terça-feira, 4 de outubro de 2011

O dia de uma banda só



Engoli certo ranço e orgulho e fui ao último dia de Rock in Rio. Adoro Mutantes e sou fã incondicional da guitarra de Sérgio Dias. Coloco-o como o maior guitarrista brasileiro [Quando digo maior, não digo melhor; mas, sim, o mais importante, com mais história e que mais influenciou as gerações seguintes]. É evidente que essa banda de “Mutantes” não tem nada, apesar de contar ainda com Dinho (baterista original). A questão é simples: faço o possível para ver o Sérgio enquanto ainda está entre nós. Isso porque são raras as apresentações dele por aqui. Haveria de brinde a participação de Tom Zé. Isso me animou.

De resto, não tive muita expectativa. Excel Roses? Piada-de-mau-gosto-para-roqueiro-brasileiro engolir (e a massa engole!). O único show que me gerou certa ansiedade fora o do System of a Down, o qual nunca falei mal, mas, também, jamais elogiei. Parando e pensando, algo superior me chamava. Segui o feeling. Vamos por partes.

Gostei da crítica do O Globo sobre a aparição dos Mutantes, algo como, “não foi”. A intenção de unir as bandas de Tom Zé e dos Mutantes foi um vexame homérico. O baiano de 74 anos subiu ao palco e, apesar de problemas com o microfone, fez uma apresentação insana.

Os anarquistas são divertidos, legais de verdade. Sempre falo: “se é para ser revolucionário, que seja anarco”. Apesar de não concordar com a ideologia, respeito e adimiro a coerência da trajetória. Por que digo isso? Sempre torci o nariz pela forma que a academia endeusava o Tom Zé, sempre por questões políticas. Mas, porra, o anarquista é sarcástico e, sobretudo, não quer que ninguém o leve tão a sério. Ele gosta de atirar para todos os lados, tal como Luís Buñuel e Frank Zappa.

Peguemos o exemplo de Zappa. O cara sempre destruiu o puritanismo anglo-protestante através de letras ácidas (sem apelar para política propriamente dita) e orquestrando o público, transformando-o no, talvez, “instrumento” mais importante. [Dica: baixem o disco We’re Only in it for the Money. Sarcástico do início, a começar pela capa que parodiava o Sgt. Peppers dos Beatles, ao fim, criticando as amebas hippies]. Finalmente, por total culpa minha, enxerguei a genialidade do Tom Zé. Evocando o espírito Zappaniano, o músico conduziu brilhantemente o coro de alguns milhares. E claro, houve também espaço para críticas apartidárias, não ofuscando a música.

Legal, show bem bacana e um conceito revisto por minha parte. Ué, mas, e os Mutantes? Aí começa o amadorismo verde e amarelo. A junção não ocorreu, pelo contrário, Tom Zé e cia. foram praticamente expulsos e recolheram os equipamentos em uma correria frenética e grosseira. JAMAIS ví algo parecido, nem nos piores shows das bandas mais podres.

A banda de Sérgio Dias tentou tocar. Infelizmente, nada deu certo. O som mal equalizado, microfonias constantes e... O CACETE DA GUITARRA MUITO BAIXO. No clímax do show, em um solo de chorar com direito a citação de My guitar gently wheeps, simplesmente não se ouvia uma nota sequer. Nem falo da patética participação da pretensa a cantora Bia Mendes. Alguns clássicos assassinados e outras canções novas do fraquíssimo Haih or Amortecedor (2009). A participação de Tom Zé foi trágica. Uma tentativa de cantar. A segunda. Na terceira, o melhor foi retirar-se.

Poís é, após a decepção, minha noite seria encontrar algum amigo e gastar a onda com os shows restantes.

Detonautas merecem algum tipo de comentário? Vejam bem, Zappa e Tom Zé fazem críticas inteligentes, sarcásticas, muito bem humoradas. E esse tal de Tico Santa Cruz? Pega o microfone para falar que devemos adquirir “consciência social”. Qual, cara pálida? A dele? A minha? Esse, sim, minimiza a cultura para focar apenas em política.

O show da Pitty até foi divertido. Para mim, foi quando a noite começou de fato. Tipo, ela é legal para curtir uma noite em uma casa de show de médio porte. Amadureceu ao longo da carreira, mas ela não segura a onda para cem mil pessoas. A banda é entrosada, mas soa demasiadamente macia em relação aos que viriam pela frente (com exceção aos Gans em Houses e sua líder chiliquenta).

O Evanescence não consegue me atrair. Nada contra, apenas nada a favor. Tem mais peso que a Pitty, o que é interessante. Mas, sei lá, acho um som tão previsível e sem sal... A apresentação não foi, de maneira alguma, uma tortura. Entretanto, longe de ter sido uma aula de metal.

Aí chegamos ao System of a Down. Que showzaço! Engraçado, pois o System apareceu quase na mesma época que o Audioslave. Naquela altura preferia a segunda. Sempre gostei das bases do System, mas nada além disso. Como consegui o ingresso uma semana antes, fiz o dever de casa e escutei com atenção algumas canções deles. Foi quando percebi um peso e uma criatividade interessantes. Indaguei-me da onde vinha essa pitada de psicodelia, logo respondida quando lí que eles são da Califórnia [TODA BANDA DA CALIFÓRNIA TEM UM TEMPERO PSICODÉLICO! Em breve algumas linhas sobre].

O show começou em uma agradável violência sonora. Eram nítidos a alegria e simplicidade da banda. O guitarrista Darron Malakian roubou a cena por completo e, esse sim, deu uma aula de rock. Bons solos, bases perfeitas e irreverência. O som é pesado e bem feito! Claro que há certas coisas que me irritam, como o vocal de Serj Tankian em alguns momentos. [Fazer o que? Carrego a frustração de um ser que nunca conseguiu tocar instrumento (risos)]

Uma grata surpresa. Não me omito ao afirmar que POR MUITO TEMPO SUBESTIMEI O SYSTEM OF A DOWN. Fato, esse, corrigido. Ainda prefiro a pegada do motörhead, um rock’n’roll à base de anfetamina e Jack Daniels que não permite jamais que o trem pare, no entanto certo é que a encararei com todo respeito e, na medida do possível, admiração.

E o meu Rock in Rio terminou por aí. Ainda peguei uma chuva desgraçada e escutei uma franga gorda e ruidosa por trinta minutos. Fui para casa feliz. Muito feliz. Feliz para caralho. Dia seguinte fui dar aula destruído e inventei alguns exercícios. Voltei e dormi pelo resto do dia.

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