segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Entrevista André Christovam


Ugo Medeiros – Você já está na estrada há mais de 25 anos. Você se considera um dos precursores do blues no Brasil?

André Christóvam – Para ser mais exato, 31 anos. Eu não me lembro de muita gente fazendo exatamente blues; lembro, sim, de pessoas usando elementos do blues de forma bem tocada. Lembro do Antonio Zannah, que cantava e tocava gaita e guitarra, e da Rosa Maria, cantando uma música gospel, mas também com elementos blues. O primeiro brasileiro que vi tocar bem guitarra, foi o Cândido Serra, inclusive tive aula com ele no CLAM (Centro Livre de Aprendizagem Musical). Meu contemporâneo, tem o Celso Blues Boy, que entrou em carreira solo antes de mim. Ele tocava com o Sá e Guarabira, onde ganhou o apelido “Blues Boy”. Os primeiros discos deles são todos voltados para o rock’n’roll, com uma guitarra nervosa e blueseira. Nesta altura, por volta de 1976, eu já estava com o Ficke Picke (banda de rock antes da carreira solo) e bem envolvido com o blues. Quando fui para os EUA, final de 81/começo de 82, ficou claro que eu queria, realmente, me dedicar ao blues.

UM – Como foi o seu primeiro contato com a guitarra?

AC – O meu primeiro instrumento foi o violão clássico. Fiz 3 anos de violão clássico, mas sempre querendo uma guitarra. Meu primeiro contato com a guitarra deu-se em 75, quando já tocava há mais ou menos uns 3 anos. Ganhei uma Gianini Stratosonic e alguns meses depois comprei uma Fender Stratocaster. Finalmente, após alguns meses, consegui uma Les Paul. Esta era, de fato, a guitarra que queria para fazer um som parecido com o que o Clapton fazia no Bluesbreakers e o Jeff Beck no Truth. Ao mesmo tempo, como gostava muito de guitarra além de blues, queria o material que o McLaughlin e o Page usavam. Gostava do Cream e do Mahavishnu; gostava de música tocada com grande eloquência e habilidade de navegação meio a improvisação. Estas duas bandas tinham muito disso.

UM – O Eric Clapton é o seu grande ídolo?

AC – Sem dúvida. Ele foi o meu road model, porém eu não tenho nenhuma semelhança sonora com ele. O que busco dele, que mais acho genial, é a habilidade de transitar sobre o tempo, tem um senso de colocação e de fraseado. O timing dele é um dos mais perfeitos, e isso desde os tempos de Cream.

UM – Pode-se dizer que o rock te levou ao blues?

AC - Com certeza, assim como a grande maioria dos brancos no planeta. Com excessão do Michael Bloomfield, todos começaram no rock’n’roll. Não, me engano. O Michael começou por causa do Elvis, então, não, ninguém que eu me lembre (risos).

UM – Poucos sabem, mas você estudou música num instituto, na Califórnia. Você acha que os músicos, hoje em dia, têm preguiça em aprender a técnica?

AC - Às vezes sim. Na época, meu desejo em ser músico era tão grande que para eu ter a guitarra, tive que aprender violão clássico. A fim de me aprofundar, fiz regência durante 3 anos na Faculdade Paulista de Arte e já tinha quase 4 anos de CLAM. Depois fui para os EUA me formar em instrumento. Na época que fiz o DIT, era o primeiro ano da escola como Musician Institute: o primeiro semestre era de percussão e o segundo de contra-baixo. Portanto, o treinamento era muito forte para que nos transformássemos em músico de estúdio, que era o mais simbólico da época. Os nomes da moda no mundo da guitarra, no início da década de 80 eram Robben Ford, Larry carlton, entre outros, mais até do que o Van Halen, que tinha um apelo popular maior. Para ser músico de estúdio era necessário uma preparação: leitura, conhecimento de vários estilos e harmonia. É muito importante a pessoa se dedicar ao instrumento como um todo, ter uma técnica clara para poder executar as idéias sem dificuldades. Assim, a transição entre aquilo que nos inspira e aquilo que executamos é mais rápida.

UM – Quando você sentiu que era hora de partir para a carreira solo?

AC – Eu tinha um trio chamado Fickle Pickle, no qual trabelhei por 17 anos, e foi o amor da minha vida. Nunca quis ter carreira solo. Mas eles eram tão irresponsáveis em relação a horário, que eu passei a tocar sozinho. Descobri alguns lugares menores que aceitavam apresentação apenas com um violão e passei a expandir meu repertório de Delta Blues. Ao mesmo tempo, aparece o cd na indústria fonográfica e entro em contato com Charly Patton, Blind Willie McTell e Blind Willie Johnson. O preparo que tive antes me proporcionou uma interpretação bastante sadia desse tipo de música. Uma coisa foi levando a outra. Quando estava tocando solo no Espaço Off, o João Larda da Eldorado estava presente. Após o show me ofereceu um contrato. Foi quando virei o André Christovam.

UM – Como foi a gravação do The 2120 Sessions?

AC – Fui fazer uma turnê americana que terminava em Chicago, na festa de lançamento póstumo do disco do Stevie Ray Vaughan com o Jimmy Vaughan, no Legend’s. O Stevie já havia morrido; conheci o Jimmy um ano antes. O Buddy Guy (dono da casa) deu uma festa muito grande pois adorava os dois. Ele queria que eu tivesse um bom público, por isso escolheu aquela noite para eu tocar. Estavam vários dos grandes nomes do blues, entre eles, o B.B. Oddon. Ele gostou do que estava ouvindo e subiu para dar uma canja. Aproximadamente 11 meses depois voltei a Chicago e gravamos o “2120” em um sábado e um domingo, na Chess Records. Na realidade, passei uma semana gravando os violões e fazendo as experimentações, porém a parte de banda foi gravada durante esses dois dias. A minha foi a última gravação de blues pela gravadora. Após uns 6 ou 8 meses, a Chess encerraria suas atividades como gravadora e seria tombada pelo patrimônio histórico.

UM - Você já gravou Delta blues, Chicago, blues-rock, blues com musicalidades brasileiras, etc. Como você se definiria neste momento? É importante um bluesman ter um estilo específico ou é melhor ter variações musicais?

AC – Como um traidor do movimento (risos)! Hoje em dia minha música tem muito mais Ildo Lobo e música brasileira do que músico americano. Atualmente, meu blues é mais influenciado por grandes harmonizadores do que qualquer outro grande guitarrista, como B.B King, Albert King e Freddie King. É claro, estudei vários músicos, desta forma a musicalidades deles aparecem direta ou indiretamente. A “mistureba” que eu faço é devido a minha condição de brasileiro: a forma que eu uso a corda e a harmonia é de um músico que nasceu e cresceu ouvindo música brasileira. Os acentos rítmicos e o tipo de acorde são elementos que têm relação com a nossa cultura. É de quem ouviu Hermeto Pascoal e Grupo Um, e estudou com Hamilton Godoi. Todos eles foram muito importantes para a forma em que enxergo música hoje. Porém, às vezes, temos encontros inusitados no meio do improviso e toco pensando em Mick Taylor, na época do Bluesbreakers, e o caminho harmônico me leva a Herbie Hancock ou Monty Alexander. Gosto de tocar de forma autêntica com músicos que gostam de tocar de forma autêntica; gosto de experimentar e tocar livremente com pessoas que têm competência e técnica o suficiente para se entregar a este tipo de aventura.

UM – O blues americano é bem diferente do blues inglês. Como você faz esta distinção? Qual foi o mais importante para a sua formação?

AC – O inglês foi mais importante porém, o americano é a fonte. As deficiências técnicas da Inglaterra fizeram com que eles criassem aquele som. O que me levou à guitarra foi o blues ingês. Jamais teria me tornado músico se tivesse ouvido um disco do B.B King. Se não fosse pelo Cream, dificilmente teria me interessado pela guitarra.

UM – É possível dizer que você atingiu a sua maturidade com o Banzo, disco no qual já tem musicalidade brasileiras no repertório?

AC – Foi o primeiro disco que fiz, todos os outros foram testes. Eu gosto muito do Mandinga e do A touch of glass. Cada disco é um cartão postal que reflete e representa a imagem e uma perspectiva da época. Se eu gravasse um cd hoje em dia seria completamente diferente de tudo que já gravei antes. A mistura de influências é tão marcante que acabaria por excluir muita coisa para gravar um blues mais tradicional. Até mesmo para fazer uma continuação do “Banzo”, teria que podar uma série facetas da música que eu ouço. Isto não é o meu desejo.

UM – Em 96 você foi chamado para tocar na banda do Santana, no primeiro show de São Paulo. Como foi?

AC - Eu não lembro de nada, apenas que eu estava com uma roupa preta. As coisas que eu sei, me contaram. Foi uma emoção muito grande. Não é o Santana apenas; é sim o que está em torno dele que o faz ter aquela força. Ele tem uma energia muito forte, suga toda a sua energia. Mas, ao mesmo tempo, deixa à sua disposição Chester Thompson, Raul Recow e Armando Peraza. Quando você toca com as congas do Raul e com aquele tipo de harmonia do Chester, o céu abre. É impressionante, uma força sobrenatural.

UM – Você é um bluesman conhecido nos EUA, mais até do que aqui, infelizmente. O bluesman brasileiro começa a ser visto de outra forma no exterior?

AC – Bem melhor que o músico de rock brasileiro. Existem 4 ou 5 músicos de rock brasileiro que são levados a sério pelos rockeiros americanos, enquanto há um número maior de músicos de blues com um respaldo interessante. O Flávio Guimarães e o Nuno Mindelis são muito queridos lá fora. O Igor Prado começa a ganhar respeito. Não importa a cor ou nacionalidade para o blues. Se você falar, acaba sendo aceito. Sem dúvida, o pessoal do blues está melhor que o do rock.


Foto: João Marcelo Dias

3 comentários:

Cadão disse...

Ótima entrevista Ugo. Parabéns.

Cadão disse...

Indicamos o seu blog para o Prêmio Selo Dardos de Reconhecimento.

Para maiores informações, acesse o link abaixo:

http://collectorsroom.blogspot.com/2009/02/premio-selo-dardos-de-reconhecimento.html

Abraço, e continue com o excelente trabalho.

Isa disse...

Conheço esse cara...
Muito bom!