quarta-feira, 11 de novembro de 2009

“Esse disco mudou a minha vida” #2 - Alexandre Coelho


War, de 1983, é o terceiro disco da carreira do U2 e o responsável por alçar a banda ao estrelato. Antes dele, Boy (1980) e October (1981) tinham repercutido apenas razoavelmente e emplacado os singles I will follow e Gloria, respectivamente. Mas demoraria ainda algum tempo até eu me render ao som do quarteto irlandês.

Tal fato aconteceu em 1987, quando eu era um adolescente inquieto de 14 anos. Andava com amigos mais velhos, de 22, 23 anos de idade, e um deles, percebendo minha inclinação para a tríade sexo-drogas-e-rock’n’roll, um dia apareceu com o War para me emprestar. Em vinil, é claro. Achei arrebatadora já a capa, com uma foto estupenda em preto-e-branco de uma criança linda, e o título do álbum e o nome da banda em vermelho. Um contraste genial para simbolizar esteticamente uma guerra. (Tempos depois, Steven Spielberg usaria artifício semelhante em A lista de Schindler).

Já em casa, iniciei o ritual (que as novas gerações desconhecem). Abri cuidadosamente o álbum de capa dupla, apreciando as bonitas imagens em tamanho generoso, senti o cheiro do encarte, retirei o vinil da capa e depois do plástico que o embalava. Pousei a bolacha sobre o prato do aparelho de som, liguei o equipamento e conduzi o braço com a agulha até o início da primeira faixa do lado A.

A levada marcial de Larry Mullen Jr. anunciava Sunday bloody sunday. Um violino cortava as notas iniciais da bateria até que a introdução dedilhada da guitarra de The Edge me atingiu de uma maneira única até então. E assim foi durante toda a música. A interpretação entre rebelde e angustiada de Bono Vox, as vozes sobrepostas, a guitarra dedilhada, as texturas, tudo junto, ao mesmo tempo, em uma viagem onírica e de uma beleza rara. “I can’t believe the news today... I can’t close my eyes and make it go away... How long, how long must we sing this song?”.

Naquele momento, foi como se uma luz descesse do céu e me mostrasse o caminho. Pensei: “É isso o que eu quero fazer da vida”. Menos de um ano depois me tornei músico. (Mudou ou não mudou a minha vida? Rs).

Seconds confirmava a melancolia do álbum, carga dramática que o tornava ainda mais denso: “It takes a seconds to say goodbye”, dizia a letra. Era apenas o prenúncio de outro clássico, New year’s day. O hino abria com toda a banda: a cozinha consistente de Larry e Adam Clayton pulsando, dando sustentação a um piano executado de maneira simples e magistral por The Edge. Tudo isso potencializado pelo grito desesperado de Bono Vox. Era o rock dos anos 80 em sua (nostálgica) essência. “...Nothing changes on new year’s day... I will be with you again”.

Like a song, quarta música do disco, era outro petardo. Forte, agressiva, costurada por mais um dedilhado lírico de The Edge e uma letra pacifista, elemento característico da banda e argumento irresistível para um adolescente que cresceu em meio à Guerra Fria e sob uma ditadura militar. Drowning man, última do lado A, mantinha a beleza (e a tristeza) do álbum de forma contundente, trazendo de volta os etéreos arranjos de cordas e sobreposições de vozes.

No lado B, enquanto a percussiva The refugee escapava ao conceito do álbum e permitia que o ouvinte respirasse e se recompusesse, Two bearts beats as one fazia a ponte entre o U2 dos primeiros discos e o trabalho seguinte, The unforgetable fire (1984). Surrender, outro exemplar de uma das melhores safras da banda, era quase uma despedida, preparando o espírito para o fim, a dolorida 40, lamento irlandês cantado em uníssono pelo público nos shows do grupo ainda hoje, quase três décadas depois. Naquele mesmo ano de 1987, o U2 lançou The Joshua Tree, outro álbum antológico, com pepitas do quilate de Where the streets have no name, I still haven’t found what I’m looking for e With or without you. O disco passou a figurar como o favorito para muitos fãs do quarteto. Minha vida, contudo, já havia mudado com War.

Por Alexandre Coelho, chefe de redação da revista Backstage

Um comentário:

Érika dos Anjos disse...

Uma viagem no tempo com direito ao falecido lado A e lado B. Genial!

Bjs