segunda-feira, 26 de abril de 2010

O Futuro É Vortex (1986)



O punk, acima de tudo, é uma forma de protesto. Diferentemente do estilo Dylaniano, letras recheadas de críticas ao sistema aliadas à simplicidade musical característica ao folk, o punk usa o sarcasmo como principal ferramenta. Fugindo do arquétipo panfletário, que o rebaixou a mero contestador político-partidário, esse estilo teve suma importância social desde a sua primordial criação por bandas como MC5 e Stooges. A forma era simples: perturbar e cutucar o inimigo com vara curta à base de muito escárnio e fanfarronice. Passaram-se os anos e o estilo ganhou uma estética própria. O mundo se distraia com a Guerra Fria, mas a juventude estava mais interessada nos Ramones, Hüsker Dü, The Undertones ou Black Fag.

Apesar da década de oitenta ter sido, até então, a mais tranquila dos últimos trinta anos, a crise política (final da ditadura militar brasileira) e econômica (a famosa “década perdida”) tornavam a produção cultural brasileira um tanto esquizofrênica. Uma militância política parasitando as artes assolava e tirava toda a pureza das obras. Fosse um texto, uma encenação teatral ou musical, era necessário ter um elo político. O mercado da “produção cultural” viu que discursos e ideologias políticas vendiam bem, logo, bastava apenas "colocar trancinhas" para esconder o aspecto natural de Nosferatu. Evidentemente, isso também influenciou o punk.

Apesar do atraso de quase dez anos, o estilo chegou ao Brasil e de imediato consolidou uma das escolas mais significativas desse estilo. O movimento que começou em São Paulo, logo ganharia reconhecimento por todo o território nacional. Se por um lado havia bandas com fortes vínculos com órgãos políticos (PT, CUT, MST, entre outros), havia aqueles que, ainda, tentavam mostrar o quão frustrante é esperar algo via encenação política. Nesse contexto, Porto Alegre dava a luz aos Replicantes, em 1983.

A formação inicial, e considerada clássica, contava com Carlos Gerbase (bateria), Wander Wildner (vocal), Cláudio Heinz (guitarra) e Heron Heinz (baixo). Após gravar um Ep pelo selo Vortex com apenas quatro canções, Rock star, O futuro é vortex, Surfista calhorda e Nicotina – essas duas últimas tornando-se hits na rádio Ipanema - o grupo fez estrondoso sucesso na capital gaúcha.

O próximo passo seria um Lp. O trabalho trazia muita expectativa, pois seria a oportunidade da banda mostrar que tinha calos o suficiente para se consolidar na cena roqueira nacional. O Futuro É Vortex (RCA) chegou às prateleiras e, consigo, trouxe novos ares que oxigenaram o processo criativo e a própria concepção do indivíduo e do movimento “punk”.

O disco começa bem, A verdadeira corrida espacial fala sobre os rumos que a humanidade escolhe. Ao escutar essa faixa, temos uma certeza: os sortudos pegarão o primeiro vôo para fora deste planeta, enquanto que os fodidos permanecerão nesse caos rotineiro a espera do Juízo Final (e claro, nesse meio tempo, tomando ferro!). Boy do subterrâneo traz um dos maiores medos da Guerra Fria, a possível guerra nuclear. Meu amigo, também geógrafo, Francisco Antunes já chamara a minha atenção sobre a quantidade de bandas daquela época que exploravam esse tema.

Alguém já parou para pensar aonde e o que fazem atualmente os cretinos da censura? Por onde anda a pessoa do Governo Militar que selecionava e carimbava as obras permitidas? Censor é uma reflexão sobre a apatia cultural causada pela repressão. Como a dita liberdade garantiu menos uma produção cultural rica em qualidade do que apenas em quantidade, acredito que esse “trabalhador” continuou mandato após mandato e, hoje, deve ocupar algum cargo no Governo Lula. Ele mostra que se tem fidelidade apenas à quem assina o contracheque e que a palavra, e não o estado de coisa, “liberdade” foi apenas mais uma concessão do Estado. Teoria da conspiração? Foda-se, isso aqui é uma resenha de punk!

A agulha continua gritando em Ele quer ser punk e Hardcore, duas faixas curtas, entretanto bem diretas. O bom e velho rock’n’roll ressurgindo em uma terra onde ser roqueiro é ser “menos brasileiro”. Hippie-Punk-Rajneesh é uma das letras mais inteligentes do rock nacional e fala das diversas fases que um cara apaixonado passou ao longo da vida.

Motel de esquina e Mulher enrustida falam sobre mulheres. Na verdade, trazem letras bem lúcidas que representam tudo o que os homens sempre quiserem falar: apesar do nhe-nhe-nhé feminino, no fundo elas querem apenas sexo. Atualmente, tais composições seriam alvos do movimento feminista, resultando em ação judicial e ato público contra a banda.

A música homônima ao disco, O futuro é vortex, mantém a pegada das anteriores. Porque não é praticamente um “selo de qualidade punk”. Em pouco mais de um minuto, o quarteto, finalmente, fala a Verdade a respeito da música brasileira: “Agora eu sei qual é a deles. Já peguei no pé do Gil. Eu quero que o Caetano vá pra PUTA QUE O PARIU. (...) O Gismonti é um chato tô cansado de saber, o Chico era um velho mesmo antes de nascer. (...) O samba me da asma bossa nova é de fuder, prefiro tocar bronha e punkar até morrer”. Finalmente criou-se coragem para criticar os queridinhos da "intelectualidade" tupi repleta de brasilidades...

O melhor fica reservado para o final. Surfista calhorda é uma marca registrada dos Replicantes, um dos maiores sucessos. A moral dessa história de apenas três minutos e meio (a mais longa) é que sempre há um otário se achando o "rei da cocada preta". E por último, mas nem por isso a menos importante, Festa punk, um dos maiores hinos do punk tupiniquim. Impossível escutar e não se lembrar dos áureos tempos de “rodinhas”...

O Futuro... é um trabalho de importância ímpar para o rock nacional. Letras diretas, músicas curtas, o melhor da pegada punk e o mais ácido humor dão forma a essa obra seminal. Escutar e divulgar o começo de carreira dos Replicantes é um exercício necessário para manter vivo a maior criação do homem: o rock!

Um comentário:

Nanda Melonio disse...

Maravilha de resenha. Claro que é inevitável lembrar da nossa volta de Rio das Ostras! Beijos, Ugo!