domingo, 26 de fevereiro de 2012

O stand up de Henry Rollins



O verdadeiro punk não é o que vomita meia dúzia de frases de efeito com teor político; mas, aquele que vive do humor ácido e consegue direcionar todo o sarcasmo para mostrar o óbvio: o quanto a sociedade nos consome. Por natureza, esse ser anarquista tem o dom de atirar para todos os lados sem soar apelativo e nunca se levar a sério. Não é fácil ser um punk. [E longe de tentar me posar como tal, pois nunca fui!]

Em janeiro fui ao stand up do Henry Rollins, no Albert Festival Hall. Sinceramente, estava um tanto apreensivo, pois não se tratava de um show de música. Cheguei a ver um curta metragem em que Rollins recitava poesias. [VIDEO] As letras eram bacanas, mas a coisa em si era bem pretensiosa. Fiquei com um pé atrás, mas feliz em ver um cara que certamente não viria ao Brasil. Feliz engano.

O vocalista da Black Flag, banda que conheci (e viciei) graças ao meu amigo cigano Moxkito, acabou com o nhe-nhe-nhé politicamente correto. Na verdade, jogou ácido fluorídrico em cima de toda essa montanha de besteiras, a mesma que habitamos e dançamos a makarena. Claro, acrescenta-se a isso um humor que arrancava gargalhadas de um público com faixa etária diversificada.

Sua passagem pela National Geographic renderam ótimas estórias, e a ida à Coreia do Norte - país que sofre de autoisolamento crônico - exemplifica bem como ele aborda a questão política de forma despolitizada, sem levantar bandeiras ou soar doutrinador. Ele narra o que é viver em uma ditadura de esquerda, sim. Entretanto, com um humor que era o mix perfeito entre a sua cara-de-pau característica e o deboche do Woody Allen. Toda a doentia rigidez da burocracia do Estado comunista era escancarada através de situações que caminhavam na tênue linha que separava o fato político da comédia pastelão. “Eu fui à principal praça de Pyongyang com o meu guia. Ele se aproximou e disse que aquela era a maior do mundo, superando, inclusive, a Praça da Paz Celestial (China). Na mesma hora, meio sem graça, o corrigi: ‘Sabe, eu acabei de vir da China... Lá é maior...’. Foi quando ele respondeu surpreso: ‘Não... Não é possível... Você está enganado, Sr. Rollins, aqui é maior. Eu nunca saí daqui, mas, olhe, o panfleto diz... [e me mostra um panfleto produzido pelo Governo norte coreano]. O General não mente!’. É, acabei concordando com ele. Vai ver, ele tinha razão: o General não mente... O pior foi quando nos despedimos. Ele aproximou-se e perguntou: ‘você é meu amigo, Sr. Rollins?’. Meio sem graça, respondi ‘claaaaro’. O coreano, com seu inglês macarrônico, continuou: ‘Como eu faço para entrar em contato com você? Eu quero ir para Los Angeles te visitar...’. Agora, completamente sem jeito e me segurando para não rir, respirei e respondi: ‘bem, depois, acesse a internet e entre no meu site – BEEEEEEEEEEH [simulando o barulho de uma campainha] – e quando chegar em Los Angeles – BEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEH – me ligue que eu te busco...”.

Ele consegue transformar e narrar uma simples ida à uma cadeia de mega mercados em uma odisseia hilária. “Eu via as pessoas naqueles fast foods, mas aquilo não era comer. Eles não comiam, eles devoravam. Quem come, saboreia o alimento. Eles não, eram animais que trituravam tudo em segundos... ‘Ei, vamos ver quem se envenena primeiro!? Eu ganho! Eu ganho!’”.

E houve, ainda, espaço para antigos “causos” dos tempos de Black Flag, como o da Garota Esmagada. “Havia um cara gordo, bem gordo, com coturno e calça de militar. Ele subiu no palco e começou correr em volta dos músicos. Foi quando ele deu um mosh para a plateia. Evidentemente, todos abriram e saíram de perto, com exceção de uma menina baixinha, toda fofinha. ‘Ahhhhhhhhhh – todos gritavam – a menina!!!!!!’. Como em câmera lenta, a sombra daquela coisa gorda encobriu a garota e antes que ela pudesse sequer gritar, foi esmagada. Nós paramos, o público parou. Todos agoniados. O cara se levanta e vai embora. Ela, aos poucos, se levanta – ‘Ai meu Deus, ela está viva!’ – e saiu. ‘Ei, seus merdas, voltem a tocar!’, gritavam as pessoas. Voltamos a cantar, “hate, hate, hate, hate, hate, hate, etc...”, e assim foi até o final. Um ano depois, voltamos àquela casa. À tarde, na passagem de som, aproximou-se uma menina - eu a conhecia de algum lugar. Então ela começou: ‘vocês não devem lembrar de mim, mas ano passado eu fui esmagada por um cara gordo’. Não me contive e gritei: ‘você foi a menina que foi esmagada! Você está bem, né?! [Puta que pariu, eu pensava, por favor, esteja bem, esteja bem]’. Ela continou, ‘Bem, está vendo esse olho aqui? É de vidro...’. Na mesma hora eu pensava comigo mesmo: ‘Caralho, ela vai ao nosso show e perde um olho. O que poderíamos fazer por ela? Dar um par de ingressos? NÃO, ISSO NÃO DEVOLVERIA A VISÃO! Dar credenciais? NÃO! O que poderíamos fazer?’. Mas, para nossa surpresa, ela nos deu a maior lição: ‘Ok, foi legal falar com vocês, à noite estarei aqui...’. E saiu tranquilamente. FUCK! Essa garota é foda!” .

Outras estórias foram divertidas, como a de quando Henry “contracenou” com Dennis Hopper durante a exposição do Captain Beefheart. Porém uma em especial chamou atenção. “Estávamos tocando perto de Nova Iorque, em 81 ou 82. Colado ao palco, um bando de cabeludos que gritava mais alto do que a banda e o restante das pessoas. ‘Yeahhhhh, yeahhhhh... Porra!’. A coisa estava tão forte que fui obrigado a pedir que baixassem um pouco a empolgação e tal... Após o concerto, um cara bateu no camarim e pediu que déssemos conselhos a um grupo de rock que recém começava. Quando vi, eram aqueles cabeludos. Até pensei em falar algo, mas preferi ficar calado. Um ano mais tarde, descobri que eram o Metallica. Acho que eles não precisavam dos meus conselhos...”.

Mais risos quando contou sobre a polícia indiana no aeroporto e a lista de objetos proibidos/permitidos a bordo. Reflexões sobre as catástrofes e desenrolos sociais no Haiti. Nostalgia ao falar sobre o início da cena hardcore. Um refeição completa para quem sempre sentiu-se desconfortável com toda essa artificialidade que nos rodeia.

Henry Rollins mostrou que o punk vai muito além de alguns acordes sujos e roupas rasgadas. É necessário uma consicência sóbria e discernimento. Ao final das quase três horas de apresentação, o público poderia não concordar com tudo que ele disse, mas, há de convir, ele o fez pensar.

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