segunda-feira, 12 de julho de 2010

Raul de Souza




Por Frederico Vreuls, colecionador e colaborador do Coluna Blues Rock


Rio das Ostras. Raul de Souza foi um dos representantes do casting brasileiro no último Rio das Ostras Jazz e Blues Festival. Com uma performance apaixonada e impecável, o trombonista e seu quarteto conseguiram impressionar todos os presentes

Uma análise em seu histórico revela que sua carreira foi construída em grande parte no exterior, tendo morado e excursionado durante muitos anos nos Estados Unidos e Europa. Porém, Raul nunca abriu mão de suas raízes e não se esquece onde tudo começou:

- Nasci no Rio de Janeiro, e meu envolvimento com a música veio da Igreja. Meu pai era pastor da Assembléia de Deus e tinha banda por lá. Lá, comecei a me desenvolver em instrumentos graves, como tuba e trombone.

Após alguns anos de pesquisa e estudo, realizou seus primeiros registros, e veio a ser uma das figuras participantes do então recém-nascido movimento da Bossa Nova:

- Em 1957, fiz uma gravação com Altamiro Carrilho, que fez o nome da Turma da Gafieira. Essa foi a primeira oportunidade para um músico que gosta de tocar (e bem) e de improvisar. Em 64, vim participar do Sergio Mendes Bossa Rio, que foi o início da Bossa Nova. Depois, decidi gravar meu primeiro disco solo, Raulzinho: a Vontade Mesmo, com César Camargo Mariano, Airto Moreira e Humberto Clayber.

Entretanto, o músico carioca revela que a denominação de Bossa Nova nunca foi de seu agrado:

- Tom Jobim não gostava do nome Bossa Nova, mas como foi registrada, ficou. Também não é do meu gosto, mas acharam que era bonitinho, então o nome pegou.

O seu próprio nome, aliás, que originalmente não é Raul, também pareceu sofrer uma mesma situação:

- Foi o Ary Barroso que mudou meu nome, no programa de calouros. Ele falou: “Você não tem cara de João José, e para trombonista não soa bem”. Então ele o mudou para Raulito, e mais tarde eu o mudei para Raulzinho. João José não caía bem para mim. É um nome bonito, religioso até, mas pra mim não deu certo.

Raulzinho deu certo mesmo. Com 75 anos, sendo 55 de carreira, continua na ativa até os dias de hoje. No decorrer dessa estrada, no entanto, o cenário musical sofreu enormes mudanças, o que faz com que, inclusive, saudosistas afirmem que “não se faz mais música como antigamente”.

- Acontece que a música mundial, que veio do jazz, teve um bom inicio, em 1930 até 50. Apareceram vários músicos americanos com ideias diferentes de improvisação, de criação melódica e melodias diferentes. E isso chegou no Brasil. Começou uma nova situação musical, mais moderna. Não todos, mas alguns músicos, principalmente os jovens da época, aderiram a essa concepção e aplicaram as harmonias. Logicamente você vai progredir, e nessa progressão vieram escalas diferentes, de onde vinham as melodias diferentes, tanto do samba como da Bossa Nova. Consequentemente, melhorou o nível de cultura musical e melódica. E agora os EUA estão nessa situação horrível. Todos os músicos que inventaram o jazz morreram. Ron Carter, por exemplo, é o único vivo. O que salva a música é o fato de lá, nos EUA, existiram muitos que participaram do desenvolvimento de um sistema novo, tanto harmonicamente como melodicamente e tecnicamente também. É por isso que existem escolas de música por lá, várias delas. Inclusive no Brasil, de uns anos para cá, com várias escolas de São Paulo e Rio de Janeiro. E a quantidade de jovens, bons músicos, é admirável. Isso me traz certa esperança. Como esse pessoal que está comigo na banda agora tem seus 35/40 anos minha música ganha ares mais novos. Para mim é tudo jovem.

E assim, Raul não parece dar sinais de que pretenda parar de fazer boa música, como bem sugere o título de seu último disco lançado, Bossa Eterna.

Um comentário:

A Trilha Sonora disse...

É impressionante como a boa música brasileira está escondida nos porões, ou dos navios que partem pro estrangeiro, como neste caso, ou nas casas de show mais modestas do país. Enquanto os subtalentos tomam contam de toda a grande mídia brasileira...

Abraços,
Robson Sales
www.atrilhasonora.com