sexta-feira, 4 de julho de 2008

Uma viagem ao mundo Floydiano


Londres, 1966. Enquanto os jovens londrinos curtiam o final da adolescência ao som do recém-criado rock, outros entravam para faculdade. Em uma atmosfera psicodélica que continha blues, surf music dos Beach Boys, orientalismo e muitas drogas, grandes bandas foram formadas. Uma, em especial, aparecera em um lugar improvável, na escola técnica de Arquitetura. Roger Waters (contra-baixo), Nick Mason (bateria) e Richard Wright (teclados), que se conheceram durante os primeiros períodos, se juntaram ao estudante de Artes, Syd Barrett (guitarra e voz). Após as primeiras experiências como um grupo de blues, mudam de nome algumas vezes, até chegar em Pink Floyd.

O nome da banda foi uma idéia de Barrett. Surgiu da junção do nome de dois nomes de bluesmans os quais era fã: Pink Anderson e Floyd Council.

Há estórias de que o nome seria referência ao LSD da época. A ampola chamava-se “Floyd” e tinha uma cor semelhante ao rosa.

Cabe cada um crer na versão que mais agrada...

Aos poucos, Syd lapida o som ao seu gosto e introduz novas idéias. Com seu jeito hippie, personalidade forte e genialidade musical única, torna-se o líder do grupo, levando-o ao destaque na cena do rock psicodélico inglês, junto com nomes como Soft Machine e The Move. Ao longo do ano, gradativamente, o quarteto ganha respeito da imprensa local e passa a ser uma das bandas mais requisitadas para os clubes noturnos.

Com bastante cores, alegria, drogas e um sentimento lúdico de poder mudar o mundo através da música, gravam o primeiro álbum, Piper at the gates down, em 1967. O disco de estréia traz inovações culturais únicas. A estética da capa remete ao movimento da psicodelia urbana inglesa buscando nas raízes do beatnick, tendo Barrett como grande responsável, uma forma de expressão literária e ao mesmo tempo contemporânea à onda lisérgica. Um disco que contempla desde o legítimo rock psicodélico inglês, como Lucifer sam e Take up thy stethoscope, o space-rock, como Astromy domine e Interstellar overdrive, e passando até por baladas, como Flaming e Scarecrow. Se as letras ainda não eram politizadas e existencialistas, não havia solos perfeitos de um guitar hero e uma mega produção, trazia em sua simplicidade a possibilidade de um artista poder expressar-se, através da música, seu fantasioso mundo.

Se as vendas iam bem e a popularidade aumentava a ponto de serem convidados para uma turnê pelos EUA, o mesmo não podia dizer sobre o seu líder. O excessivo uso de LSD o transformara numa pessoa distante da realidade. Os integrantes tinham medo de entrar em seu apartamento (sem móveis), a casa era um templo para a perdição: todos tomavam uma gota de ácido pela manhã misturado ao chá e toda água era contaminada com algum tipo de droga, pois haviam lançado químicos na caixa d’água. Ensaios não faziam mais parte da rotina, assim como shows com seu guitarrista e vocalista. Em muitos concertos, o empresário da banda, Peter Janner, convencia algum guitarrista presente a assumir o fardo. Em outras ocasiões, Syd ficava sentado ao fundo do palco, restringindo-se apenas a arranhar sua guitarra. Porém, enquanto não encontrasse um vocalista e compositor tão competente e peculiar, todos viveriam em função da loucura de Barrett...

Durante as gravações de programas na televisão americana, Syd se recusava a gravar em playback e permanecia de boca calada, com um olhar frio e perdido. Na volta à Terra da Rainha, um amigo de infância de Syd e Roger, David Gilmour fora convidado a se juntar. Com a promessa de bebedeiras e mulheres, assume os vocais e a guitarra. Entre final de 67 e começo de 68, o grupo passara a ser um quinteto.

Barrett se tornara um músico esporádico: quando se sentia bem ia ao show; quando sentia-se mal, ficava em casa. A gota d’água fora quando ele abandonou o palco no meio da apresentação. Ficava clara que sua doença, a esquizofrenia, evoluíra rapidamente. Infelizmente o mundo da música e suas transições comerciais era algo muito cruel e selvagem para um poeta simples e sincero.

O difícil (re)começo

A crítica e os fãs do Pink Floyd estavam aflitos e preocupados em saber se a banda declararia o seu fim, após a perda de seu líder e compositor. Enquanto alguns acreditavam que Wright assumiria o papel criativo da banda, outros viam com pessimismo o fato de Gilmour ser apenas um bom imitador de Barrett.

De fato, a banda tocava seus antigos sucessos de forma satisfatória, porém a banda passava por uma crise de identidade: como fazer um som psicodélico ao estilo Sydiano sem o próprio? O resultado foi um sequência de discos medianos que nunca conseguiram atingir o gosto de seu público. Em 1968 era lançado A saucerful of secrets: o grupo sentia dificuldade de encontrar um vocal que se encaixasse de forma satisfatória nas novas músicas. Se a canção que abria o disco, Let be more light fora uma boa música comercial (e nada mais), o restante era bastante irregular. As duas de Wright, See-Saw e Remember a day não foram bem recebidas pelo público e as de Waters tentavam em vão, naquele momento, lançá-lo como compositor e vocalista da banda. Infelizmente, até a última canção de Barrett fora alvo de duras críticas: Jugband blues era o retrato do esgotamento de uma mente genial.

Após o fracasso de vendas, ainda gravariam os discos More (1969), Ummagumma (1969) e Atom heart mother (1970). Todos ainda sem um som apropriado às novas tendências da banda. Não obtiveram grande sucesso. O rock inglês seguia claramente por duas vertentes: o hard rock (Led Zeppelin, Black Sabbath, Deep Purple) e o progressivo (Yes, ELP, Camel).

Em 1971, o disco Meddle chegava às lojas com a promessa de mostrar um rock mais atualizado com as novas características da dupla Waters/Gilmour. Alternando um rock mais maduro, One of these days, com músicas mais leves, San Tropez e Seamus, o grupo conseguia uma boa química, ousando até a gravar a épica Echoes: 23 minutos de uma viagem perfeita em solos de slide de Gilmour, linhas de baixo agressivas e uma letra que mostrava indícios do começo de uma nova fase, o progressivo.

Meio as gravações do limitado Obscured by the clouds (1972), Waters assumia de vez o papel de líder criativo da banda e Gilmour ganhava liberdade para mostrar porque era considerado um guitar hero. Se o álbum, que seria trilha sonora de um filme italiano chamado La Valée, estava acabado, a banda passaria a moldar seu mais novo projeto.

A tentativa de inovar, ao unir música com espetáculo de lasers e sonoplastias diversas, fora realizada com a gravação de The dark side of the moon (1973). Após quase um ano em estúdio e muito suor, a banda concretizaria um dos discos mais importantes da história do rock. Para muitos é o divisor de águas da banda. Sem dúvidas o grupo atingia o auge de sua carreira.

The Dark Side of the Moon vendeu até hoje mais de 30 milhões de cópias e pemaneceu 724 semanas na lista dos 200 mais vendidos. Um recorde único.

Após o estrondoso sucesso, o Pink Floyd passa a tocar em estádios com públicos de 40/50 mil pessoas. É o passe para o grupo se juntar à seleta lista das grandes bandas de rock.

Trabalhando unidos, deixando richas pessoais de lado, mostraram o verdadeiro potencial dos quatro músicos. Falando sobre o cotidiano e a crise da geração dos anos 60 ao perder seus ideais, o disco abre com Speak to me/Breathe, seguida com On the run, uma sequência que guarda altas emoções aos que curtem uma “doidera”; a clássica Time é coroada com um dos solos mais brilhantes de Gilmour; The great gig in thes sky revela os dons musicais de Wright ao compor uma harmonia perfeita aliada à uma voz feminina poderosa; Money, uma crítica aos valores capitalistas enraizadas na sociedade ocidental; Us and them, a discussão sobre a vida e o preconceito; Any colour you like, uma linda transição de sintetizador até começar Brain damage, uma canção sobre a insanidade humana; Eclipse, o final, uma letra que expressa a emoção nas ações humanas. Enfim, um disco perfeito!

Com o sucesso assegurado, ainda gravaram duas das grandes obras do Floyd: Wish you were here (1975) e Animals (1977). O primeiro, uma homenagem ao ex-líder Barrett (que até a respectiva data, não dava notícias de seu paradeiro) e o segundo, um disco extremamente rock.

Tudo tem um fim...

Infelizmente, com o elogiado The wall (1979), as brigas entre Waters e Gilmour tornavam-se constantes. Roger, monopolizara toda criação da banda (letra e instrumental). Os problemas de uma infância sofrida interferiam na banda. Durante a turnê da ópera rock, Wright foi expulso da banda pelo egocêntrico baixista e a química entre o restante do grupo começava a se desgastar. O disco mostrava-se como o verdadeiro “começo do fim”.

Ainda com Waters a frente, agora com formação em trio, gravaram The final cut, para alguns um dos mais fracos, para outros um álbum mal-compreendido.

O líder sentia que o grupo ruía; era hora de seguir em frente com sua carreira solo. Até então, o Pink Floyd acabara em 1983.

Após briga judicial, Gilmour ganhou os direitos do Pink Floyd e retomou, mais uma vez com Mason e Wright, a banda. Infelizmente, como uma banda de estúdio e de músicas novas, o Floyd tornou-se uma ótima banda para tocar as antigas músicas e ao vivo (de preferência). Se os fracos álbuns A momentary lapse of reason (1987) e Division bell (1994), este superior, não faziam honra à tradição, o mesmo não se pode dizer sobre o disco ao vivo de 1996, P.U.L.S.E.

Com uma formação de palco que ultrapassava 10 músicos, esse registro é necessário a todo fã da banda. Com clássicos da era Barrett e outros como Another brick in the wall, Wish you were here, entre outros, o CD duplo ainda contém a execução ao vivo do Dark side.

De fato, vê-los sem Waters dá uma tristeza; mas mesmo assim, é sempre bom ver uma mega banda em turnê. O Pink Floyd tornou-se, com todo o mérito, uma referência, não apenas no mundo progressivo, mas no rock em geral. A banda conseguiu diferenciar a boa música de obras-primas.

O P.U.L.S.E é um disco repleto de curiosidades. Na capa constata-se a presença quase que imperceptível de desenhos que fazem referência ao Mágico de Oz: alguns dizem que o Dark side é sincornizado com o filme.

Durante um dos shows de sua turnê apareceram as palavras “Enigma” e “Publius”. Alguns dizem que é um mistério a ser resolvido. Aos interessados, na internet há algumas teorias sobre a origem desta lenda...

5 comentários:

anamaria disse...

Sem dúvida foi uma viagem ao mundo floydiano. Adorei. Bjs.

Helio Jenné disse...

Excelente artigo, Ugo! Me amarro no Pink Floyd desde sempre e seu blog é fantástico! Vou colocar um link pra cá no meu (http://scubi.blogspot.com).
Um forte abraço e Sucesso, bluesman!

lucasbriones disse...

Ugo, parabéns pelo artigo!
Gosto muito de saber as histórias de bandas que influenciam muito na vida em si!

Valeu!

Pipoca disse...

Ugo, parabéns pela excelente matéria! Não sabia que Ricky chegou a ser despedido por Waters. Lembro que no retorno da banda sob o comando de Gilmour ele foi artista convidado, e não membro permanente.

Enfim, tempos que infelizmente não voltam. E a música nunca mais foi a mesma...

Valeu!
Bruno Marques

Súh disse...

Sem dúvida foi uma viagem ao mundo Floydiano.......Adorei o texto,hoje nós Floydianos semtimos muito a falta da banda ao vivo.Esse som que encanta é eterno!!!Parabéns!!!
visite meu blog é tudo sobre pink floyd.