terça-feira, 8 de abril de 2014

Olho nele: Enio Vieira

Guitarrista de pegada, blueseiro sem medo de adicionar peso, Enio Vieira é mais um destaque da cena carioca. Ao lado da banda Winchester 22, tem feito "barulho" de qualidade no Saloon79. Um papo muito interessante, com um cara conhecedor de música!

Ugo Medeiros - O rock sempre foi o seu norte musical? Como começou essa relação? O que você escutava naquela época?


Enio Vieira - Sim, sempre foi, essa relação se deu muito pelos meus pais, porque eles sempre ouviram muito Rock e Country. Também, porque desde pequeno eu sempre fui fascinado por música e pela guitarra. Me lembro que o primeiro disco (vinil na época) que eu pedi foi Creatures of The Night do KISS. Eu tinha assistido ao clipe de I love It loud em um programa que passava na extinta TV Manchete, apresentado pelo João Kleber e um outro cara, e fiquei extasiado com aquilo tudo, as maquiagens, mas principalmente a música. Lembro, como se fosse hoje, a sensaçao de ouvir aquilo, foi indescritivel! (risos). Na época, ouvia, muito do que meus pais ouviam: Eric Clapton, Willie Nelson, Fleetwood Mac, Johnny Cash, Warren Zevon e Kiss naturalmente (risos).

UM - Você também tem claras influências de blues. Me arrisco a dizer que Stevie Ray Vaughan seja uma das mais fortes, né? 

EV - Na verdade, a coisa do blues começou com o Eric Clapton. Comprei um disco dele chamado Journey Man, de 1988 se não me engano. Nele, havia uma faixa chamada Hard times, que é um blues daqueles bem lentos mesmo, e aquilo criou raiz em mim lentamente. Entretanto, antes do Blues se instalar mesmo, veio o Guns'n'Roses, o Slash era meu guitar hero. Ele tem muito de blues no fraseado e eu acabei pegando isso. Muitos anos depois, por ironia, comprei aquele mesmo disco do Clapton em CD e um cara com quem eu tocava na época (eu era batera de uma banda de classic rock) me pediu emprestado. Ele me deixou o Texas Flood do Vaughan, nem preciso dizer que nunca mais destrocamos os CDs né? E, aliás, eu voltei a tocar guitarra logo em seguida (risos). Fui completamente tomado por aquele som, desde então se tornou a mais forte, se bem que ultimamente tenho procurado outras direções dentro do próprio Blues/Rock. Tenho escutado incessantemente o último disco do ZZ Top, La Futura, é sensacional! O timbre, tanto de guitarra como de vocal, do Billy Gibbons é absurdo!

UM - Você poderia falar um pouco sobre a banda que te acompanha? 

EV - São caras com quem eu estive em contato desde sempre. o Nobru (Bruno Lima, baixista) eu conheço desde que ele era pequeno, ele é amigo de infância do meu irmão (o rapper Shawlin, sete anos mais novo que eu). Daí quando ele começou a tocar, nós nos aproximamos mais, ele tocou no Tatu Bala e no AC/DCover. Pedro Tererê (Pedro Schoeter, bateria) eu conheço de vista há anos, eu inclusive fiz aula de bateria com o pai dele (Gustavo Schroeter do A Cor do Som) no Antonio Adolfo. Sempre nos esbarrávamos pelos points de rock aqui no Rio, além de conhecer muita gente em comum. Ele tocou em várias bandas da cena alternativa como Cabeça, Funk Fuckers, Jason e Vulgue Tostói. Antes dele vir tocar comigo, nós tocamos juntos na banda de um amigo meu chamada Som Sebastião, onde eu fazia uma participação em alguns shows e ele era batera.

UM - Qual o seu set de instrumentos e aparelhagens para shows? 

EV - Eu sempre fui o tipo de guitarrista 'plug and play', mas, com o tempo, eu vi que ia precisar de um set de pedais mesmo que fosse mínimo. Então eu montei um bem básicão que consiste em: um TU-3 da Boss (afinador), um Tube Sreamer TS-9 (Ibanez), um Microamp (MXR) booster e um Cry-Baby (Dunlop). Guitarras eu não tenho muitas, a minha principal é uma Stratocaster Shelter (traditional series) que eu troquei a captação original por um set TEX MEX da Fender. Essa série da Shelter tem uma história curiosa, porque ela é (fisicamente) uma réplica de uma Fender '62, tanto que a fender processou a Shelter: ou eles pagavam uma quantia a Fender ou mudavam as stratos que eles fabricavam. Eles preferiram mudar, então hoje em dia é bem difícil achar essas guitarras. Minha guitarra sub foi um presente de um amigo, é um frankenstein na verdade, uma strato Squier que tinha um braço com escala em maple (que tem um timbre mais agudo) daí eu troquei por um braço Fender com escala em Rosewood (eu prefiro), ela tem captação lipstick da Seymour Duncan, que dá a ela uma pegada mais leve. Recentemente eu comprei uma outra Shelter, uma Les Paul Nashville, troquei a captação por dois Gibson Pearly Gates (ponte e braço). Deixei ela no Luthier essa semana, se tudo correr bem, ela vai assumir o posto de guitarra titular (risos). Estou buscando um som mais cheio e potente e com uma timbragem não tão similar a do Stevie Ray Vaughan, não que eu vá 'abandonar' o velho Stevie (risos), mas quero incorporar mais elementos ao meu som em termos de características.

UM - Você tem se destacado ne cena blues rock carioca, principalmente no Saloon79, e tem tocado com a "velha" guarda. Como tem sido a experiência e a recepção de gente como Big Gilson? 

EV - Tem sido muito bom, na verdade, eu trabalhei no SALOON 79 como barman durante dois anos e lá acontecia um evento chamado "Big Gilson Convida" produzido pelo José Milton. Consegui encaixar minha banda e tanto o Gilson quanto o José Milton piraram no som, ficaram amarradões e eu fiquei nas nuvens! (risos). Um cara do calibre do Big Gilson elogiando meu trabalho, eu fiquei feliz pra caramba! Depois disso, outras bandas que iam lá tocar começaram a me chamar pra dar canja nos shows, Big Phat Mamma, Laranjeletric, Tarantinos, Stanleys, Paul Serran, Mauk e os Cadillacs Malditos. Abriu portas com certeza. Uma dessas canjas aconteceu de forma bem inusitada, uma noite, o Big Gilson estava fazendo o tributo a Eric Clapton lá no Saloon e eu, como sempre, atrás do balcão trabalhando. Lá pelas tantas, ele começou a tocar Old love e em um determinado momento desçeu do palco (ele usa sistema sem fio). Estava eu lá na minha, trabalhando, quando de repente eu ouço ele me chamando, quando eu viro ele está me passando a guitarra por cima do balcão! Eu só tenho tempo de ouvir ele me dizendo o tom (que eu tá já sabia, porque faz parte daquele CD do Clapton que falei antes). Eu até hoje não faço idéia do que eu fiz ali (risos), eu sei que quando eu acabei de solar o bar inteiro aplaudia, pessoas urravam, assobiavam, foi muito foda! 

UM - Há planos para gravar um disco? Autoral ou cover? Aliás, quais covers que nunca faltam nos shows? 

EV - Sim, com certeza! Até o final do ano vamos gravar um EP com umas seis músicas autorais, a pré-produção começa em Julho. São básicamente as músicas que eu toco nos meus shows e algumas mais novas, ainda vamos fazer a seleção para que o EP sintetize bem o trabalho. Até agora vamos lançar de forma independente, mas, é claro, se algum selo se interessar estamos abertos a negociações! (risos). Covers que nunca saem do repertório, são Voodoo child (Hendrix tem que ter sempre) e Strange face of love (Tito & Tarantula). Essa segunda, Sonja Paskin (cantora profissional) canta ela nos shows fazendo participação especial, na verdade, essa é a música da "participação especial". No último show tivemos o Ricardo Abrahin (Tarantinos/FM 80) cantando ela, de maneira geral sempre temos convidados, até o Tony Rocker (dono do Saloon 79) de vez em quando canta com a gente.

Confira-o em ação!





segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Versões #18

Inspirado, embalado, nocauteado... APAIXONADO! Esse é o clima de Love is here to stay, composição do maior gênio da música norte-americana, George Gershwin, destinada ao filme The Goldwin Follies (1938). A canção transcende o mundo material e nos guia através do amor. Que leveza! Uma balada, uma declaração à amada, um brinde à ingenuidade de um recém casal. Impossível o coração não derreter com um som tão doce. Versões de Frank Sinatra, Oscar Peterson, Rod Sterwart, Bill Evans e muitos outros! 


George Gershwin

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Dinah Washington

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Frank Sinatra

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Bill Evans

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Ella Fitzgerald & Louis Armstrong

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Oscar Peterson

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Nat King Cole

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Ray Charles

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Stan Getz

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Rod Stewart

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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Versões #17

Um dedilhado... E a entrada: "There is a house in New Orleans...". Você não sabe do que estou falando? Bem, provavelmente você passou os últimos oitenta anos hibernando em uma caverna ou passou férias prolongadas na Coreia do Norte. House of the rising sun é uma canção de domínio público, pois sua origem é desconhecida. Sabe-se que a primeira gravação de algo "parecido" foi em 1928 pelo bluesman Texas Alexander. Depois, em 1933, o trio Tom Clarence Ashley, Doc Walsh & Gwen Foster foi o responsável pela obra já em sua fase final. É curioso registrar que Gwen Foster diz ter ouvido pela primeira a partir de seu avô Enoch Foster, mas isso já é mais uma dessas maravilhosas lendas populares da música norte-americana! Versões arrasadoras desde o country de Woody Guthrie, o folk de Bob Dylan, a versão imortalizada pelos The Animals, porradaria de Frijid Pink, o reggae de Gregory Isaacs, a seminal canção de Texas Alexander e muitas outras!  


Texas Alexander

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Tom Clarence Ashley, Doc Walsh & Gwen Foster

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Woody Guthrie

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Leadbelly

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Josh White

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Bob Dylan

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The animals

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Frijid Pink

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Nina Simone

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The Supremes

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Idris Mohammed

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Gregory Isaacs

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John Scofield

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terça-feira, 10 de setembro de 2013

Entrevista Slim Jim Phantom



Comemoração boa é aquela que nunca termina! Nesse espírito, mais uma entrevista exclusiva pelos cem mil acessos, o lendário baterista Slim Jim Phantom. Ao lado de Brian Setzer e Lee Rocker, formou uma das maiores banda da história do rock, The Stray Cats. Como poucos, encarnou o rock'n'roll ainda no colégio e, desde então, viveu nessa batida simples e nervosa do rockabilly.


Ugo Medeiros - Você nasceu em Nova Iorque e desde cedo escutava jazz. Esse estilo, de fato, é o que melhor define a cidade? Naquela época, quais nomes você mais escutava?

Slim Jim Phantom - Eu gostava muito do Charlie Parler e de toda cena de Be Bop. Eu pensava que poderia estudar música, mas aí veio o rockabilly e me encontrou.

UM - No começo dos anos 1980, a cena do rock era marcada pela decadência das bandas progressivas e pelo florescimento do metal. Era difícil, nos EUA, receber atenção tocando rockabilly? A propósito, você poderia falar sobre a formação do The Stray Cats?

SJP - Nós íamos juntos para o colégio, pois morávamos no mesmo bairro. Os três tocavam música e "descobriram" o rockabilly ao mesmo tempo. Naquela época havia algumas bandas de rock bem sujas e de blues, o rockabilly era quase desconhecido...

UM - No que diz respeito à aceitação, o público inglês foi fundamental, não? Lá vocês ganharam status de mega banda...

SJP - Sim, nós éramos um sucesso no Reino Unido, eles "sacaram" o nosso som imediatamente. Rock americano sempre teve uma forte aceitação e história por lá, eles nos receberam muito bem. Fomos muito bem por lá e ganhamos visibilidade.

UM - O movimento punk, em geral, sempre teve muita simpatia pelo The Stray Cats. A que se deve isso?

SJP - Nós surgimos ao mesmo tempo que as bandas de punk originais, nós gostávamos da energia e do estilo deles. Fiz boas amizades com algumas pessoas daquela cena.

UM - Você tocou com o Jerry Lee Lewis, acredito, um dos seus ídolos. Como foi?

SJP - Jerry Lee é um cara com um caráter fantástico! Toda noite, durante as apresentações, me pegava olhando o Jerry Lee e o James Burton. Aí eu me lembrava que estava tocando com eles. Foram momentos inesquecíveis...

UM - Um dos melhores projetos, recentemente, foi o The Head Cats. Ao lado do Lemmy e Danny B. Harvey, vocês revisitaram o melhor das canções dos anos 1950. Como nasceu esse projeto? Como é tocar com o Lemmy?

SJP - O Lemmy é um amigo e músico fantástico, o conheço há trinta anos, ele é um grande conhecedor e fã do rockabilly tradiconal e do rock'n'roll. Ele toca a coisa dele e eu toco a minha, de alguma forma soa bem e funciona quando nos juntamos. O Danny é uma ótima pessoa e um músico muito talentoso, sabe muito sobre música e tecnologia. Não teríamos conseguido sem ele.

UM - No Brasil, muito se discute sobre quem seria o "pai" do rock: Elvis Presley ou Chuck Berry. Você tem uma opinião? Ou seria um outro nome? Ou nenhum?

SJP - Elvis!

UM - Você poderia falar um pouco mais sobre o Brian Setzer e Lee Rocker?

SJP - Brian e Lee são os meus verdadeiro parceiros musicais, os conheço desde sempre. Passamos por muitas experiências juntos que nunca tive, nem teria, com outras pessoas. Somos mais próximos que irmãos.

UM - O Rockabilly é um som vintage. Você acha possível colocar sons mais contemporâneos ou isso seria um insulto?

SJP - Acho necessário colocar novos elementos no rockabilly, é necessário para que a música siga em frente. O The Stray Cats tinha uma inclinação mais moderna e teve grande sucesso, agora está na hora de uma banda mais jovem fazer o mesmo...

UM - Há alguma banda de rockabilly recente que te chame atenção?

SJP - Eu gosto do The Caezars, uma banda de rock'n'roll britânica que colocou um novo espírito na coisa.

UM - Tatuagens e Jack Daniels são inerentes ao rock'n'roll?

SJP - Muita gente gosta dessa combinação, mas você deve tomar cuidado, pois não necessariamente uma coisa leva à outra...

UM - Você poderia definir cada desses músicos com apenas uma palavra?

Muddy Waters - Poderoso
Chuck Berry - Canções
Elvis Presley - Rei
Jerry Lee Lewis - Matador (Killer, apelido do Jerry)
Bo Didley - Ritmo
Fats Domino - Groove
Bill Haley - Pioneiro
Brian Setzer - Talento
Slim Jim Phantom - Sobrevivente


terça-feira, 3 de setembro de 2013

Entrevista Marky Ramone


Agora sim, oficialmente, o Coluna Blues Rock tem mais de cem mil acessos! E para quebrar tudo, uma entrevista com o lendário baterista do Ramones, Marky Ramone. Integrante da formação clássica da banda que transcendeu o punk, Marky participou ativamente do nascimento do punk e conviveu com os nomes mais importantes da cena. Senhoras e senhores, é com orgulho que anuncio, pela primeira por aqui, Marky Ramone: "one, two, three...".


Ugo Medeiros - No livro Mate-me Por Favor, os autores (Larry "Legs" McNeil e Gilliam McCain) colocam o Velvet Underground, o MC5 e o New York Dolls como os padrinhos/pré-formadores do punk. Você concorda com isso? Aproveitando a questão, essas três bandas foram as que mais te influenciaram no final dos anos 1960, início dos anos 1970?

Marky Ramone - NÃO! As bandas que mais nos influenciaram foram da invasão britânica, especialmente The Beatles, The Kinks e The Who. As harmonias, o tipo de composição combinadas com aquelas apresentações de pura força foram as nossas inspirações. 

UM - Você fez parte de uma das bandas seminais do hard rock, o Dust. Juntos, vocês gravaram dois álbuns. Como vocês se conheceram? Como foi essa experiência?

MR - Nós nos conhecemos no colégio, sempre íamos juntos. Foi o meu primeiro passo no mundo da música profissional e ainda tenho muito orgulho pelos álbuns que gravamos! Éramos jovens e não tínhamos ideia do que haveria pela frente, mas foi um grande começo para a minha carreira de mais de quarenta anos...

UM - Logo depois, você teve uma rápida passagem pelo Estus. Era um som completamente diferente, um pouco mais psicodélico. Como foi a transição daquele som para algo mais "sujo" e "crú"?

MR - Nós éramos mais uma banda de country rock, portanto não se encaixava tanto nos meus gostos musicais, bem, por isso a rápida passagem.
UM - Entre 1974 e 75 você entrou em contato com pessoas novas, que viriam a formar a cena punk. Era uma nova cena que se orgulhava das "bizarrices". Você poderia falar um pouco mais daquela atmosfera?

MR - A cena musical nova iorquina daquela época era bastante pobre e bastante improvisada, assim como boa parte da cidade. As pessoas eram criativas e conseguiam sucesso na música, artes e modas mesmo sem dinheiro para comprar novos equipamentos e materiais. Era um talento crú que emergia e florescia.

UM - Em 1976 você entrou em contato com Richard Hell e formou The Voidoids. Vocês gravaram um disco muito importante, Blank Generation. Como foi o primeiro contato? O que você poderia falar sobre ele?

MR - Bem, eu não andei com ele por muito tempo, mas posso dizer que ele era um viciado bem difícil de se lidar. Ele era um garoto que veio do interior e eu nasci no coração da cidade grande, portanto nós vivíamos em sintonias completamente diferentes.
UM - O punk ganhou uma proporção gigantesca quando as bandas americanas excursionaram pela Inglaterra. Como foi a recepção por lá? Você acha que os ingleses distorceram o punk original?

MR - O punk nasceu nos EUA e foi refinado na Inglaterra. Nada de errado nisso.

UM - Durante a época dos Voidoids, você já conhecia o som dos Ramones?

MR - Sim, pois sempre os víamos e nos esbarrávamos no CBGB.

UM - Primeiramente você entrou em contato com o Dee-Dee Ramone. Ele sempre foi e será uma figura muito querida pelos fãs e de grande interesse. Você poderia falar um pouco sobre ele?

MR - Ele era um grande compositor e performer, um dos meus melhores amigos. Sinto muita falta daquele cara...

UM - A relação da banda com as drogas era um exagero ou, de fato, quando você entrou a banda estava a pleno vapor (especialmente o Dee-Dee)?

MR - Drogas? Não me lembro...

UM - O seu primeiro disco com os Ramones foi Road to Ruin. Como foi entrar no estúdio com a banda? Digo, como foi a atmosfera?

MR - Eu estava muito ansioso para mostrá-los o meu potencial. Também estava muito feliz por estar envolvido com um grupo, uma BANDA que eu era plenamente identificado. Estava musicalmente feliz e isso transbordava para o meu humor.

UM - Infelizmente a banda nunca teve sucesso comercial. Uma das tentativas foi trabalhar com Phil Spector, o maior produtor da história, uma figura minimamente "excêntrica". É verdade que ele os mantiveram presos em sua mansão e, ainda por cima, ameaçou matar o Joey?

MR - Muito do que se passou naquele estúdio foi exagerado ou inventado por terceiros. Ninguém estava no estúdio, apenas nós. Excêntrico, sim. Violência de fato, NÃO! Essas história vão aumentando e ficando mais selvagens com o passar do tempo...

UM - Você desempenhou um importante papel na banda: aliviar a tensão entre Johnny e Joey. A relação deles era realmente pesada? Havia, de fato, uma mágoa do Joey para com o Johnnie?

MR - Joey, Johnnie, uma mulher... The KKK took my babe away... Disse o bastante? Eu sinto falta dos dois e eu sei que eles, lá de cima, olham para mim e vêem que eu mantenho vivo o legado.


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UM - Na minha opinião, após o Ramones, você sempre se manteve atualizado, não como alguns músicos que permaneceram cristalizados em apenas uma fórmula. Você concorda com essa visão?

MR - Sim e não. Nós sempre tentamos permanecer fieis às nossas raízes, no estúdio às vezes nós dávamos um jeito de concretizar nossas (novas) ideias, outras vezes não. Contudo, se você viu nossos shows, sabe que o Ramones nunca mudou. Velocidade máxima, muito suor, "rosto punk" com melodias pegajosas.

UM - Você estará no Rock in Rio com o Offspring. Como nasceu essa parceria? Aproveite a chance e mande uma mensagem para o público brasileiro...

MR - Nosso empresário na América do Sul foi o responsável por acertar esse show. Estamos todos muito felizes e orgulhosos! Nós daremos uma hora do punk rock ao público carioca, preparando-os para o Offspring. Quem sabe, talvez uma jam com eles. [Nota do editor: será um furo de notícia?]. Será um dia divertido e mal posso esperar para nossos fãs das antigas e a garotada!



sábado, 31 de agosto de 2013

Entrevista Arthur Dapieve



As comemorações pelos cem mil acessos começaram! E para iniciar a festa, uma grande aula sobre história da música com um dos maiores críticos musicais brasileiros, Arthur Dapieve. Profundo conhecedor de jazz, música clássica e rock, foi uma pessoa que me ajudou demais quando, em 2008, escrevi minha monografia sobre Rock e Geografia. Com muita honra e alegria, estendo o tapete vermelho à essa enciclopédia da resenha musical!



Ugo Medeiros - Você se lembra como a música entrou em sua vida? O rock foi o começo de tudo?

Arthur Dapieve - Talvez tenha sido aprendendo a letre de Help na aula de inglês, ainda no primário, mas os primeiros discos que comprei no ginásio eram coletâneas de sucesso, que podiam misturar John Lennon, Minnie Riperton e nomes que despontaram para o anonimato. Só um pouco depois, no meio da adolescência, comecei a comprar discos mais "metodicamente". Não coletâneas, mas LPs de linha. Aí, sim, comecei pelos Beatles, por Bob Dylan e pelo Genesis.

UM - Quais os deveres de um crítico musical? O juízo de valor faz-se necessário, o que chuta para escanteio o relativismo ["tudo é música. Não existe música ruim, apenas diferente..."].

AD - O dever é ser honesto consigo mesmo e com o artista, ser bem-informado e escrever bem. Relativismo, realmente, é incompatível com qualquer tipo de juízo crítico. Acho que mesmo o clichê "há música boa e música ruim" é bastante acrítico.

UM - Aproveitando a última pergunta, o Miles Davis pagou um pouco por isso, não? Fez tanta mistura, tantas sonoridades... E a reta final da carreira foi bem fraca...

AD - Sim, mas é bem fraca, repare, em relação a seus momentos no bebop, no cool jazz e no jazz-rock, que estão entre as criações mais importantes da história da música. Fico me perguntando: se ele tivesse vivido um pouco mais, teria feito algo bom também na fusão com música eletrônica? Ou música é como matemática, os grandes avanços ocorrem na juventude?

UM - E a imparcialidade nisso tudo? O gosto musical, o sentimento ou qualquer outra "interferência" afetam a crítica?

AD - Como eu disse, é preciso ser honesto. Mas não existe a menor possibilidade de se fazer uma crítica na qual o gosto pessoal - inclusive porque não existe gosto impessoal - não desempenhe papel importante. O que o crítico não pode fazer é achar que tudo do que ele gosta é importante ou bom. Ou que tudo do qual ele não gosta é irrelevante ou ruim. Enfim, honestidade intelectual. Gosto não pode ser picuinha.

UM - Ser crítico implica NECESSARIAMENTE em ser jornalista? Por muito tempo achei que eu deveria fazer jornalismo - ideia devidamente excluída - para escrever sobre música. Isso nos leva à atual (e eterna) discussão sobre a obrigatoriedade do diploma...

AD - De modo algum! Nem para ser jornalista é preciso fazer jornalismo... Acho que essa obrigatoriedade cria a ilusão de que a simples posso do diploma de jornalista gabarita alguém para exercer a profissão. Como professor de jornalismo, sei que isso é uma mentira. Como jornalista, meus melhores chefes nunca chegaram perto de uma faculdade de comunicação (eram mais velhos, ou seja, pré-regulamentação). Eu sei, sou minoria tanto entre os professores como entre os jornalistas. Mas acho, além do mais, que a obrigatoriedade do diploma gera uma espécie de "filtro" na liberdade de expressão, o que não é nem desejável nem constitucional.

UM - A crítica musical mudou bastante ao longo do tempo. Já foi algo bem romântico, algo bem Quase Famosos; depois vieram críticos mais ácidos, influenciados pela poesia maldita. Hoje em dia, a escrita é mais caracterizada pela síntese e dinamismo.Você não acha que isso empobrece o texto em si? Digo, está muito técnico e politicamente correto...

AD - Politicamente correto, sim, muito técnico, não. A ênfase está na informação e não na opinião, quando o ideal é haver um equilíbrio entre ambas. O que empobrece o texto, e não só no jornalismo cultural, e não só na crítica, é o baixíssimo grau de leitura da maior parte dos jovens. Leitura relevante, quero dizer. Porque, com a internet, nunca se leu tanto, mas normalmente o que se lê é notícia rápida, abobrinha, e-mail, post, coisas que sozinhas não dão estilos ou conhecimento a ninguém. É preciso articular leitura, compreensão e formação.

UM - O blues já foi o centro do mercado musical, assim como o jazz e o folk. O rock é a galinha dos ovos de ouro desde o final dos anos 1950. Mas, atualmente, o hip-hop é fortíssimo nos EUA e a música eletrônica comanda a Europa. Podemos falar que o rock está em um processo de "declínio"?

AD - Discordo que o blues, o jazz e o folk tenham algum dia sido o centro do mercado musical. O blues, por exemplo, era "race music" nos EUA, aquela categoria racial-musical conhecida como rhythm'n'blues. O grosso do mercado musical americano dos anos 1930 aos 1950 ouvia canção popular americana (branca). Blues sempre foi nicho.  O que, o jazz e o folk foram é usinas de criatividade, não de mercado. O blues ganhou mais visibilidade comercial - e mesmo assim não muito - foi com o interesse que as bandas de rock do outro lado do Atlântico tinham por ele. Foi este rock que era o centro do mercado musical de, digamos, 1954 a 1994. Acho que ele já declinou criativamente há tempos, embora ainda possa fazer algum "auê" comercial de vez em quando. Aconteceu com ele o que aconteceu com o blues, o samba, o jazz etc, as fórmulas se cristalizaram. Há coisas boa em todos esses gêneros, mas elas são ecos de outras eras.

UM - Quando os Stones, Metallica, Motorhead, Allman Bros, Lynyrd Skynyrd e outras mega bandas pararem, haverá uma grande banda que "carregue" o rock? Ou será um conjunto de bandas medianas?

AD - Bandas medianas, até por falta de comparação, se tornarão grandes bandas. Há bandas contemporâneas ou posteriores às que você menciona - e apenas as duas primeiras são imensamente populares, mega mesmo - que já ajudaram a carregar o rock. U2, Radiohead...

UM - O termo "rock progressivo" ganhou um significado ruim, chato. Me lembro do Sergio Dias dizendo "Tudo foi feito pelo Sol não é progressivo, é rock'n'roll". A que se deve isso? Você não acha que o "Metal" vai por esse caminho?

AD - Gosto de progressivo, mas acho que os músicos do gênero (inclusive o Sérgio Dias) fizeram por onde, copiando os maneirismos elitistas de parte do pessoal da música clássica... Ficou parecendo chato, difícil, velho. Não acho que o metal vá seguir esse caminho, felizmente. Inclusive porque "o metal" são tantos... Já o progressivo basicamente sempre foi um só. Hoje em dia é um gênero muito menos atrativo que o metal.

UM - Na minha opinião, o último e mais interessante movimento do rock foi o do "Do it Yourself" (começo dos anos 1980, cena hardcore). E para você? Algo mais recente chama atenção?

AD - Uma ressalva, por favor. O DIY foi usado pelo hardcore (e pela música eletrônica), mas ele é anterior: é invenção do movimento punk, nos anos 1970. Seja como for, depois do hardcore, que não curti muito, houve o grunge e o pós-rock, que acho muito interessantes. Depois, porém, o rock perdeu "momentum" num matagal de bandas independentes inexpressivas e, pior, conformadas com a inexpressividade.

UM - Qual o maior compositor americano, Gershwin, Louis Armstrong, Glenn Miller ou Peter Seeger?

AD - Só dá para optar entre esses quatro? Nenhum deles. Duke Ellington.

[Nota do editor: baita escolha!]

UM - Indiscutivelmente, a música brasileira é muito rica, mas não há tanto intercâmbio entre os diferentes estilos regionais. Isso já é diferente nos EUA, onde há uma constante troca. Há na música nova iorquina influências claras da música apalachiana, assim como um suingue de jazz no bluegrass. Você não acha o brasileiro mais provinciano? Por que isso ocorre no Brasil?

AD - Olha, Ugo, desculpe-me, mas discordo tão profundamente da premissa da pergunta que não tenho nem como responder direito. Não acho a música brasileira menos "intercambiada" ou mais provinciana, não. Como assim, com Noel, Tom, Villa-Lobos, Caetano, Paralamas, Chico Science, Gaby Amarantos? São todos misturados entre regiões, entre nações.

UM - As grandes orquestras filarmônicas são mantidas pelo Estado e doações privadas. Ainda há espaço para o erudito na mídia? Mais, será que o erudito persistirá sem esse approach? Como você vê a música erudita daqui a algumas décadas?

AD - Antes de mais nada, é preciso evitar o termo "música erudita". Consta que a primeira menção a ele estava numa carta do imperador da Áustria a Mozart, reclamando da suposta dificuldade de uma peça. Dificuldade em Mozart?! "Erudito" aí tem, portanto, caráter pejorativo, embora alguns músicos e ouvintes elitistas alimentem o termo. Depois, é preciso ter em mente que a música clássica é mantida também pela venda de discos (é o nicho onde o digital fez menos estragos), pela projeção de óperas do Metropolitan e da Royal Opera House nos cinemas, nas assinaturas para se assistir à Filarmônica de Berlim via web, todo fim de semana... Além disso, ela é usada como fator de integração e progresso social em todo o mundo, como no formidável El Sistema, da Venezuela, de onde emergiu um dos melhores maestros em atividade, Gustavo Dudamel. A música clássica é quase onipresente na mídia desde, claro, que você não procure por músicos de fraque e cartola regidos por um alemão idoso. Ela está nas trilhas de filmes (o que é Ennio Morricone, afinal?), de TV e de games... Assim, daqui a quarenta anos, acho que ela ainda estará por aí, firme e forte.

UM - Por falar em música erudita, como ela entrou em sua vida?

AD - Entrou via bandas de rock progressivo, como Yes e Emerson, Lake & Palmer. A partir deles, fui ouvir as peças que eles tinham regravado a seu modo... Brahms, Mussorgsky... Então, um novo mundo se abriu para mim. Acho que a melhor indicação para um neófito em música clássica que posso dar é um livro: "Música clássica em CD", um escrito pelo recém-falecido Luiz Paulo Horta. A partir dele, começa-se a montar uma boa discoteca clássica.

UM - Mudando um pouco de assunto, você consideraria o Kraftwerk o mais próximo de erudito dentro da música eletrônica?

AD - Do meu ponto de vista etário, o Kraftwerk nem é música eletrônica... Quando comecei a ouví-lo, em meados dos anos 1970, ele me parecia rock progressivo. Depois é que fui descobrir que era parte do tal "kraut rock", rock alemão com características experimentais, junto com, entre muitos outros, Tangerine Dream e Can (o meu favorito). Mantenho-o nessa prateleira. Na eletrônica propriamente dita, acho Massive Attack o mais clássico.

UM - Professor, valeu pela participação. Deixo esse espaço para as suas considerações finais.

AD - Parabéns pelos 100 mil acessos, Ugo. Bela marca.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Olho nele: Eduardo Pimentel

Grata surpresa do blues carioca, Eduardo Pimentel começou graças a Eric Clapton e recentemente lançou o bom single Possibilites, que também ganhou um videoclipe. Confira esse bate-papo bem interessante com esse guitarrista de grande potencial.

Ugo Medeiros - Você tem tocado com a nata do blues carioca. Como você entrou em contato com eles? Como foi a recepção?

Eduardo Pimentel - Meu primeiro professor foi o Cristiano Crochemore, um dos maiores privilégios da minha vida: pessoa formidável e grande profissional! Depois de bons anos em "treinamento" passei a acompanhá-lo em alguns shows e substituí-lo quando ocorria algum imprevisto. Portanto, conheci toda essa cena "blueseira" através dele. A recepção foi a melhor possível! Nas primeiras apresentações sempre ocorria aquele "frio na barriga" (risos) por estar no meio de tantos músicos com larga experiência. Com o passar do tempo, as apresentações ficaram cada vez mais "redondas" e o entrosamento com os músicos ainda maior. Aos poucos a coisa foi ficando mais natural. Não posso deixar de citar o apoio e incentivo de guitarristas como Cristiano Crochemore, Otavio Rocha, Maurício Sahady e Big Gilson. É muito bom ter o reconhecimento de grandes e renomados guitarristas!

UM - Você poderia falar um pouco sobre a gravação de Possibilites?

EP - De uns tempos pra cá, muitas pessoas pedem um som meu, com a minha assinatura. Já tenho algumas canções escritas para meu primeiro CD solo. Possibilites foi uma síntese do que penso sobre "música" e "guitarra". Como gostei bastante do resultado, decidi fazer um vídeo para que essa canção ganhasse a minha imagem. Nessa faixa contei com a produção musical do Roberto Lly e Gabriel Mariano, dois músicos de altíssimo gabarito. E na parte visual Chris Duk, um excelente profissional.Confesso que não esperava tamanho feedback do vídeo, que foi ao ar nessa semana! (risos)

UM - Quais são as perspectivas de um disco? Seria todo instrumental? Você sabe os riscos de lançar um instrumental no Brasil, né...? (risos)

EP - Sempre quis ter algo com meu nome, esse sempre foi o meu objetivo! Dessa forma mais pessoas e músicos poderão me conhecer melhor. Ainda não defini o formato do disco, mas acho que boas surpresas estão por vir... (risos). Quanto aos riscos, eu os conheço bem, mas lançarei esse disco da mesma forma que lancei o vídeo de Possibilites. Espero que o disco tenha o mesmo resultado do vídeo!

UM - Como começou a sua relação com a guitarra? Ela nasceu com o blues?

EP - Aos cinco anos quando ouvi Layla do Eric Clapton! Aquele riff me deixou enlouquecido, mas só comecei, de fato, aos nove anos. Portanto, sim, veio através do blues! (risos)

UM - Qual a sua grande influência?

EP - Eric Clapton! E se eu puder citar mais uma, diria Pat Metheny! E, claro, tantas outras, como Stevie Ray Vaughan, BB King, Larry Carlton, Nathan East, Eduardo Ponti, Jeff Beck, Derek Trucks, Cristiano Crochemore, John Mayer, Glenn Hughes, Oscar Peterson... O difícil é caber tanto nome aqui... (risos)

UM - Qual o seu set de aparelhagem e instrumentos?

EP - Meu set é bem simples. Os estilos que toco não necessitam muitos efeitos. Minha guitarra principal é uma Custom que mandei fazer sob minhas especificações, feita pela Music Custom Guitars, com supervisão do luthier Ivan Freitas. É uma Stratocaster dourada. Tenho, também, uma Fender Stratocaster Eric Clapton Signature  1989 "Blackie". Meu amplificador é um Fender Blues Deluxe Limited Edition. Para o trabalho acústico uso um violão Tanglewood TW40 O AN E. E no meu set de pedais uso para drive um Wampler Tweed 57', um Dod YJM 308 para função de booster [muitos que souberem o que significa o YJM podem achar estranho esse pedal no meu set, mas foi o que melhor se encaixou na sonoridade que eu procurava! (risos)]. Como efeito de modulação tenho um Wampler Nirvana que me dá sonoridade de leslie (caixa rotatória), chorus e vibrato. E para afinação possuo um TC Electronic Polytune.

UM - Em uma apresentação quais os covers não podem faltar?

EP - Um slow blues, de preferência Have you ever loved a woman, uma balada, como Isn't it a pitty, e algo com bastante groove, como Gotta get over do novo disco do Clapton (Old Sock).


Confira Possibilites!


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