sexta-feira, 28 de maio de 2010

Airto Moreira



Quando era apenas um bebê de poucos anos, Airto sempre “batia” no chão ao escutar o rádio. Sua avó logo percebeu que se tratava de um prodígio musical, já que seu neto estava, na verdade, acompanhando os hits. O garoto, que aprendera percussão mesmo antes de andar, destacou-se rapidamente na sua cidade, Curitiba. Ganhou todos os concursos de jovens talentos (até ser proibido de participar) e foi protagonista de um programa de rádio local. Aos 13 anos o “moleque” já era baterista e percussionista profissional. Sua cidade já era pequena, então aos 16 mudou-se para São Paulo em busca de novos desafios. E isso não demorou.

Após passar por algumas bandas, fundou o Sambalanço Trio em 64, ao lado de César Camargo Mariano (piano) e Humberto Clayber (contrabaixo e gaita de boca), e conduziu o grupo por dois anos. Entretanto, durante um dos shows da banda, sua vida mudaria por completo após conhecer a cantora Flora Purim, que viria a ser sua esposa e maior parceira musical: “Meu primeiro contato com a Flora foi através da música. Tocávamos na única casa de São Paulo que apresentava jazz e música brasileira moderna. A Flora chegou do Rio de Janeiro como cantora de jazz para fazer uma temporada de seis meses no clube. Foi assim que nós nos conhecemos. Para mim e a Flora essa temporada já levou 45 anos”.

Em 1966, o percussionista liderava o Trio Novo, que também contava com Heraldo do Monte (viola) e Theo de Barros (contrabaixo e violão). O trio acompanharia Geraldo Vandré e Jair Rodrigues durante o II Festival da Música Popular Brasileira, mas uma questão contratual impediu essa dupla aparição. A solução foi criar um novo trio com outra formação. Querendo uma identidade diferente ao grupo homônimo, Airto chamou seu amigo, o multiinstrumentista Hermeto Pascoal, com quem já tinha tocado no Sambrasa Trio. Assim surgiu o Quarteto Novo, uma das bandas mais importantes da música popular brasileira. “Foi uma das melhores experiências musicais que tive em toda minha vida. Era um conjunto que gostava de ensaiar, a única coisa é que os músicos costumavam chegar mais cedo em vez de mais tarde”. Gravaram apenas um disco, Quarteto Novo, que é peça fundamental em qualquer coleção, e logo depois se separaram.

Ao final dos anos 1960, o casal mudou-se para os EUA. Na terra do Tio Sam, Airto entrou em contato com a cena musical local e prontamente passou a tocar com grandes nomes, como os saxofonistas Paul Desmond e Cannonball Adderley. “Eu nunca toquei ao vivo com o Paul Desmond, apenas gravei. Mas era um músico de grande sensibilidade”, comentou. “Adderley era um músico incomparável e único e tinha o seu próprio som pessoal que era imitado por muitos. Ele gostava muito da Flora e de mim, pois tocávamos juntos muitas vezes em jam sessions. Foi ele que assinou nossos papéis de imigração”.

Além da ajuda burocrática, Adderley exerceria papel fundamental: apresentar Airto à Joe Zawinul (tecladista). “Toquei muito com ele quando era pianista do Cannonball Adderley. Ele foi um grande amigo, quando soube que Miles estava procurando um percussionista diferente para seu novo grupo, me indicou”. A partir daí, a carreira do brasileiro teria reverberação internacional.


O período com Miles Davis


Dizem que a primeira impressão é a que fica. Ainda bem que isso não aconteceu com Airto. Se dependesse do primeiro contato com Miles, o percussionista estaria “lascado”. Após desembarcar nos EUA pela primeira vez e sem falar inglês, pegou um táxi e foi para casa da Flora. Porém, sua companheira não estava. Coincidentemente, o compositor e arranjador Moacyr Santos morava no mesmo prédio e deu auxílio na chegada. Depois de baixar a adrenalina e tomar um café, Moacyr explicou que Flora tinha ido ver o trompetista com uma amiga, no Shelly Manne’s club. Como era perto, foi até lá a pé com o objetivo de encontrá-la e, quem sabe, ver o Miles.

Quando chegou ao local, não tinha segurança ou qualquer um que impedisse a entrada. Entrou “na cara dura”, mas a casa estava vazia. Não satisfeito, foi em direção ao camarim. Para sua surpresa, viu um negro lá, ninguém menos que o gênio em pessoa. A emoção era grande e logo bateu o nervosismo. Apesar de não falar o idioma, arriscou algumas palavras: “Miles! Me Brazil... Musician... Love!”. Com o jeito mal-humorado característico, Miles olhou durante alguns segundos e pediu que retirassem Airto da casa. Após essa frustração, nem os mais otimistas teriam esperanças em uma nova relação com o americano.

Eis que um ano mais tarde, após se firmar na cena jazzista local, recebeu um telefonema de Miles convidando-o para participar da gravação do Bitches Brew. Depois, o convidou para tocar com a banda no The Village Gate na noite seguinte. Seria a chance de ouro para Airto, mas naquela noite ele conheceria novamente o temperamento esquentado de Davis. O brasileiro fora até a casa de show sem levar seu material de percussão, para evitar uma situação forçada. O resultado? Esporro, e dos grandes: “Cadê as suas merdas? Você não trouxe suas merdas?”. Airto ainda tentou argumentar, mas ele continuou: “Cala a boca! Cai fora daqui! Você não pode ficar aqui”.

O abatimento foi imenso, mas Airto não estava disposto a desistir facilmente de seu grande sonho. Foi a sua casa, buscou alguns instrumentos e voltou ao concerto para a parte final. Ao retornar, aproximou-se de Jack DeJohnette e Dave Holland para tentar explicar a situação e pedir ajuda. Eles foram atenciosos e mostraram o lugar que o percussionista supostamente deveria estar. O último set começou e lá estava Airto mostrando a que veio. Tão perto de Miles, a todo o momento recebendo um olhar intimidador. Felizmente, deu tudo certo. Após tocar durante duas semanas com a banda em Washington, Airto Moreira foi convocado a integrar oficialmente o grupo.

Rapidamente, a critica aclamou a sonoridade inovadora que um tal brasileiro adicionara ao jazz elétrico de Davis. Por dois anos, Airto ficou ao lado dos músicos e do gênio que romperam os limites da música. Nessa ocasião, ainda participou do Isle of Wight Festival de 1970, uma das apresentações mais sensacionais da história da música. A banda subira ao palco com Miles (trompete), Chick Corea (sintetizador), Dave Holland (baixo elétrico), Jack DeJohnette (bateria), Keith Jarrett (teclado), Wayne Shorter e Airto Moreira (percussão), uma verdadeira constelação de músicos. “Nós (a banda que se apresentou em Isle of Wight) já tocávamos juntos há algum tempo; e mesmo que aquele evento tivesse mais de 600 mil pessoas, para nós era mais um concerto que estávamos tocando com o Miles Davis”.

Ao todo, Airto gravou onze álbuns ao lado de Miles. Dentre os mais relevantes: The Complete Bitches Brew Sessions, Spanish Key, Circle in the Round, Black Beauty Miles Davis at Fillmore West, Miles Davis at Fillmore, Get Up With It e Live Evil. O percussionista falou sobre esse último disco: “Live-Evil nunca foi uma apresentação, foi apenas um disco que o Miles Davis gravou, tendo esse a participação de Hermeto Pascoal. Aliás, o Hermeto estava nos EUA para gravar seu primeiro disco, no qual a Flora e eu produzimos”.

Parcerias, mais parceiras e o reconhecimento


Ainda integrando o Miles Davis Group, Airto participou e produziu o primeiro disco do Weather Report. “No Weather Report eu apenas gravei com eles e ajudei na produção do primeiro álbum que eles fizeram. Quando Joe Zawinul me perguntou se eu queria ser parte integrante do grupo, eu disse a ele que não podia sair do grupo do Miles Davis naquele período, pois o Miles precisava muito de mim. Então indiquei um grande amigo nosso, o Dom Um Romão”

Mais tarde, Flora e Airto fariam parte de outra banda de fusion, o Return to Forever. O casal permaneceu no grupo durante os dois primeiros álbuns, Return to Forever e Light as a Feather. Ao lado de Chick Corea, Stanley Clarke e Joe Farrel, o quinteto passaria a ser a grande referência do jazz-rock junto com o Mahavishnu Orchestra.

Airto também teve experiências mais voltadas para o rock. Além de ter gravado com diversos nomes, tais como Tommy Bolin (From The Archives Vol.1) e Smashing Pumpkins (Unplugged MTV), contribuiu em dois discos do Santana. “O Carlos Santana costumava a assistir a gente no Keystone Corner, em São Francisco. Um dia ele apareceu com um gravador. Como ele estava gravando para a Columbia, perguntou se queríamos dar uma chegadinha no estúdio depois do show. Nós fomos para lá e eles estavam no meio da gravação. Quando entramos, ele se levantou, nos deu um grande abraço e nos convidou para gravar com ele naquele momento. A partir daí, ficamos com ele até às cinco e meia da manhã e, depois, por mais dois dias. Flora gravou uma música para o disco Welcome (1973) chamada Yours is the light. Eu toquei percussão em algumas coisas e participei do disco Borboleta (1974), nas faixas Spring manifestations, Flor de canela e Borboletta. Essa gravação foi muito boa e também ficamos até às 5 horas da manhã trabalhando. Santana queria que eu fizesse parte da banda dele, então seu empresário me mandou para São Francisco a fim de termos uma reunião. Infelizmente não deu certo, pois ele queria datas que já estavam agendadas. Nos tornamos grandes amigos e, até hoje, sempre que Flora e eu tocamos em São Francisco, ele se junta a nós”.

Airto ainda participou de dois discos coroados com o Grammy: Planet Drum, projeto de percussão junto com Mickey Hart (ex-baterista do Grateful Dead), venceu na categoria de World Music e Dizzy Gillespie’s United Nations Orchestra na de melhor apresentação ao vivo de jazz.

Após ter gravado com tantos nomes de diferentes estilos musicais, fica uma pergunta no ar: qual o estilo favorito de Airto? Ele mesmo responde: “O jazz e o samba jazz são os dois estilos que gosto mais de tocar, principalmente na bateria, porque tocando este instrumento a gente tem mais controle e responsabilidade. Como baterista, participei de muitas gravações de jazz e um tipo de samba que tem uma harmonia que é mais própria para ser improvisada, por isso os músicos americanos a chamam de samba jazz”.

Seu trabalho, ao longo de mais de quarenta anos, rendeu justos prêmios e importantes nomeações. Desde 1973, foi eleito vinte vezes melhor percussionista pela conceituada revista Downbeat e por tantas outras, como Jazz Time, Modern Drummer e Jazzizz Magazine. E em 2002, Airto e Flora receberam alta condecoração do Governo brasileiro, A Ordem do Rio Branco, pelas contribuições que ambos deram no exterior.

O brasileiro ainda teve seu momento na educação. A UCLA o chamou para dar aulas no departamento de musicologia. “Eu recebi um email do diretor do departamento de musicologia da UCLA, me convidando para uma reunião com eles, pois estavam interessados que eu lecionasse lá sobre música brasileira e música criativa. Fui à reunião e me fizeram uma oferta de contrato. Achei a ideia de me relacionar com jovens músicos muito interessante. Então, trabalhei lá por dois anos e meio e depois que cumpri o meu contrato continuei minha vida”.

Airto Moreira provou que a música é universal, um linguajar único que une pessoas de diferentes culturas. Ele ainda deixa um recado a todos os jovens músicos: “Se você quer ser músico profissional um dia, toque todo o tipo de música e não feche o coração e a cabeça para um só tipo de música, pois mais tarde você encontrará realmente a música de sua predileção e aí então você pode se especializar nela. Toque sempre que puder com seus amigos em qualquer lugar: dentro de casa, em casa de espetáculos, numa praça, nas ruas, enfim, sempre que tiver oportunidade de tocar música, seja ela qual for, você deve ir. Se chegar uma oportunidade de aprender a ler e escrever música não deixe para depois, isto é muito importante, pois mais tarde nunca se arrependerá”.

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