domingo, 15 de maio de 2011

Salada tropical. Ou: Rock in Lixo


É melhor o povo verde e amarelo desistir. Realmente, esta é uma terra não-rock. É claro que há alguns pontos de cultura puramente rock, como Porto Alegre, mas, em sua grande parte, é um país que simplesmente castra toda e qualquer possibilidade de um espírito roqueiro. O Rock in Rio 2011 é mais uma prova (definitiva?) desse lamentável fato.

É difícil ser roqueiro em um país tão provinciano. É muita força contra. Se de um lado temos a brava intelectualidade com o jequismo antiamericano, do outro somos agraciados com o maravilhoso e moderrrrrrrrno jornalismo brasileiro, mestre, como poucos, em mostrar a “realidade”.

Não suficiente o corolário anti-Estados Unidos que, desde cedo, somos adestrados, ainda há a emburrecedora mídia. Sim, essa mesma que enche a boca com cavalares doses de “nada” para afirmar bobagens inconsequentes e irresponsáveis. A própria, que confunde Cultura com “expressões socialmente construídas pelos excluídos”. Ora, o que esperar de um país que taxa Blitz como grande representante do rock nacional e que simplesmente não reconhece Elvis Presley como pai do rock pela sua ligação ao american way of life? Para essa classe, que tudo pode tudo e nada deve, o rock é mero produto yankee, logo, é algo que deve ser alvo de deturpações. Reconheço que já fiz semelhantes afirmações, mas humildemente reconheci meus erros.

Concomitantemente, ainda somos obrigados a agüentar uma retórica rala que apresenta dois pesos e duas medidas. Grande parte dos nossos “escrevedores” diários reduz o blues a uma mera luta entre negros e brancos, desconhecendo totalmente a real trajetória, e afirmam que a música sulista dos EUA é racista. Engraçado, pois as bases do blues e do folk têm origem comum e, justamente, foi através desses estilos musicais que o conflito proveniente de uma sociedade segregada era, de certa forma, atenuada. A música country, base do jazz e tão seminal ao blues, é vista aqui como restrita à comunidade branca e seus músicos nunca receberam os devidos méritos.

Por Deus, pensando bem, seria injusto e incoerente ter uma cultura de rock consolidada neste país. O que esperar de um país que perde tempo realizando uma marcha contra a guitarra? [O texto corrente não é o melhor espaço para aprofundar sobre esse assunto. O cito apenas para mostrar a “grandeza” do pensamento tupi]. Houve algo parecido em outro lugar: na China Maoísta...

Tanta volta é necessária para registrar que Braziu e rock são tão excludentes como marxismo e religião. O ridículo espetáculo da mídia pelo Rock in Rio 2011 é de causar nojo, ainda mais ao ver a programação oficial. Eis alguns pontos.

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Não gosto de Red Hot Chilli Peppers, mas não entro no juízo de valor (por hora). Mas, será uma atitude correta encerrar uma noite com uma banda que já teve a honra de finalizar a edição passada? Esses mega eventos deveriam trazer nomes inéditos. Essa receita de bolo é apenas uma forma de lucro seguro.

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Já digo desde já: O ÚNICO SHOW PORRADÃO SERÁ DO MOTORHEAD! Esqueçam Slipkinot, Metallica e tutti quanti...

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Capital Inicial? Gloria? Jota Quest? NX Zero? Eis bons motivos de risos... Hoje entendo a afirmação do meu amigo filósofo Muñoz: “Há rock brasileiro, mas não há rock no Brasil...”. E isso sem falar nas brincadeiras de mau gosto, tais como Claudia Leite e Ivete Sangalo. Devemos gostar porque é brasileiro? E que tal colocar uma banda cover da Carmen Miranda? E depois reclamamos quando nos retratam como uma república de bananas...

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Aproveitando o gancho, que papelão e falta de elegância colocar os Mutantes, a maior banda nacional, em um palco secundário. De fato, não se valoriza cultura neste país...

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Dentre tantas bolas foras da produção, um grande acerto! Decisão sábia e coerente de colocar Lenny Kravitz entre Shakira e Ivete Sangalo...

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Ainda em tempo... E que tal um casting com Lynyrd Skynyd, John Fogerty, Jack White e David Gilmour? Duvido que os ingressos não se esgotassem.

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Enfim, em tempos de lixos musicais faraônicos, aproveito a oportunidade para divulgar o melhor festival realizado no Brasil: Rio das Ostras Jazz & Blues Festival. Entre os dias 22 e 26 de junho, o público entrará em contato com música de qualidade. E melhor, de graça! Apenas pela presença do trio Medeski, Martin & Wood já será emoção garantida. Em breve, matéria completa sobre Rio das Ostras.

Um comentário:

Isabella disse...

Pensei que só eu considerava o Rock in Rio uma piada! Ainda achei um blog sobre boa música e com ótimos textos. Parabéns!