terça-feira, 3 de agosto de 2010

Bate-papo com André Christóvam



Ugo Medeiros – Você abriu, recentemente, para o Johnny Winter na última passagem dele pelo Brasil. Foi mais um sonho realizado?

André Christóvam
– Seria se fosse em 1981... Nessa fase atual foi uma grande dor de cabeça. (O que eu falarei agora dará uma merda, mas, enfim, vamos lá...). Abrir show de banda estrangeira é uma bosta, um atraso de vida para qualquer brasileiro. Aliás, é um atraso para qualquer pessoa independente da nacionalidade. A produção era de um amigo meu, Sílvio Palmeira, um cara extremamente competente e decente. Mesmo assim, foi uma merda. A banda do Winter é fraca e o cara não aguenta mais o pique. Infelizmente, o corpo dele não suporta mais a potência musical necessária. É duro, muito triste, ver que as pessoas o exploram: são 140 shows por ano! Estão espremendo o bagaço da laranja a fim de tirar o que puderem. Isso é uma tremenda falta de respeito, um total absurdo! Gostaria que as pessoas tivessem discernimento. Tocar e conversar com o Johnny foi algo que não aconteceu. A gente simplesmente entrou e ficou três minutos com ele. Nada além disso. Não ia gastar energia com uma pessoa que simplesmente não era mais o Johnny Winter. O Johnny que eu vi pulava no palco a noite inteira, era espetacular, foi o show mais alto de toda a minha vida. Dessa vez, vi um pouco do show atrás do palco e fui embora, por respeito a ele. Fazer o que? O prestígio de abrir para alguém com o nome dele é imenso, mas é uma “faca de dois gumes”. Recebemos apenas uma ajuda de custo, já que somos a banda de abertura. Mas depois dessa dificilmente abrirei outros shows novamente. Serei bastante sincero, eu não preciso mais disso. Se fosse para trabalhar e tocar com ele, carregaria cadeira de rodas e daria banho no cara, mas jamais o colocaria pra fazer essa quantidade de espetáculos. Por mais que ele goste de ir para estrada, faria algo que não fosse tão cruel. É claro que a culpa não é da produção brasileira, existe um empresário americano que negocia esses 140 shows. É triste, pois o Brasil sempre recebe o refugo do refugo do refugo. E o mais louco nisso tudo é que têm muitos investidores que me falam: “tenho um investimento pra trazer um nome de peso, pois é importante trazer fulano e cicrano”. Porra, o ÚNICO dessa galera antiga que continua em forma é o Robin Trower, de resto... Não adianta trazer Peter Green ou Mick Taylor, não vai funcionar. Se querem ver a cena atual de guitarra, vejam o Michael Landau, que é uma referência nos EUA há mais de vinte anos e pela primeira vez deixa, de fato, a terra natal. O show dele é completamente INSANO, o cara é um ignorante! É claro que há figuras icônicas, mas você tem que optar: fazer bem ou mal. Porra, de que adianta trazer o JW com uma banda que parece o Ramones? E olha que eu não gostava Ramones, mas o Joey era muito gente boa.

UM – Qual foi o disco que, ao escutar, te fez pensar: “Puta que pariu, tenho que ser músico!”?

ACDisraeli Gears (Cream), de 1967. Quando escutei Sunshine of your love, pirei por completo. Minha única dúvida era se tocaria guitarra ou contrabaixo. Eu não tinha QI suficiente pra tocar bateria (risos). Mas tem o outro lado da brincadeira. Meu pai falou pra mim: “Você quer ser tocar essas “musiquinhas” que tocam na rádio? Isso tudo é uma bosta, mas tudo bem. Se você quer ser músico mesmo, vai ter que aprender música clássica: leitura, disciplina, solfejo e técnica de verdade”. Tive a primeira aula. Eu não sabia tocar absolutamente NADA, não tinha QI para aquilo, mas eu queria. Fui progredindo aos poucos. Lentamente, o professor me ensinava: “Isso aqui é a corda 1. Você vai fazer 11, 12, 13 e 14/ 11, 12, 13, 14 e 15... Entendeu? Ótimo! A mão direita fica parada aqui. MUITO DEVAGAR, o cérebro não entende depressa. Entendeu? Legal! Isso aqui é um pentagrama, isso aqui é uma clave de Sol. Pra cima e pra baixo. Entendeu? Ótimo”. Foi assim no primeiro dia, no segundo, até que depois ele falou: “você vai comprar o primeiro livro do primeiro método de Tárrega”. Quem é Tárrega? Um puta de um violonista que padronizou o estudo do violão. Na hora, perguntei sobre o Dilermando Reis, já que meu pai o adorava. Lembro-me da resposta do professor: “Aprender a música dele demora muito tempo e depois de alguns anos você chegará à conclusão que é apenas bonito, mas não é absolutamente nada pra quem quer viver de música. Se você quer estudar violão clássico, estudaremos Bach, Albeniz, Tárrega e outros grandes compositores”. Eu só estudava, enlouqueci! Vida sexual? Apenas aos 23 anos. Meus amigos me chamavam para aquelas festas cheias de mulheres peladas, mas eu não ia, pois ficava tocando violão o dia inteiro. Por isso que aos 33 anos tive problemas, pois parecia que tinha catorze anos novamente. Fui para “guerra”, passei quatro anos numa orgia eterna (risos). Minha vida foi violão, violão e violão. Em um ano e meio estava tocando Vila-Lobos. Toquei Dilermano Reis pro meu pai, foi quando ele me comprou uma guitarra. Daí em diante, nunca mais toquei violão. Tocava guitarra o dia inteiro.

UM – Em 2006, você falou que não tinha mais saco para gravar material novo devido as suas variadas influências, tais como jazz cubano. Você ainda pensa assim?

AC – Ainda busco um tipo de música que aconteça espontaneamente, é o meu objetivo de vida. Acho pouco provável. Se eu tiver saco, encherem muito a minha paciência e tiver dinheiro envolvido, talvez. Eu gravaria um tipo de blues com a linguagem e acordes que eu toco atualmente. Acredito que eu não solaria, pois eu escuto um Wayne Shorter e me acho um tapado, ouço um Miles Davis e penso que sou um retardado mental. Os caras tocam num patamar há trinta anos que ninguém chegou perto. Não é virtuosismo! Pegue Juju do Wayne Shorter, um disco que escutava quando era moleque. To escutando novamente: porra, é feito apenas com melodia! No dia que eu fizer um show tocando apenas melodia, serei o cara mais feliz do mundo!!! Mas é muito difícil tocar de forma criativa, e é aquela parada: sou virginiano com ascendente em virgem, ou seja, sou o meu maior inimigo. Meu senso crítico é doentio. Não aguentarei escutar mais um disco que eu não queria ter gravado. Basta Catharsis (1996), que eu consigo escutar apenas quatro minutos. É difícil ir ao estúdio quando não se está tecnicamente pronto, quando todos os valores não são artísticos. Deve-se gravar por ser bom, tendo critério de avaliação. Acho o Mandinga (1989) decente. Adoro o Banzo (2002), mas ouço bem menos, é uma fase que ficou para trás. Durante muito tempo o A Touch of Glass (1990) foi o que eu mais gostava, pois era o que eu mais tocava. Esse disco foi composto baseado no filme Coração Satânico: durante vinte dias, ao chegar em casa, colocava o filme. Aqueles sons me ajudavam a focar na ideia musical que eu queria. Mas se eu pudesse mexer novamente nos canais, mudaria o timbre da bateria. É difícil, sou muito exigente.

Foto: Fernanda Melonio

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