sexta-feira, 26 de março de 2010

On the Corner – Miles Davis



Por Ricardo Seelig, editor do Blog Collector’s Room

Após dar o pontapé inicial do movimento fusion com os álbuns In A Silent Way (1969) e Bitches Brew, (1970), Miles Davis passou dois anos e meio testando novas sonoridades, adaptando seu som a novos estilos e caindo ainda mais de cabeça em novos ritmos e sons totalmente diferentes ao jazz. Suas perfomances ao vivo entre 1970-1972 eram verdadeiros laboratórios sonoros, onde Miles, muito bem acompanhado, inclusive contando com dois músicos brasileiros em sua banda, Airto Moreira e Hermeto Pascoal, criava verdadeiros petardos sonoros com essas misturas e experimentos.

Miles colocou o apelido de Albino Crazy em Hermeto, e gravou duas faixas de sua autoria, Igrejinha - rebatizada como Little Church - e Nem Um Talvez do ao vivo Live-Evil, de 1971.

Ao entrar em estúdio em junho de 1972, muito influenciado pela black music de Sly and The Family Stone, Funkadellic, Stevie Wonder e Isaac Hayes, Miles decidiu fugir da temática experimentalista de seu antecessor, Bitches Brew, e explorou uma sonoridade altamente dançante, negra e de alto impacto. Chamou (como sempre) um time impecável de músicos, entre eles Herbie Hancock, que também estava trilhando um caminho parecido ao unir o jazz à música negra (união essa que geraria outro marco do fusion, o álbum Head Hunters, lançado em 1973) e, após rápidas jam sessions, pariu um de seus melhores trabalhos, On the Corner.

Já na primeira música, a faixa-título, percebemos a intenção de Miles em imprimir ao jazz um caráter altamente rítmico. Nessa canção, altas doses de batidas africanas se misturam a solos de teclados, saxofones e trompete, criando a sensação de estarmos presenciando um ritual africano ou uma sessão de magia, tamanha a força musical que emana dos sulcos.

Black satin tem um ritmo altamente dançante, nitidamente inspirado em nomes como Sly Stone e Funkadelic, destacando-se aqui o ótimo baixo de Michael Henderson e as pitadas da guitarra de John McLaughlin. A ótima One and one nos brinda com uma primorosa performance de Jack Dejohnette na bateria e James Mtume na percussão, servindo base para os ótimos solos de Miles.

Helen Butte e Mr Freedom X, uma alusão ao líder negro Malcom X e ao grupo político Panteras Negras, realçam o caráter de Miles de explorar sonoridades negras em seu trabalho. Aqui, o funk, o blues, a música africana e o soul se alternam de forma eficiente e empolgante em mais de vinte minutos de duração.

Esse disco, ao ser lançado, foi impiedosamente massacrado pela crítica, que acusou Miles Davis de denegrir o jazz e na verdade ter feito um álbum apenas para ganhar dinheiro. Miles ignorou os comentários negativos e foi ainda mais extremo em suas misturas musicais, até se retirar temporariamente do cenário artístico em 1976.

On the Corner é mais um trabalho obrigatório desse gênio chamado Miles Dewey Davis III, um dos maiores músicos do século XX.

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