sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Carta ao Sr. Caco Barcelos (Profissão Repórter)


No dia 12/10/2010, o Profissão Repórter - programa jornalístico da TV Globo - cobriu o festival SWU. Infelizmente, a "jovem equipe de jornalistas" cometeu graves equívocos e a matéria, em essência, foi um desastre. Posto aqui a carta enviada ao Sr. Caco Barcelos.

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Prezado Caco Barcelos,

Meu nome é Ugo Medeiros, sou um professor de Geografia e pesquisador musical.

Acho interessante a ideia do programa: colocar a "mulecada pra se virar". Mostrar o perfil do jornalista; como ele é crú no início de carreira, etc. Além do programa já ter apresentado ótimas pautas.

Entretanto, no último programa tiveram certas questões que me incomodaram bastante. A matéria foi concebida com certos valores equivocados, tendo um resultado bastante estereotipado.

Nenhum dos repórteres, acostumados a pautas mais políticas, tinha o menor envolvimento com a questão musical. Nenhum deles conhecia "nada de nada versus nada". O que acontece?

1 - Para escrever a matéria, pegam informações sobre as bandas, certamente no wikipedia. Recorrem à fontes fracas e de origens perigosas, quase sempre tendendo ao senso comum. Logo, a informação que o público recebe é de péssima qualidade. Perceba, quando eles entrevistam o público fã de uma banda, facilmente são "convencidos" pelo entrevistando. O que irão falar se não dominam a questão? O programa acaba sendo "levado" por terceiros...

2 - Ao não dominar a música, a matéria e os músicos perdem em cultura e ganha em uma antropologia bem rala: estudar as "tribos" (e olha que aspas são pouco!). Perde-se o viés cultural, novamente. Um exemplo? Cobertura do Rock in Rio. Vejam esse vídeo:

video

É revoltante o que fizeram com o mega evento de rock. Jornalistas que não conheciam a questão, com informações de terceiros e que transformaram cultura em antropologia barata. Nsse vídeo, a jornalista Ilze Scamparine (uma das top da Rede Globo) ainda vende, EM PLENO OS ANOS 80, a ligação entre satanismo e rock. Nada mais, nada menos, que trinta anos depois dos EUA. A coisa do ocultismo no Metal sempre foi papo de adolescente. Já parou pra ver qual é o perfil atual dos metaleiros "maus"? O discurso sobre rock e satanismo foi levado a sério APENAS nos anos 50, por causa do Elvis! Portanto, esse vídeo mostra o porquê da mídia brasileira ser tão jeca. Há outras questões que expõem a jornalista ao ridículo. Além do tratamento errado, ela foi incompetente. Por que vaiaram o Lobão? Pois na véspera ele falou algo como "nunca ficaria no mesmo lugar que um metaleiro" (para sacanear). Cadê a informação? Coloca, ainda, a cultura tupi sendo "perseguida". [reacionário?]. Será mesmo que teve bom senso colocar bateria da Mangueira no Rock in Rio? Claro que a violência ao se jogar objetos no artista é errada, mas o que esperar de um país como o Brasil? Será que ela se perguntou: E se fosse um festival de samba e aparecessem uns caras de preto "gritando"? A matéria fica ridícula.

Desculpe-me por essa volta, mas precisava elucidar a questão. Reveja a reportagem, a ideia é a mesma com informações "quase diferentes".

3 - Estereótipo da breguice. Os repórteres não sabiam o que perguntar aos músicos e, devido a falta de base, acabou indo para uma cobertura típica de "fofoquinha". Perguntas óbvias "O que vocês acham do público brasileiro?". Mostrando os detalhes do camarim. Tentando ir ao palco, "mostrando que um jornalista não desiste nunca...”

A produção, que tinha tudo pra ser fantástica, fica na mesmice de sempre, com ares renovados. Novamente, um mega evento de rock sem uma decente cobertura, pela falta de cultura. Infelizmente, perdeu-se a oportunidade de mostrar ao público brasileiro o rock pelo que ele é (as conclusões, boas ou ruins, são individuais). Não é de se espantar que as referências roqueiras daqui sejam tão fracas.

Enfim, agradeço o espaço.

Abraços,
Ugo Medeiros
www.colunabluesrock.blogspot.com

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Valendo uma caixa de Brahma: será que me responderam?????

Detalhe: ano que vem terá Rock in Rio. O que virá pela frente: antropologia de fundo-de-quintal ou breguices verde e amarelas?

6 comentários:

anamaria disse...

esse rock in rio que vc mostrou foi no rj não? e teve sambista. me responde uma coisa: nas edições do rock in rio que aconteceram em portugal teve alguma cachoupa cantando fado? bjs.

Ugo Medeiros disse...

Provavelmente não... Em países que existe uma Alta Cultura bem definida (ainda que em decadência), não é necessário essa auto afirmação constante... Chega a ser uma lisonja.. Brasil adora isso, tem que ficar falando em samba até em festival de rock.... Isso é coisa de país sem cultura.

Lucio Mikayah disse...

A vinculação do rock ao satanismo não pode ser atribuída a religião ou a grupos evangélicos. A vinculação foi estabelecida pelo próprio rock, através de algumas de suas bandas mais famosas, com o objetivo de provocação a sociedade cristã. É só verificar as letras de algumas dessas bandas tais como o AC/DC. Afirmar que a vinculação é papo de adolescente é desconhecer a própria história do rock (e as letras das canções também)

Crotti disse...

Alta cultura bem definida em portugal ?
Ivete Sangalo, não me parece um artista que defina bem o Rock !Como é que a Ivete Sangalo pode tocar num Rock in Rio ? Mudem o nome do evento pelo menos !
Em tempos passados, o Carlinhos Brown também teve problemas com a platéia !
Enfim, não era de se esperar nada melhor do que isso da Globo ! Quem tiver interesse em boa música ou em seguir nas direções corretas de um estilo musical que o faça por si só ! O Brasil é uma grande piada neste sentido. A começar pela não valorização de nossa rica musicalidade !
Abraços

Ugo Medeiros disse...

Portugal sempre foi uma piada em relação aos outros países da Europa, haja vista que nascemos deles... Mas, mesmo assim, ainda estão anos-luz a nossa frente...

Hugo Sheikispir disse...

Gostei da carta, sou amante da música, porém leigo... Amo o Rockabilly, mas nem imaginava ligação do Elvis com satanismo! Cara, e colocar bateria de samba não dá! Se fosse o SambaRock lá do Grajaú do Seu Jorge... kkkkk...