terça-feira, 4 de maio de 2010

Kyuss - Welcome to Sky Valley (1994)


Por Frederico Vreuls

O álbum Welcome to Sky Valley, terceiro da banda californiana Kyuss, é considerado um marco não só do grupo como de todo o gênero stoner. Gênero este, aliás, capaz de abranger bandas bastante divergentes entre si, ainda que possuindo certas características em comum que as fazem ser assim definidas. Adentrando o universo stoner, nos deparamos com grupos que soam mais dinâmicos ou mais depressivos, chegando até cair para um lado doom. Podem possuir vocais limpos e melodiosos ou rasgados e distorcidos. Porém, o que sempre prevalece é a atmosfera árida que os timbres das guitarras e baixos proporcionam, impregnada das areias dos desertos. Basta comparar o próprio Kyuss, ou o Sleep, a outros como o Electric Wizards e Bongzilla para chegar a essa conclusão.

Como podemos notar, é um estilo que dá uma boa dose de liberdade aos músicos, deixando-os à vontade para enveredar à uma veia experimental em algumas composições. Realizam grandes viagens dentro destas enquanto fazem tudo à sua volta reverberar em resposta às ondas sonoras extremamente graves de seus instrumentos (encontramos muitas bandas que adotam uma afinação de até dois tons abaixo da usual).

Em geral, os únicos requisitos de que esses músicos necessitam são os que todas as pessoas criativas, que curtem muito peso e toques de psicodelia, naturalmente já teriam estando quando em posse de uma guitarra e um pedal de fuzz.

E esse é justamente o caso de Josh Homme, mentor do grupo, e seus companheiros, que, ao longo do disco, apresentam músicas espontâneas, que podem muito bem ter saído diretamente de uma jam session descontraída. É como se elas fossem voláteis, pudessem ir, voltar e assumir variadas formas, ao mesmo tempo em que continuam a ser as mesmas, mantendo sua identidade. E, assim, simplesmente tenha sido convencionada uma dessas formas para que pudessem registrar a música em um CD.

Talvez por esse fator ele seja composto por dez faixas condensadas em apenas três, o que pode parecer sem sentido e até ter desagradado a alguns, porém foi uma forma de incentivo encontrada para que seus ouvintes tentassem experimentar o álbum como uma obra completa, inteiriça e conectada. E de fato é interessante e válido se propor a realizar essa experiência, pensando em cada canção como consequência da outra, principalmente para a geração internet, que tem uma visão completamente diferente sobre a maneira de se consumir música.

Porém, não deixa de ser curiosa a decisão de optarem por esse formato, já que as suites não têm nem um título próprio, sendo apenas numeradas, ao contrário das seções individuais. Mesmo assim, posteriormente, Welcome to Sky Valley contou também com uma reedição onde elas aparecem separadas.

Logo de início temos Gardenia, música para se ouvir em volume alto, que faz você querer "bangear" sincronizado ao prato reto no ataque. A produção faz soar sujo, e esse é um elemento significativo para o conjunto da obra. Passada a parte mais violenta, entramos em uma "viajadona", cheia de groove, proporcionando sempre movimento, com direito até a uma seção um tanto jazzística. Cada instrumento na sua, um em sintonia com o outro, ao mesmo tempo que independentes, totalmente confortáveis e dando um show à parte.

Asteroid possui um bom tema, que é bem explorado, assim como toda a experimentação no som, que não ficou fora de contexto, juntando-se a todos os outros elementos a fim de criar um clima especifico. Depois ela acelera com um riff metal que nos envolve, para então se encerrar repentinamente, nos deixando em estado catatônico, nos perguntando o quê foi afinal que aconteceu nesse tempo todo.

Na sequência, as músicas Supa Scoopa And Mighty Scoop, com a cozinha sempre "cavalar", nunca deixando de ser notada, e 100º, para nos pôr para cima. Nesta última, ainda temos a impressão, ou talvez não seja apenas impressão, de que a banda brinca com você quando decide interromper a música no meio.

Space Cadet é acústica, e muito bem feita. O vocal é arrastado, soa como quem está sofrendo, melancólico e sozinho. Você se imagina como um verdadeiro andarilho, compartilha o sofrimento com o cantor e se identifica reclamando junto a ele: "waiting is hard, fuckin' takes so long". Apesar disso, ou talvez por isso mesmo, já que a tristeza tem o poder de construir verdadeiras obras de arte, ele consegue executar uma bela melodia com sua voz.

A sexta faixa, Demon Cleaner, é um dos destaques, e difere da anterior, sendo suja e barulhenta. A bateria é marcante, preenchida e empolgante. Garcia, porém, continua cantando da mesma forma, criando um contraste com o instrumental que produziu um resultado muito interessante. Ele consegue sempre soar insatisfeito com algo, não importando a interpretação que ele imprima à música, variando apenas horas em que permanece mais contido com outras em que realmente se revolta. A banda Tool, inclusive, gravou uma versão desta música que conseguiu captar bem o clima da original, e chegou a tocá-la algumas vezes ao vivo contando com a participação do baixista Scott Reeder.

Em Odyssey temos outro ótimo momento. Uma faixa vigorosa, que funcionaria muito bem ao vivo, e que a partir da metade, antes de retornar ao verso, dá uma quebra para um solo de guitarra com poucas notas e muito sustain, acompanhado de uma excelente base, novamente viajante e com groove.

No refrão de N.O., Garcia reafirma sua condição de errante dos desertos: "I live my life alone / Never going home / Just like they said / It's just a song to sing".

O CD chega então ao seu término com a longa e bem elaborada Whitewater. Após esta audição completa pode-se compreender o porquê da afirmativa da primeira frase deste texto. As guitarras ocupam um papel fundamental, e por muitas vezes se percebe a nítida influência do "pai de todos" Black Sabbath em seus primordios, só que com menos virtuosismo. São riffs simples, mas carregados, e não há um que desagrade, criando músicas que cativam, tendo-se tornado cults.

Essa é uma façanha para poucos, ainda mais levando-se em conta o fato de que Homme possuia apenas 21 anos na época, e Garcia 24, sendo que no primeiro álbum do Kyuss tinham 18 e 21 anos, respectivamente.

* John Garcia - Vocals
* Brant Bjork - Drums
* Josh Homme - Guitars
* Scott Reeder – Bass

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