segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Ainda há deuses do rock?


Fazia meu programa favorito, buscar minhas encomendas (leia-se CDs) e discutir futebol na Satisfaction, quando escutei um amigo beatlemaníaco falar sobre os podres do quarteto que eram abafados pelo fiel empresário Brian Epstein (e acatados pelos jornalistas). Atentamente, ouvia as estórias de Lennon e companhia. Peguei meus “brinquedinhos” e tomei o meu caminho.

Semana passada, entrevistando uma banda suíça da nova geração, Underschool Element, aquele assunto sobre os Fab Four voltou à minha cabeça. O grupo suíço, que faz um rock com influências de Red Hot Chili Peppers, Rage Against the Machine e System of a Down, me fez perguntar se ainda há espaço para bandas que se julgam maiores do que o púbico e/ou a imprensa. Vocês vão entender da onde veio esse link de quase quarenta anos de diferença.

Antes de ir ao show, no Rio Rock & Blues Club (Lapa-RJ), escutei algumas músicas do primeiro álbum, Rien de Plus (Saiko Records), e do novo, Tango (Saiko Records), na íntegra. Sinceramente, achei a banda fraca, com elementos batidos e sem inovações relevantes. Porém, assistindo ao espetáculo vi que tinha pontos positivos, tais como a boa mistura com jazz na canção Real stinky, a simpatia para com o público e o excelente baixista, Romain.

Terminado o show, enquanto eles atendiam os fãs, eu conversava com os meus amigos sobre o evento. Foi um consenso de que a apresentação fora divertida, apesar da banda não primar por exímia técnica e genialidade.

É chegada a hora do batepapo. Perguntei sobre as influências, sobre a crítica européia, a receptividade brasileira, entre outras coisas. Tudo ia bem até que um deles perguntou se eu poderia mandar a matéria para aprovação. Fiquei sem reação. Falei que mandaria a matéria, mas não me comprometi quanto à teórica censura.

Furioso com o papelão dos suíços, fui para casa. Mais calmo, refleti sobre tal atitude na atual conjuntura de crise do mercado fonográfico. Muitos se perguntam sobre o futuro do CD. Incertezas à parte há uma certeza: o papel do músico mudou.

Antigamente, grupos como Led Zeppelin podiam tratar mal o seu público e a imprensa, já que ainda havia um fetiche pelo rock star (Deus abençoe Lester Bangs!). Mas, felizmente para uns, infelizmente para outros, os tempos mudaram. Um artista que não seja simpático com o público ou que cometa gafes com o mídia people pode considerar-se acabado.

Em pouco mais de dois anos atuando no jornalismo musical, exemplos não faltam. O histórico John Mayall foi um que aprendeu. Antes do tête-à-tête com o coroa, alertaram-me sobre seu característico mau-humor. Fiz as perguntas esperando respostas ríspida. Ledo engano. Foi de grande atenção comigo e com os outros companheiros. Sem falar que, faltando meia-hora para a apresentação, Mayall estava vendendo seu material no meio da multidão e até dando conselhos. Será que ele repensou sua vida? Porra nenhuma. Ele se tocou, por bem ou por mal, que a indústria cultural cria e exclui facilmente artistas (haja vista a imensidão de inúteis que estão nesse meio). Percebeu que para continuar sua importante trajetória teria que se adequar às novas regras do jogo.

Se eu guardo mágoas do Underschool? Não. Se acho que eles vão durar muito mais tempo nesse meio selvagem chamado mercado fonográfico? Também não.

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5 comentários:

fabiopires disse...

Ótima matéria Ugo.Concordo plenamente com você: os artistas vão 'baixar a bola' aospoucos eperceber que ter atitudes de desdem com público e mídia é um risco.O dinheiro está escasseando, não é ??Pois bem, citou-se Mayall vendendo seus 'produtos', quem diria !!???Sinal dos tempos...

anamaria disse...

Essa matéria é filosófica, Ugo. É uma observação que tenho feito já há um tempo. As pessoas não podem contar só com seu talento. Se ganhar a antipatia do "cliente", perdeu. Bjs.
Você tem talento, sobrinho.

André J.B. Rodrigues disse...

Boa a matéria.

Eu já vi eles tocarem no Rio Rock & Blues Club, mas nesse dia foram apenas 2 ou 3 músicas... uma "canja". E sinceramente achei a banda fraca demais!!!

Ugo Medeiros disse...

Independente de ser fraca ou excelente, uma banda, sobretudo uma que inicia a carreira, não pode se achar acima do sistema. A arrogância já destruiu muita carreira...

André J.B. Rodrigues disse...

Ah, sim com certeza. O que eu quiz dizer é que além da arrogância, ainda são fracos. :-)