quinta-feira, 4 de junho de 2015

Entrevista Renato Arias


Renato Arias é gaúcho e virou o guru do blues-rock carioca. Produziu André Christóvam, descobriu o Blues Etílicos e o saudoso Big Allambik. Por mais de duas décadas foi dono da Satisfaction Discos, refúgio de roqueiros na cidade que é hoje o túmulo do rock. Gente boa e com bom papo, Renato conversou com o Coluna Blues Rock.


Ugo Medeiros - Como foi o seu primeiro contato com a música, foi através do rock ou do blues?

Renato Arias - Através do rock, o meu irmão mais velho  tocava violão e adorava as bandas clássicas, como Beatles, Stones, Byrds, Yardbirds, etc. Meu primeiro disco foi um compacto dos Beatles com I wanna hold you hands e She loves you. Lembro que o filme Os Reis do Iê Iê Iê me marcou profundamente. Depois, entrei em contato com o blues, primeiramente com o Muddy Waters.

UM - Você foi dono de uma das lojas de disco mais importante do Rio de Janeiro, a Satisfaction. Como ela nasceu? A origem do nome reserva uma história bem curiosa, né?!

RA - Eu era casado e morava em São Paulo há nove anos, sinceramente estava saturado. Mudamos para o Rio de Janeiro e logo liguei para o meu amigo Álvaro, que tinha um restaurante. Ele sempre falava que largaria tudo para trabalhar com música. Fundamos a Satisfaction em 1985, ano do primeiro Rock in Rio. Na verdade, o nome foi uma "vingança". Eu frequentava uma loja em São Paulo chamada Revolution e o cara era um babaca. Se o cara tinha uma loja com nome de canção dos Beatles, batizei a minha com uma dos Rolling Stones! [risos]. O Frejat frequentou, Celso Blues Boy, muitos músicos, nem todos eram famosos. O Ed Motta ia sempre, ele me chamava de "Lenda". O Junior Marvin, guitarrista do Bob Marley passou lá.

UM - Você produziu Blues Etílicos, Big Allambik e André Christovam. Antes disso, como era a cena de blues no Brasil? Você lembra de alguém tocando essa música? Você algum "mestre" na produção ou fui na base da tentativa/erro?

RA -  Até tinham algumas bandas que vez ou outra gravavam um blues, mas não havia uma cena blues. Made in Brazil, Ave de Veludo, e outras até tinham certa influência de blues, mas o primeiro disco concebido como blues, desde a gravação à capa, foi o primeiro do Blues Etílicos, Satisfaction. Tive ajuda de algumas pessoas que já estavam naquele meio, de alguns técnicos de som e de músicos que já tinham alguma experiência em gravação de demos. No rádio fui por mim mesmo com a ajuda de algumas doses de conhaque. [risos]. No começo o programa era gravado, depois foi ao vivo com participação de músicos. Era bem legal!

UM - Por falar em Blues Etílicos, como foi o seu primeiro contato com a banda? Como foi a gravação do primeiro disco?

RA - O primeiro contato foi com o Otávio Rocha, ele tinha uma loja de discos no Flamengo, Caixa de Música. Ele queria comprar a nossa loja (!). Recusamos, claro!, mas ele nos chamou para o show da sua banda. Já era o Blues Etílicos, nessa época ele estava na bateria. Vi que a banda tinha potencial. Junto com um outro amigo bancamos o disco, todo ao vivo gravado em fitas de vídeo. Foram dois dias de gravação. O negócio era tocar, tocar e tocar, o estúdio era em frente à minha casa. Quando escutei as versões  de Dust my broom e Key to the Highway, tive certeza do sucesso. Quando entramos em contato com a extinta rádio Fluminense, ganharam muita projeção. O André Christovam ajudou bastante também. Havia uma casa noturna em São Paulo, Dama Choque, que não queria show do Etílicos. Ele tentou, mas o dono não cedeu. Marcou o seu show (André Christovam Trio) e nesse meio tempo levou a fita à uma rádio paulista de rock, a banda causou boa impressão. Em cima da hora cancelou sua apresentação e o dono foi obrigado a chamar o Blues Etílicos. A previsão era de oitenta pessoa, foram quase mil e quinhentas. 

UM -  E por falar em André Christovam, como foi o seu primeiro contato? Concorda que ele é o bluesman mais importante do Brasil?

RA - Concordo, sem dúvidas! Ele preenche o pacote "Bluesman", tem contatos, participa de workshops, canta, participa de outras bandas. Ele vive da música. A primeira banda dele, Fickle Pickle, teve a melhor cozinha (baixo + bateria) de rock do Brasil. Estudávamos juntos no colégio e nos reencontramos anos depois quando ele tocou com o Blues Etílicos. O representei aqui no Rio de Janeiro. A antiga gravadora Eldorado pediu indicação de bandas, pois ela lançava sempre em duplas (Sepultura + Ratos de Porão), nessa lançou o segundo do Etílicos junto com o primeiro do André, Mandinga. Lembro que o vi compondo Genuíno pedaço do Cristo em um hotel aqui no Rio. Ele é o maior, sim, já tocou com Albert Collins, John Mayall (se não estou enganado) e com o BB King. Aliás, foi graças a ele que conheci o BB King! Por volta de 1989, 90 ou 91, o André foi roadie manager em uma turnê do BB King. No show do Canecão precisou do amplificador do Otávio Rocha. Emprestamos e fomos ao camarim. Sinceramente, não achei que rolaria, estava lotado de globais, todos em cima do BB. Após algumas horas, o coroa nos recebeu e foi super simpático, eu toquei na Lucille! Também devo a ele conhecer o Johnny Winter.

UM - E como foi com o Big Allambik?

RA - Saí do Blues etílicos e fiquei apenas na loja. Os músicos começaram a rondar a Satisfaction. Nessa época o Big Gilson, Ricardo e Beto Werther tinham uma banda de cover de blues-rock, Emoções Baratas. E em Niterói havia outra que esqueci o nome, formada pelo Ugo Perrotta, Victor Gaspar e a vocalista Eulina Rego. Em um determinado momento as duas se juntaram, mas logo tiveram alguns problemas entre os guitarristas (Gilson e Gaspar). Assim nasceu o Big Allambik. Eu já tinha o conhecimento do período com o Etílicos, isso facilitou um pouco. Produzi os dois primeiros discos. Na minha opinião, o terceiro é o melhor da banda.

UM - Você trabalhou com vários músicos, de influências e sonoridades bem distintas. Quais mais te marcaram?

RA - O Otávio Rocha está entre os melhores do mundo no slide, foi autodidata com o slide no dedo. O André é incrível, como disse, o maior bluesman do país. O Flávio é considerado um dos maiores,  o melhor do mundo segundo o Charlie Musselwhite. O Greg Wilson do Etílicos não é um bluesman sob o ponto de vista musical, mas é o típico bluesman doidão, boa praça, é verdadeiro, lembra o jeito do Little Walter. Ele é formado em trompete!

UM - Você também produziu diversos festivais, o último em 2007 no Circo Voador. Olhando para trás, era melhor produzir naqueles tempos ou a tecnologia atual facilitou? Você teve muita dor de cabeça com Circo Voador, lembro dos seus estresses...

RA - A primeira fase do Circo Voador tinha lá os seus problemas, mas, bem ou mal, permitiam o funcionamento das diferentes produções. O fato de termos o apoio da Fluminense, dava um respaldo interessante. Atualmente é foda. Duvido que você saiba quem tocou ontem ou tocará hoje à noite. Porra, me sacanearam em 2007, colocaram mesas na pista, isso sem falar no esquema de ingressos! [Isso comprovado por este editor. O ingressos custavam algo em torno de R$30. Como a bilheteria era da produção, os próprios caixas desviavam, vendiam por R$5 ou R$10 e embolsavam]. O Circo pode passar o ano todo fechado e ainda assim terá lucro! É muito difícil. Pode parecer estranho, mas a coisa do email piorou a vida dos produtores, antes o cara lia (ou fingia) o projeto na sua frente, hoje o cara simplesmente deleta o email. Claro, para quem já tinha um público certo e uma estabilidade, tanta tecnologia ajudou, caso do Caetano que ganhou ainda mais. Com a rádio ainda éramos recebidos pelos jornalistas, conseguimos uma página inteira sobre o Água Mineral do Etílicos.

UM - Como foi assistir a um show do Stevie Ray Vaughan?

RA - Foi em São Francisco, minha cunhada morava lá. Fui para comprar vinis e material de música em geral. Eu tinha acabado de comprar um vinil dele, quando escutei aquele som pensei que fosse um artista dos anos 1970, mas, não!, era de 86! Por sorte, abri o jornal e vi que ele tocaria em um arena. Era linda, com um gramado em volta, estilo piquenique. Teve participação da Bonnie Ratt, era um show da turnê do Live Alive. Foi incrível!

UM - Infelizmente, a mídia não abre espaço para o blues. Os músicos do blues deixam os roqueiros brasileiros no chinelo, né?

RA - É difícil. As vendas na Eldorado eram boas, Água Mineral igualou as vendas de Manuel, do Ed Motta, pela Warner. Os músicos de blues são de lua, mas quando querem colocam fogo no palco. Um guitarrista me disse certa vez que as bandas de rock têm medo de subir ao palco após um show de blues.


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