segunda-feira, 29 de março de 2010

Êxtases Sonoros



Por Frederico Vreuls

Miles Davis representa plenamente o significado de ser um artista. Desde seu modo livre de conceber as músicas, baseadas principalmente na improvisação, até o seu interesse e consequente atenção às novas formas de expressão musical e tendências, requisito fundamental para artistas diferenciados. E não basta apenas se interessar, mas aprender de fato com essas novas informações e com isso levar sua arte para um novo patamar. Foi dessa forma que Davis não só entrou para a história como um dos maiores músicos como conseguiu a façanha de ser considerado o pioneiro de importantes vertentes do jazz.

Acompanhando sua trajetória, percebemos nitidamente uma incorporação gradual e constante de novos elementos em sua música, agindo como um desbravador de áreas ainda não exploradas.

Começou com o bebop de Charlie Paker, na década de 40, e logo depois chamou a atenção ao ingressar no chamado cool, indo contra a corrente ao priorizar linhas mais longas, melódicas e simples em detrimento ao virtuosismo imperante. Lançou Kind of Blue em 1959, considerado talvez o mais influente disco de jazz. Totalmente improvisado, permitiu que Davis criasse uma forma totalmente pura de música, onde o papel do músico passou a ser extremamente valorizado, pela necessidade de acompanhar a banda em intrincados ritmos. Ao mesmo tempo, captava as diferentes texturas e climas existentes, para então exprimí-los com perfeição através de um incrível domínio de seu instrumento.

Não satisfeito, uma década depois começou a flertar com os instrumentos elétricos para então cair de cabeça no fusion e mudar a cara tanto do jazz como do rock, chegando ao auge do experimentalismo apresentando verdadeiras suítes musicais, girando em torno de vinte minutos, onde cria um legítimo laboratório sonoro, como em Bitches Brew de 1969. Ele não parou por aí. Incorporou, mais tarde, ao fusion elementos africanos e da world music em geral, como em On the Corner, de 1972. (ver texto abaixo)

Sua necessidade, quase palpável, de mudanças teve como grande aliado o contexto da época em que viveu. O final dos anos 60 trouxe consigo uma enorme revolução na maneira de se produzir e de se consumir música. O período marcou o surgimento de novas tecnologias, o auge do movimento pacifista e do LSD, permitindo a criação de sons antes inimagináveis e a ampliação do horizonte dos entusiastas da música. Isso favoreceu o surgimento de um número cada vez maior de bandas, fazendo a cena musical fervilhar de novidades. E, evidentemente, Davis não ficou atrás: trouxe um frescor para um estilo muitas vezes conhecido por seu distanciamento e conservadorismo. Isso foi refletido, inclusive, nas capas dos álbuns daquela fase, que deixaram de ter um visual sóbrio para estampar artes mais psicodélicas.

Davis se põe em lugar de destaque não apenas por ser pioneiro ou por passear entre diversos estilos, mas também por lançar os discos fundamentais destes, verdadeiros divisores d’águas. Tocando sempre com nomes que se já não o eram, viriam a se tornar consagrados, Davis sabia extrair da banda o que precisava para elevar seu som a uma nova etapa. E isso, sem romper, necessariamente, com o seu passado. Em cada novo passo, e antes de se permitir dar o próximo, vai a fundo e esgota todas as possibilidades oferecidas, sem nenhuma amarra ou medo de seguir em frente, a todo o momento se renovando, recriando e evoluindo.

Alguns podem alegar que o músico tenha se vendido ou se corrompido. Mas, alguém que, ao se apresentar em um dos maiores festivais da história frente a um público de cerca de 600.000 pessoas, executa um set improvisado de 38 minutos e deixa o público boquiaberto, só mostra o quanto é genial! Depois quando perguntado a respeito do título da canção, simplesmente responde ‘call it anything’. Isso só mostra que ele não precisava mais provar nada para ninguém.

Através de seu trompete, Miles caminhava elegantemente nas ondas da música. Em alguns momentos com delicadeza, sensibilidade e sutileza. Em outros, com selvageria e força, alternando momentos dinâmicos e introspectivos. O resultado era algo denso onde tudo se completava de maneira sublime para levar o ouvinte a verdadeiros êxtases sonoros.

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