de dança ligeiramente mais ruidosa (MUGGIATI, 1973, pág. 34).

Porém, durante esses anos de calmaria, a música popular americana, os musicais da Brodway e as big bands brancas, não satisfazia mais os jovens americanos. Esses, pela primeira vez, estavam livres de responsabilidades e começavam a criar uma necessidade pelo consumo:

O que importava para os jovens americanos era a diversão. Pela primeira vez, muitos adolescentes não tinham que trabalhar para ajudar suas famílias. Além da escola, estes jovens tinham poucas responsabilidades incômodas e, com o advento da ajuda de custo eles adquiriram um poder de compra maior. Reconhecendo a existência de um novo grupo de consumo, empresários americanos correram para preencher este filão, provendo-os de itens ‘essenciais’ como roupas, cosméticos, fast food, carros – e música. Os adolescentes demonstraram ser um grupo de consumo extremamente maleável, gastando seu dinheiro de forma previsível (FRIEDLANDER, 2006, pág. 38).

Com o aumento do consumo, por parte dos jovens da classe média branca, a procura por discos de blues e R&B aumentara. Agora, não apenas os pobres escutavam esses estilos musicais. Nos primeiros anos da década de 50, as rádios passaram a incluir hits nas programações, porém não em versões originais, mas, em versões covers com músicos brancos. Ter um branco no lugar de um negro atenuava a conotação “suja” que essas músicas tinham.

Porém, a partir de 54, os jovens passaram a buscar na fonte: Ray Charles, Muddy Waters e Fats Domino são amplamente procurados. Assim, neste ano assinam com grandes gravadoras, que até então trabalhavam apenas com brancos. Infelizmente, nenhum desses pôde transformar-se, na época, em um ícone popular nacional devido ao forte racismo. Domino, mesmo sendo o “pai” do rock, nunca teve uma carreira sólida e passou grande parte de sua vida no ostracismo.

Necessitando um “rosto bonito” (branco) que englobasse carisma, talento e um ar de rebeldia, as grandes gravadoras passaram a procurar novos potenciais dessa nova música que fundia country & western com o blues, que deixava os jovens inquietos e ao mesmo tempo dava desgosto aos seus pais. Artistas da primeira geração do rock’n’roll, como Chuck Berry e Little Richard, faziam sucesso entre as comunidades pobres, mas ainda não tinham a aprovação da retrógrada classe média branca. Suas letras que descreviam rachas de carro, bebedeiras e atos sexuais eram consideradas ofensas. A solução encontrada veio de Memphis, um jovem chamado Elvis Presley, considerado o “Rei”.

Elvis, como um verdadeiro amante do country, do blues e do gospel, desde cedo entrara em contato com a música dos “excluídos”. Assim, ao gravar o seu primeiro sucesso “That’s all right (mama)” (“Está tudo bem, mamãe”), cover de um bluesman , pela Sun Records, logo foi contratado pela gigante RCA. Suas canções mexiam com os ânimos adolescentes. Cantando um rock’n’roll clássico e rockabilly (fusão do country hibilly com blues), ele conquistou os EUA. Logo, artistas brancos semelhantes, Jerry Lee Lewis e Buddy Holly, também ganharam repentino sucesso (nada comparado ao do “Rei”) e formaram a segunda geração do rock’n’roll. Falando sobre amor e rejeição, eram vistos como incentivadores à rebeldia adolescente, porém de forma mais branda.

De fato, a segunda geração colheu os frutos do nascimento do rock’n’roll e de certa forma também “roubou” a música para os brancos. Porém, “Se o rock n roll é uma síntese e um híbrido dos dois idiomas – ‘música branca’ e ‘ música negra’ – nem por isso deixa de ser encarado socialmente como ‘música de negro’. Em sua qualidade de race music, ele é também a música de uma outra minoria, de uma nova raça que começa a se manifestar no cenário da sociedade americana: a juventude” (MUGGIATI, 1973, pág.37). Isto mostra como também foi duro aos “queridinhos” da mídia cantar uma música tão escandalosa. O comportamento dos jovens estava mudando e o principal catalisador era a música:

Quando Jerry Lee Lewis deu o comando ‘Rebole, garota, Rebole’ (trecho da canção Whole lot of shakin’ going on, 1967), os críticos interpretaram isto como uma sugestão obscena e imoral. Lewis estava assumindo um comportamento surpreendentemente rebelde, o que James T. Carey chamaria de letras de ‘valores novos’ (as quais Carey define como crítica aos papéis e/ou sociedades convencionais, em contraste com as letras de ‘valores antigos’, que descrevem a aceitação de valores, moralidade e relacionamentos convencionais) (FRIEDLANDER, 2006, pág. 20).

Diferentemente do blues, que tinha letras explícitas contra a situação social, o rock’n’roll não era comprometido com tal temática; e sim com questões rotineiras da adolescência. A situação interna nos EUA era complicada: o Macarthismo e a Guerra Fria assustavam os que queriam protestar; e o começo da luta pelos direitos civis ainda chegaria ao seu auge nos anos 60 .

Porém, se nesse período as questões sociais não foram tão exploradas nas cançoes de rock’n’roll, o seu filho, o rock, daria imensas contribuições. No entanto, para estudar o começo desse novo movimento dos anos 60, será necessário ir para Inglaterra...

quinta-feira, 28 de maio de 2009

História do rock - Parte 1




As raízes do rock


Falar sobre a formação deste estilo musical pode ser uma pretensão deste formando. Tentarei aqui mostrar, de forma simples e sucinta, como se deu a criação dessa nova música, dentro de um espaço altamente segregado. Como se sabe, o rock veio do blues, música dos escravos do final do século retrasado, portanto é necessário resgatarmos o seu histórico, para entendermos a criação do rock.
Como já foi dito anteriormente, o blues veio da fusão das culturas africanas e européias. “(...) Para compreender como ele foi gerado, é preciso realizar uma longa viagem até a África Ocidental de séculos atrás. Foi dali, onde ficam atualmente países como Mali, Senegal, Gana, Congo e Gâmbia, que saiu a maior parte dos negros levados como escravos para os Estados Unidos” (RIBEIRO, 2005, pág. 14). Era comum à cultura desses povos a prática de griots, forma de cantar semelhante ao grito, onde o homem cantava acompanhado de um instrumento de cordas arcaico. Era uma forma de glorificar seus mitos e a história de sua comunidade. Nas palavras de MUGGIATI (1973, pág. 8), “(...) o rock nasceu de um grito, o primeiro grito do escravo negro ao pisar em sua nova terra, a América. Esses berros de estranha entonação eram atividade expressiva comum entre os nativos da África Ocidental. O primeiro grito cortou os céus americanos como uma espécie de sonar, talvez a única maneira de fazer o reconhecimento do ambiente novo e hostil”. Estes “gritos”, aos poucos, evoluiram às work songs: o canto coletivo durante o trabalho nas lavouras, sob o forte sol, sob e sobre a dura rotina nos campos de algodão, onde havia um líder que berrava uma frase, seguido de um coro do restante presente.
Adicionados a esta tradição africana, a Europa contribuiu com baladas, instrumentos (violão de origem espanhola e a gaita de origem alemã) e os spirituals. Estes consistiam em cantos religiosos, onde os africanos eram evangelizados. “Em algum momento, work songs e spirituals começaram a se intercambiar. Muitas canções de trabalho tinham letras religiosas e, por outro lado, vários spirituals eram entoados da mesma forma como se cantava nos campos de algodão” (RIBEIRO, 2005, pág. 19). Assim, do casamento destas duas escolas, o blues nascia ao final do século retrasado, provavelmente no estado do Mississipi (devido a maior concentração de negros e músicas que descreviam a paisagem local).
No seu começo, o blues era cantado de forma coletiva sem acompanhamento de instrumento, apenas no coro (spirituals e griots), como já foi dito. Porém, após a Guerra de Secessão e a consequente vitória do Norte, os escravos foram libertados e uma pequena reforma agrária tentou reordenar a distribuição de terra, vigente até então. A estrutura agrária passou a se basear na agricultura familiar, no sistema de meagem, onde o proprietário branco explorava, ainda, grande parte dos agricultores negros. Assim, há uma importante mudança direta na forma de cantar o blues:

O fim das grandes plantações marcou, portanto, a substituição do trabalho coletivo dos escravos pela agricultura familiar. Consequentemente, as work songs entoadas em coro deram lugar ao canto individual. É assim que o blues iria surgir, como expressão de um indivíduo cantando e frequentemente acompanhando a si próprio ao violão (RIBEIRO, 2005, pág. 23).

Aos poucos, cantores como W.C. Handy (considerado o “pai do blues”), Charley Patton e seu aluno Robert Johnson (ambos ex-trabalhadores em lavouras do Mississipi ) passam a moldar esta nova música que representava a sofrida vida dos ex-escravos. O Delta blues, ou blues rural, foi a forma mais primitiva de se cantar: uma voz rouca e potente e um violão, acústico, tocado com força e recheado de blue notes, que dava a tonalidade de tristeza. Assim, canções como “Hard Times Killing Floor” (“Tempos difíceis que destroem o solo”), de Skip James representavam as reivindicações e indignações do povo negro: “Tempos difíceis aqui e em todo lugar que você vai/ Os tempos estão mais difíceis do que já fora antes/ E as pessoas vão correndo de porta em porta/ Não conseguem encontrar o paraíso, não importa onde elas vão”. Outras composições, como “Hard Times Blues” (“Blues de tempos difíceis”) de Josh White, falam do cruel mundo que lhes cerca: “Eu fui até o dono, no mercado/ Todos estão com fome, por favor não feche a porta/ Queremos mais comida, um pouco mais de tempo para pagar/ O dono riu e foi embora”.
Com a incrementação do blues, criou-se o rhythm blues (R&B), a música própria dos negros. Em pouco tempo, em Nova Orleans, o R&B evoluíra ao jazz, que desde o final do século XIX levara prazer às vidas miseráveis daquela parte da sociedade. Porém, pelo caráter racista da classe média branca, apenas na década de 20 o jazz ganharia status de música “apropriada”, devido a formação da Original Dixieland Jazz Band (ODJB), onde todos os músicos eram brancos. Paulatinamente, músicos brancos roubavam canções de artistas negros e levavam todo o crédito, fazendo com que muitos desistissem da música. Na tentativa de executar um som não-branco (pela falta de técnica), o be-bop e o free-jazz passam a ser o estilo de jazz mais popular e de forma que conservasse as tradições das raízes negras .
O negro que sempre estivera nas periferias, passava a ter novas formas de contestar a injusta sociedade. Bom exemplo era a inscrição na guitarra do bluesman Leadbelly The Borgeois (um dos primeiros a fazer excursão pela Europa, nos anos 30): “Esta máquina mata fascistas”.
Entre as décadas 20 e 30, o jazz e o blues já estavam consolidados como dois estilos de sucesso, mesmo que ainda dividindo espaço nas rádios com a música gospel. Aos poucos a indústria fonográfica passa a atender à demanda dos amantes dessas músicas, com a criação das race records (discos raciais) ou gravadoras independentes (indies). Desta forma, com uma aparelhagem inferior, quando comparada com as grandes marcas, produtores negros podiam divulgar os trabalhos de músicos que não estavam inseridos no mainstream da época, ainda que apenas nos bairros mais pobres começava-se a criar um fiel público.

As contribuições dos primeiros bluesmans e seus “primitivos” compactos, acima citados, foram de suma importância, pois levou o estilo a lugares novos, como o Texas, Los Angeles e Chicago. Se na Califórnia o blues sofreu influência direta do jazz, e forma o West Coast Blues, e no Texas ganha mais força, proveniente da música latina, em Chicago ganha um novo rumo. Entre os anos 20 e 50, há um intenso fluxo migratório rumo ao Norte: as condições de vida eram melhores, menos racismo e havia condições decentes para os músicos trabalharem, já que o destino no Sul era tocar em cabarés.
O Norte, por ter uma tradição industrial, dá à música novos incrementos tecnológicos, como a eletrificação do violão. Pioneiros da guitarra elétrica, T-Bone Walker e Big Bill Broonzy, puderam desenvolver a forma de cantar o blues, pois o vocalista poderia ser mais suave e concentrar-se nas letras. Com composições cada vez mais engajadas, os recém-chegados na cidade grande, começavam a fazer sucesso mas, é claro, ainda nos bairros pobres. A partir da eletrificação do blues, o Chicago Blues, representado por músicos como Muddy Waters, Howlin’ Wolf e Little Walter, passou a ser o principal som nas comunidades periféricas dos Estados Unidos durante a primeira metade dos anos 50.
Assim, o blues e o jazz estavam criados e relativamente difundidos pelo país, ao menos em comunidades pobres. Porém, o rock ainda não estava com todas as suas influências. Ao contrário do que muitos pensam, ele também sofreu diretamente com o country & western.

Por volta de 1950 as indies exploram dois importantes mercados específicos: o R&B negro e as músicas dos brancos rurais, o country & western. É a conjunção explosiva destas duas correntes, formando o estilo chamado o estilo rock’n’roll, que irá subverter a partir de 1950 todos os esquemas das gravadoras, os hábitos de consumo musical e, num sentido mais profundo, a própria cultura americana. O R&B traz aquela dimensão existencial que está faltando à canção comercial do branco (MUGGIATI, 1973, pág. 35).

Enquanto a música negra traz um sentimento moderno e de críticas sociais, a música do branco rural (pobre) dá um teor de simplicidade. A partir do crescimento da televisão na rotina das famílias americanas, a vida dos cowboys passa a ser dividida através dos clássicos filmes de “bang-bang”. A música sincera e melancólica era justamente o último ingrediente que faltava adicionar para a criação do explosivo rock’n’roll.