quinta-feira, 13 de maio de 2010

Capas históricas - Técnica Solidão em Terrível Êxtase



Por Roberto Muñoz, escritor

Morto o espírito contracultural pelo marqueteiro evento denominado Woodstock, entrou o mundo nos virulentos anos 70 sob o signo de uma nova proposta. Irrompia no horizonte o Black Sabbath.

Alheia a palatáveis rádios enaltecedoras do massivo e do quantitativo, encontrou a banda também nas capas de seus discos um modo de expressar a obscuridade e o sombrio encarnados em seu pesado som. O sétimo álbum, Technical Ecstasy, porém, evidenciou uma nova faceta – a melancolia – talvez anunciando, mesmo que não-conscientemente, o fim de uma era, já que seria o penúltimo com Ozzy Osbourne. Reverberação crepuscular também ocorrida na capa devido à mudança de rumos.

A imagem apresenta um casal que literalmente relaciona-se entre subidas e descidas em funestas escadas rolantes representativas de um mundo não afeito ao âmbito emocional onde o toque faz-se necessário. Sendo um mundo artificial, nada mais coerente que evidenciar esta esdrúxula situação por meio de um êxtase técnico, pragmático e desprovido de comprometimentos. Fato verificável na frustração dos envolvidos – inteligente continuação do tema na contracapa – que perpetuam solitariamente seus destinos no escabroso espaço. Triste final num clima de post coitum cibernético impermeável à triunfante sensibilidade da vitória amorosa.

Grande mérito dos mentores da capa - o desenhista Richard Manning e o designer George Hardie - é a manutenção, dentro de um estilo construtivista pós Arte pop, da tradicional simbólica na diferenciação dos tipos, vide o Livro das Mutações, por exemplo, no qual aparece em exposição metafísica o princípio ativo, masculino, proveniente do céu e o princípio receptivo, feminino, derivado da terra. O robô masculino vem do alto, possui linhas retas, nitidamente marcadas, enquanto o robô feminino vem da base e mantém curvas e sinuosidades inatas a sua característica formal. É justamente tal articulação estética que permite o frescor do novo porque fundamentado no perene.

Apesar das geniais criações artísticas ainda existentes insinuarem frutíferas possibilidades, o homem insiste na atenção a periféricos temas. Como poderia ser diferente se o foco permanece na satisfação imediata, representada ontem pelo circo romano e substituída pelo delete existencial dos dias atuais?

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