quarta-feira, 15 de outubro de 2008

John Mayall & Eric Clapton, uma parceria que mudou a música


Em 1966 a união entre o pioneiro do blues inglês, John Mayall, e um guitarrista de rock que começava a ganhar notoriedade em Londres, Eric Clapton, resultaria em um dos discos mais importantes da história. Bluesbreakers with Eric Clapton é considerado por muitos o grande marco do blues-rock.

Dois anos antes da lendária gravação, Clapton já tinha o respeito do público roqueiro. Seu primeiro grande grupo, o The Yardbirds, mostrava ter grande potencial dentre as bandas da invasão inglesa. The Kinks, The Spencer Davis Group, The Troggs e outros estouravam nas rádios britânicas e começavam a ganhar fãs pelos EUA. Os Yardbirds ganhavam, gradativamente, seguidores ingleses, ainda mais após o single For your love e o LP Five live Yardbirds. Porém, o guitarrista não estava satisfeito com o som demasiadamente pop. A solução encontrada por ele foi o abrupto abandono, já que seu desejo era tocar blues sem a pressão de empresários e gravadoras.

Por intermédio de um amigo músico, Robert Palmer, em abril de 1965, Eric entrava em contato com John Mayall, líder dos Bluesbreakers, um inglês apaixonado por blues americano e um dos responsáveis pela formação da cena do blues inglês. Doze anos mais velho, Mayall era mais experiente e grande conhecedor do estilo americano. Apesar de enorme talento (liderava os vocais, tocava teclado, gaita e guitarra base), seu primeiro disco, John Mayall Plays John Mayall, não fora bem recebido pela crítica e a banda acabou demitida pela gravadora.

Clapton sabia que a música do seu futuro parceiro era baseada num blues com fortes influências no jazz e R&B, já que conhecia dois singles do músico: Crawling up a hill e Crocodile walk. Naquele momento, o som apresentado pelos Bluesbreakers não o atraía, entretanto sentia que o certo era iniciar um novo projeto ao lado de Mayall, pois o amor ao blues tradicional era comum. Aos poucos, ele pensava, o som da nova banda se adequaria ao seu gosto, o blues de Chicago. Assim, estava selada uma poderosa parceria. A banda ainda contava com John McVie, baixo, e Mick Fleetwood, que mais tarde formariam o Fleetwood Mac.

A partir de abril de 1965, Clapton mudou-se para a casa de Mayall e lá pôde entrar em contato com diversos bluesmen americanos e expandir suas influências. Passava grande parte do dia em seu quarto acompanhando e aperfeiçoando sua pegada na guitarra a partir da música de artistas como Muddy Waters, Howlin’ Wolf, Otis Rush, Buddy Guy e Earl Hooker.

Com um cachê de 35 libras por semana, o grupo rodava o norte da Inglaterra atrás de shows. A adesão de Clapton aos Bluesbreakers resultou em um fiel público e no crescimento da fama do guitarrista. A prova da sua enorme popularidade seria um grafite com os dizeres “Clapton é Deus” em uma estação de metrô. Os ingleses entravam em contato com um estilo musical novo.
Se na casa de Mayall, Clapton vivia em um ambiente sério e familiar, o mesmo não podia ser dito sobre a casa de seus amigos: a vida era corrida e colorida pela experimentação das drogas, pela literatura beat e pelo cinema estrangeiro. Era um período de descobertas para o guitarrista e ele queria expandir seus conhecimentos, queria conhecer o mundo.

Tudo ia bem até que Eric e seus amigos de boemia decidem formar uma banda, Glands. O plano dos 6 companheiros era financiar uma grande viagem pela Europa com os cachês de shows em bares e pequenas casas ao longo da estrada. Evidentemente, Mayall foi pego de surpresa e teve que procurar um substituto para o guitarrista.

Os Glands passaram pela Alemanha e Iugoslávia, até chegar na Grécia, onde abriam o show da banda local, Juniors, que tocava covers de Kinks e Beatles. Poucos dias depois do começo desse trabalho alguns membros do Juniors morreram em um acidente de carro e Clapton passou a tocar com a banda grega. Como ele era, de longe, o músico com mais experiência e técnica e tinha o inglês fluente, logo foi agregado à banda e passou tocar seis horas diárias, alternando com a sua banda original, Glands. Em pouco tempo, os Juniors tinham shows cheios e eram requisitados em diversas cidades. Para aflição do guitarrista, os sentimentos da época do Yardbirds voltavam. Novamente, Eric questionava-se: sucesso comercial x satisfação pessoal.

Depois de passar alguns meses longe, desejava retornar. Entretanto, o empresário da “banda emprestada” não aceitou a saída. O chefão tinha uma péssima reputação e tratava seus músicos como escravos. Clapton havia sido alertado sobre o preço de sua desistência: perder os braços! Felizmente, após um minucioso plano, conseguiu voltar de trem para Londres com o tecladista do Glands, Robert Palmer. Saldo da viagem: uma Gibson Les Paul, que fora deixada para trás durante a fuga e a ameaça de perder sua ferramenta de trabalho, seus braços.

Ao retornar à capital inglesa, outubro de 1965, os Bluesbreakers tinha um novo guitarrista, o talentoso Peter Green, e um novo baixista, Jack Bruce. Para o azar de Green, Clapton tinha lugar cativo no grupo e, logo, foi demitido. Essa formação durou pouco tempo, mas, para a sorte do rock, a química entre Bruce e Clapton foi imediata e explosiva. Se Jack Bruce sairia precocemente do Bluesbreakers, ocasionando o retorno de McVie, mais tarde a dupla formaria o Cream, uma das mega-bandas do rock.

Após um período de pequenos shows, em abril de 1966, a banda entrava nos estúdios da Decca. O entrosamento era perfeito e Clapton estava com uma nova guitarra, uma Gibson Les Paul em vez da Gibson ES-335, e um amplificador Marshall novo, que davam um som estridente e distorcido. A gravação fora arranjada de forma que desse uma sonoridade de um show ao vivo e em apenas três dias Bluesbreakers with Eric Clapton estava pronto.

Também conhecido como “Beano”, devido a foto da capa em que Clapton lê uma revista em quadrinhos, o disco mudou o conceito de blues. Unindo o blues americano, mais denso, com uma pegada roqueira tipicamente inglesa, Mayall e Clapton foram os responsáveis por uma obra prima.

Enquanto Mayall liderava o grupo com experiência, cantava e tocava teclado e gaita , Clapton tinha liberdade para tocar de forma semelhante aos seus grande ídolos, como Freddie King. Composto por covers, como All your love (Otis Rush/Willie Dixon), Hideaway (Freddie King) e What’d I say (Ray Charles), canções autorais, casos de Little girl, Double crossing time e Key to love, e uma work song rearranjada, Another man, o álbum é perfeito do início ao fim. O disco ainda guarda uma surpresa: Clapton nos vocais de Ramblin’on my mind, de Robert Johnson (e pensar que naquela época o músico não gostava de sua voz demasiadamente aguda).

A partir de 1966, o blues-rock passaria por experimentações diversas e grandes discos seriam gravados, casos de Revolver (Beatles) e o Pet Sounds (Beach Boys). Contudo, Bluesbreakers with Eric Clapton mudou a trajetória do blues e do rock e tornou-se uma obra atemporal, obrigatória a todos os amantes de música. Se a parceria entre Mayall e Clapton acabaria logo após o lançamento do primeiro e único álbum, já que ele formaria o Cream com Jack Bruce e Ginger Baker, o mesmo não pode ser dito sobre seu legado, que é eterno.



Você pode conferir uma entrevista exclusiva com John Mayall, o pai do blues inglês, na Poeira Zine edição nº21 (WWW.poeirazine.com.br).

2 comentários:

fabiopires disse...

Meu caro,

Grande texto esse o seu.Parabenizo-o pelo blog e espero juntarmos nossos conhecimentos musicais para tocarmos o projeto do collectorsroom para frente.Um abraço.

Ernani disse...

Cara excelente texto, muito fiel ao que li no livro "A Autobiografia" do Eric Clapton. Excelente blog, parabéns ;)