segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

O black power de Jimi Hendrix


Sabe aqueles cometas que passam rapidamente à noite e apenas poucos sortudos têm o privilégio de ver? O mundo da música também tem casos semelhantes. O Band of Gypsys, liderado por Jimi Hendrix, foi um power trio que passou pelo nosso planeta e, infelizmente, não voltará mais. Durou apenas quatro apresentações, duas no dia 31 de dezembro de 1969 e duas dia 1º de janeiro de 1970, mas fez história no rock.

Apesar da banda se reunir em meados de 69, tudo começou antes mesmo do sucesso de Hendrix. Dois anos antes de deixar os ingleses malucos com seu estilo único e os americanos alucinados com uma performance literalmente incendiária no Monterey Pop Festival, Jimi assinara um contrato em 1965 com a Capitol em que o guitarrista seria obrigado a gravar um disco pelo selo.

Porém, o The Jimi Hendrix Experience, que contava com Mitch Mitchell (bateria) e Noel Redding (baixo), acabara em junho de 69. Juntos desde 66, o trio havia gravado três clássicos do rock, Axis bold as Love, Are you experience? e Electric Ladyland. Sem banda, Jimi viu-se com um grande problema judicial. Depois de muita negociação com a Capitol, encontrou uma solução: gravar o disco ao vivo. Para esta missão, convocou dois amigos de longa data: Buddy Miles e Billy Cox.

Buddy era um baterista com bastante swing, que inclusive já havia tocado com Wilson Pickett (nome de peso do soul). Miles conheceu Jimi durante o festival de Monterey, quando ainda era integrante do Electric Flag, e logo tornaram-se amigos. Além de participar de duas faixas do Electric Ladyland (Rainy day, Dream away e Still raining, still dreaming), teve o segundo disco de sua banda solo, Buddy Miles Express, produzido por Hendrix.

Billy era companheiro desde os tempos de exército (Jimi serviu por quase um ano, mas fora dispensado por fraturar o tornozelo), já que os dois tocavam em uma banda formada por colegas militares. Na verdade, o baixista tocava com Jimi desde a saída de Noel Redding e participou de Woodstock em agosto de 69.

Entretanto, o que seria apenas uma simples gravação tomou proporções inimagináveis. Apesar do entrosamento que os três tinham, eles ficaram alguns meses ensaiando arduamente nos estúdios. Sessão após sessão, nota após nota, havia algo de diferente. Uma mudança estava por vir, todos sentiam isso.

Diferentemente do Experience, que foi montado pelo produtor Chas Chandler, o Band of Gypsys contava com músicos que já se conheciam e que tinham influências diferentes. Enquanto Mitchell tinha uma pegada de jazz e Redding era um guitarrista de rock convertido ao baixo, Buddy era um negro experiente na black music, assim como Billy Cox. Dessa forma, a música de Hendrix expandiria seus horizontes e atingiria um novo público.

A década estava prestes a acabar, mas as contestações sociais e raciais não ficariam para trás. O movimento negro estava no auge com grupos como o Black Power e o Panteras Negras. Os participantes eram de uma ala extremamente radical, e negavam quase tudo proveniente da cultura branca. Assim, apesar de reconhecerem Jimi Hendrix como o grande guitarrista daquela época, não tinham afinidade com sua música, um rock psicodélico com influências do POP britânico (som tipicamente de branco). Até então, o público negro nos shows de Hendrix era quase nulo.

Porém, os rumores da nova banda de Jimi Hendrix, all black band (todos os integrantes negros), causou grande euforia na comunidade negra de Nova Iorque. Assim, os ingressos para os quatro concertos no Filmore East se esgotaram e, pela primeira vez, o público negro estava em grande número.

A explosão de ritmos e swing era algo inédito, um rock peculiar. Os shows de revellion foram uma mostra de que a genialidade de Hendrix era praticamente infinita. O Band of Gypsys foi a oportunidade de Jimi mostrar suas raízes de rock’n’roll (Little Richards) e soul (Isley Brothers). Na verdade, seu objetivo não era fazer música PARA negros e sim para negros TAMBÉM.

O disco é uma pérola e um item necessário aos que se dizem amantes da música. Who knows é a síntese perfeita entre rock e soul. A guitarra de Hendrix com bastante wha wha alternando com o vocal primoroso de Buddy Miles e com o ritmo incessante de Billy Cox. Machine gun mostra toda a insatisfação contra a guerra do Vietnã e de brinde nos presenteia com um dos efeitos de guitarra mais geniais, simulando tiros de metralhadora e explosões de bomba. Them changes, composição de Miles, é um rock com bastante força. Power of love tem um solo matador logo de cara e mostra o som pesado que ela irá seguir. Message of love tem um dos vocais mais lindos de todos os tempos. We gotta live together, também de Buddy Miles, é a mais fraca do disco, mas nem por isso, é ruim. A cozinha mostra grande entrosamento de forma a fazer todos balançarem o esqueleto.

O Band of Gypsys é a prova que Deus escreve certo por linhas tortas. O que seria apenas uma gravação contratual tornou-se um disco sagrado e elevou Jimi Hendrix a herói de todos, independentemente de raça ou classe social.

Com a palavra, Otávio Rocha (guitarrista do Blues Etílicos):

“O disco que marcou minha vida foi o que ele gravou ao vivo e também está disponível em DVD, o Band of Gypsys. A formação com Billy Cox no baixo e Buddy Miles na bateria representa o blues como deve ser tocado: levadas de soul music, meio funk, um som compacto. É o disco que até hoje não canso de ouvir. Buddy Miles é perfeito. Hendrix dobrando a linha de base junto com Billy Cox é uma maestria. Recomendo sempre este disco, uma aula de ritmo. Tudo maravilhoso.”

5 comentários:

fabiopires disse...

Matéria bem interessante essa Ugo.Eu vou, logo que possível, comprar esse álbum do Hendrix.Lendo suas palavras esclarecedoras medeixam mais curioso ainda por esse trabalho...

Ugo Medeiros disse...

Pra mim, esse foi o trabalho mais maduro do Jimi...

Daniel disse...

os discos de estudio do hendrix, tem algo de misterioso... ele eh o mago do estudio... ele faz overdubs incriveis e tem uma clareza na organizacao da instrumentacao que sempre me deixa em duvida de como ele faz aquilo... qual guitarra ele gravava primeiro?... qual era depois?... ele grava o baixo junto com a bateria? ele grava primeiro a bateria? ele grava ao vivo(musicas como voodoo chile obviamente sao ao vivo)... como ele faz aqueles overdubs soarem espontaneos? enfim... ouvir herndrix no estudio eh sempre abrir a porta a um monte de duvidas, e por isso sempre achei a coisa do estudio incrivel, mas a band of gypsys eh bizarro... eh realmente mto maduro.. assim como o disco logo depois, cry of love com o billy cox e o mitch mitchel... eu acho que com a band of gypsys, ele consegue algo incrivel, que eh juntar essa organizacao e limpeza dos discos de estudio com a profundidade e espontaniedade de suas performances ao vivo... coisa que ele nunca tinha feito anteriormente com tanta competencia... a banda esta mto bem ensaiada e muito limpa... nao ha mtos erros como em woodstock(o que pra mim nao compromete em nada a performance, apenas, agrega o valor da espontaniedade e do sentimento a esse show)...eu acho que o nivel de profundidade desse disco eh absurdo... machine gun eh mto forte... enfim... esse disco tem que ouvir... e tem que ouvir ate o fim da vida... ha alguns anos, que eu nao passo 1 mes sem ouvir isso... eh sempre diferente a experiencia... valeu mesmo pela materia... mandou mto bem de escrever sobre isso... recomendo aos que se interessarem, procurar o documentario(tem no youtube dividido em partes) sobre essa banda... tem depoimentos do billy cox e do buddy miles... agora, pra encerrar: alguem sabe explicar direito qual o motivo real da saida do buddy miles? ele fica emocionado ate hj em falar sobre isso, mas eu nunca vi ele abrindo o jogo...

eh isso..
valeu ugo

daniel romano

Daniel disse...

ah so mais uma coisa... eu escrevi errado mais de uma vez, mas aproveito pra me corrigir: ESPONTANEIDADE e nao espontaniedade

Ugo Medeiros disse...

Valeu Daniel!

Cara, dizem que foi coisa de empresário. Ele (buddy) nunca abriu o jogo. Logo depois que o Jimi deu o pé na bunda, foi para a Inglaterra. De fato, essa saída foi meio bizarra... Se alguém souber, por favor, compartilhe aqui!