quinta-feira, 18 de março de 2010

Baby Huey - The Baby Huey Story: The Living Legend (1971)


Por Ricardo Seelig, editor do Blog Collector's Room

A pequena Richmond, localizada no interior da Indiana, é uma daquelas típicas cidades norte-americanas onde o calor bate no asfalto e distorce a paisagem enquanto seus poucos habitantes assistem o passar dos dias sem maiores preocupações. Esse aspecto bucólico se conserva até hoje na cidadezinha, que, conforme o censo de 2000 realizado nos Estados Unidos, tinha pouco mais de 39 mil habitantes no começo do século XXI.

Imaginem então como era o cotidiano por aquelas bandas nos anos quarenta. Foi ali, no primeiro dia de 1944, que o pequeno James Ramey veio ao mundo. O garoto passou toda a sua infância e parte da adolescência em Richmond, mas sabia que a cidade era muito pequena para os seus sonhos. Aos dezenove anos resolveu ir de mala e cuia para Chicago, onde começou a frequentar os botecos e clubes da cidade, conquistando na cara dura o posto de vocalista em diversos grupos locais.

James sofria de um distúrbio glandular que o causava problemas crônicos de saúde, além de ser o responsável pelo seu avantajado porte, girando em torno de 160 kilos. Seu físico o levou a ser apelidado de Baby Huey, o mesmo nome de um popular personagem de quadrinhos da época.

Em 1963 Huey montou, ao lado dos amigos Melvin "Deacon" Jones (órgão e trompete) e Johnny Ross (guitarra) o grupo Baby Huey & The Babysitters. O conjunto rapidamente chamou a atenção, tanto pela grande - literalmente - presença de palco de Huey quanto pela repercussão dos singles "Messin´ with the Kid / Just Being Carefull", de 1964, e "Monkey Man / Beg Me", de 1965, que rolavam direto nas rádios e nos clubes direcionados aos negros, fazendo a cabeça da moçada black da época.

Na segunda metade da década, influenciados por todo o clima hippie que começava a dominar a América, o grupo passou a incorporar influências psicodélicas ao seu som, indo na cola de Sly & The Family Stone, que ditavam os caminhos que a música negra tomaria naqueles ricos anos. Baby Huey passou a usar uma grande cabeleira black - repare como ele se parece com o nosso Tim Maia - e a usar robes com motivos africanos, tornando-se uma espécie de guru para a cena local.

Ao mesmo tempo, os Babysitters tocavam sem parar, atraindo cada vez mais público para seu show contagiante, centrado na figura hipnótica de Baby Huey. Apesar do sucesso de suas apresentações, a banda não chegou a registrar nenhuma outra gravação além dos singles já citados.

Percebendo o potencial do conjunto, o manager Marv Heiman conseguiu agendar uma audição com Danny Hathaway, arranjador e produtor da Curtom Records. Hathaway ficou muito impressionado com a performance do grupo e o recomendou a Curtis Mayfield, diretor artístico do selo, que ficou vidrado na figura de Baby Huey. A dupla, percebendo que a força da banda estava em Baby, ofereceu um contrato para Huey gravar um álbum solo pela gravadora, colocando os Babysitters em segundo plano.

Baby, Melvin "Deacon" Jones e Johnny Ross, acompanhados por músicos residentes da Curtom Records, entraram então em estúdio e começaram a registrar as composições de Huey. Mas, amargurados pelo fato de terem sido relegados a um papel secundário pela gravadora, Jones e Ross logo abandonaram o barco, deixando todo o direcionamento musical do disco nas mãos de Baby Huey e Curtis Mayfield.

Ao mesmo tempo em que gravava o play, Baby acabou se viciando em heroína, fazendo com que seu peso chegasse próximo aos 200 kilos. Percebendo o estado de dependência do cantor, que começava a interferir na qualidade das suas sempre contagiantes apresentações ao vivo, com Baby faltando a diversos shows ou, quando aparecia, chegando muito atrasado para os concertos (olha a semelhança com o nosso Tim Maia outra vez ...), os músicos que o acompanhavam o convenceram a se internar em uma clínica de reabilitação no outono de 1970 (primavera no hemisfério norte).

Além de aumentar seu peso, o vício havia complicado ainda mais seus problemas de saúde, e, após um breve período limpo, Baby Huey acabou falecendo de ataque cardíaco no dia 28 de outubro de 1970, aos 26 anos. Seu corpo foi encontrado por volta do meio-dia por seu manager no banheiro do hotel onde o cantor estava hospedado. Em 01 de novembro, James "Baby Huey" Ramey foi enterrado em sua terra natal, Richmond, onde permanece até hoje.

O álbum em que Baby Huey estava trabalhando chegou às lojas apenas em 1971, após a sua morte. Produzido por Curtis Mayfield, The Baby Huey Story: The Living Legend é um testamento singular e definitivo do talento do cantor. Mesclando funk, psicodelia e rock, o disco é uma das pérolas perdidas dos anos setenta.

O álbum abre com a sacolejante "Listen to Me", com quase sete minutos de duração, onde Huey canta acompanhado por um esperto naipe de metais e criativas linhas vocais. O play segue com a instrumental "Mama Get Yourself Together", composta por Baby Huey, bem na linha de Sly & The Family Stone, um funkão de rachar o assoalho.

As coisas ficam mais calmas com "A Change is Going to Come", cover de Sam Cooke, uma baladaça soul com grande interpretação de Baby Huey, dono de um timbre vocal personalíssimo. As coisas voltam a ficar agitadas como "Mighty Mighty" e pegam fogo de vez com a sensacional "Hard Times" - ambas de autoria de Mayfield -, um proto rap com andamento copiado por inúmeros artistas de hip hop dos anos 80 e 90. Essa faixa é a prova irrefutável de quão à frente de seu tempo estava a cabeça de Baby Huey, pois ela continua atual. Impossível ficar parado!

A clássica "California Dreamin´" vem a seguir em uma sensacional releitura instrumental, com direito até a uma flauta doce. De cair o queixo! O nível segue lá em cima com a psicodélica "Running" - outra assinada por Curtis Mayfield -, com andamento marcial fundido a um funk repleto de energia. Outro momento alto do disco! O LP fecha com "One Dragon Two Dragon", também de autoria de Huey, faixa instrumental repleta de percussão e melodias arrepiantes.

Para os colecionadores, uma dica: antes do álbum chegar às lojas foram lançados dois singles. Em 1969 saiu "Mighty Mighty (Part I) / Mighty Mighty (Part II), e em 1970 "Listen to Me / Hard Times", ambos fora de catálogo a um bom tempo.

Produtores e artistas de rap e hip hop redescobriram o disco na década de oitenta, fazendo com que faixas como "Hard Times", "Listen to Me" e "Mighty Mighty" fossem frequentemente sampleadas em inúmeras gravações no período. Trechos de "Hard Times" podem ser percebidos em composições de Ice Cube ("The Birth"), A Tribed Called Quest ("Can I Kick It?"), Gosthface Killah ("Buck 50"), além de diversos outros artistas. Hoje, The Baby Huey Story: The Living Legend é apontado por estudiosos e críticos com um dos mais influentes discos daquele som que, décadas mais tarde, viria a ser batizado como rap e hip hop.

Para os completistas, a versão original do álbum, lançada pela Curtom em 1971, está avaliada em torno de 200 dólares, isso se você tiver a sorte de encontrar alguém disposto a se desfazer da sua. Existem duas versões em CD. A primeira, lançada pela gravadora inglesa Sequel em 1999, mas já fora de catálogo; e a segunda, pelo selo americano Water, em 2004, que pode ser encomendada facilmente em lojas com a Amazon.

Se você topar com qualquer um desses formatos pela frente, compre sem medo, pois estará adquirindo um dos melhores, mais importantes e influentes discos de black music já gravados.

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