quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Um trem chamado Grand Funk!


Outro dia, com alguns amigos, em uma mesa de bar, conversávamos sobre qual teria sido a banda mais rock dentre todas do estilo. Alguns citaram Led Zeppelin, outros lembraram do Iron Maiden, e houve até quem opinasse em nomes mais “recentes”, como U2. Chegou a minha vez de opiniar. Fiquei por pensar alguns segundos. Acabei escolhendo o Led Zeppelin, considerado como o maior nome do hard-rock, quissá do rock em geral. Após algumas garrafas de cerveja fui para casa.

Adentrei no meu quarto e, cambaleando por causa do álcool, liguei o cd-player. Estava com um álbum do Grand Funk Railroad. Puta que pariu, GRAND FUNK RAILROAD! Era a porra da resposta que deveria ter dado! Peguei imediatamente o Caught in the Act. Logo na primeira música, uma porrada: Footstompin’ Music. Este disco ao vivo, certamente integrante da lista dos melhores ao vivo da história do rock, mostra uma legítima banda de rock no seu auge, na primeira metade da carreira. O show possui um set list com clássicos como Rock and Roll Soul, We’re an American Band e Inside Looking Out.

A banda era formada por jovens pobres, que sofriam em uma cidade com pouca esperança, Flint (sim, a mesma cidade de Michael Moore), em finais dos anos 60. Se a situação política-social era conturbada e o noticiário ainda tratava sobre o assassinato de Robert Kennedy e a eleição do republicano Nixon, a manutenção da Guerra do Vietnã e a resposta pacífica vinda de um rancho chamado Woodstock, o filme de Moore, Roger and Me, mostraria, quase duas décadas depois, como essa cidade beirava o caos social. Sede de fábricas da indústria automobilística, a população era, basicamente, formada por operários e tinha uma economia voltada para esse setor. De acordo com o senso comum da época, dificilmente nasceria alguma expressão artítisca naquele local. Ironia do destino, surgia o Grand Funk Railroad, uma puta banda de rock!

O poderoso power trio, formado pelo guitarrista e vocalista Mark Farner, pelo baixista Mel Schacher e pelo baterista, e depois vocalista, Don Brewer, possuía toda a força de um trem, literalmente um expresso do rock. Constantemente em comparação com outras bandas em formato de trio, como Cream e Jimi Hendrix Experience, o Grand Funk uniu o espírito rock’n’roll, extrema competência no som, atenção aos seus fãs e uma firme ideologia. Representando um novo rock americano, um hard rock crú com influências no blues e no baixo de funk e soul, os três jovens faziam um som pesado, mostrando o declínio das ideologias hippies ou seja, que a realidade era bastante dura.

Os três primeiros discos de estúdio, respectivamente, On Time, Grand Funk e Closer to Home, ajudam o Grand Funk a entrar na lista das bandas mais pesadas daquela época. Assim como o Black Sabbath e o Led Zeppelin, que lançaram de cara uma trinca de discos matadores (respectivamente, Black Sabbath, Paranoid, Master of Reality, e Led Zeppelin, Led Zeppelin II e Led Zeppelin III), o trio de Farner levaria o rock pesado a um novo patamar, agora com o fiel apoio dos jovens americanos.

Dizem que a primeira faixa de um disco é a mais importante; se for brochante o ouvinte dificilmente não terá a mesma alegria para escutar o restante. Isso não acontece com o primeirão do Grand Funk, On Time, de 1969. Are you Ready? introduzia o ouvinte a um mundo do rock selvagem, sem frescuras, e logo na sequência, mantendo a linha agressiva, Anybody’s Answer. Time Machine e High On a Horse, duas blueseiras com bastante peso; T.N.U.C. revela um dos grandes bateristas do rock, onde Brewer sola durante alucinantes quatro minutos; Into the Sun e Heartbreaker, dois hard-rock melódicos, com um show a parte de Farner; e ainda há espaço para um rock que flerta com psicodélico, Can’t be Too Long. Uma estréia arrasadora!

O “Disco Vermelho” (Grand Funk), de 1970, como ficou conhecido por alguns, praticamente continuou o trabalho anterior. Aos que pensavam que o peso fosse reservado apenas para o álbum de estréia, uma grande decepção. A faixa de abertura, Got this Thing on the Move, é capaz de levantar os mortos, tamanha a porrada. Please Don’t Worry, High Falootin’Woman e Mr. Limousine Driver representam a sonoridade peculiar da banda: distorção crua, bateria num rítmo incansável, um baixo com influências de black music e um vocal poderoso que alcançava as notas mais altas. A bolacha ainda conta com o clássico Inside Looking Out, uma canção de quase 10 minutos que alterna momentos psicodélicos, solos incendiários de Farner e um verdadeiro duelo entre o vocal e os demais instrumentos.

Grand Funk Railroad x Led Zeppelin,

o duelo pelo clamor dos fãns.

Coincidentemente, um dos maiores confrontos em palco aconteceu entre essas duas bandas. Durante a turnê americana do Led, o Grand Funk ficou encarregado por abrir os shows da mega banda. A parceria duraria pouco já que durante um show em Detroit, o “quinto” integrante do grupo inglês, Peter Grant, desligou a energia do palco. Isso tudo porque a versão de Inside Looking Out levava o público ao delírio, e assim poderia vir a ofuscar a apresentação principal. O resultado foi uma tremenda confusão diante a platéia e contando, ainda, com o empresário dos norte-americanos, Terry Knight, gritando em um microfone que o londrinos estariam com medo... Pior para o Zeppelin que amargou um show vazio, já que o público indignou-se com a atitude.

O último da trinca, Closer to Home, mantém o selo “Grand Funk de Qualidade” num disco completo. Lançado no mesmo ano que o anterior, tem canções, como Sin’ a Good Man’s Brother e Aimess Lady, que mostram uma banda de rock experiente. Há composições sobre amor: a depressiva Mean Mistreater (como a escutei quando tomei o pé na bunda), o rock de Hooked on Love e a clássica I’m Your Captain. Considerado por muitos fãs como o melhor da carreira, o disco ainda guarda fortes emoções em faixas como a semi-instrumental, Get it Together. Se o governo Norte-americano tem sua sede em Washington, o rock teria a sua em Flint.

Os fãs enlouquecem, e cada vez mais consomem o rock do Grand Funk. Capazes de arrastar multidões e lotar estádios eram apontados por muitos, ao lado do Cactus, como o grande rival americano do Led Zeppelin. Os EUA tinham certeza da grandiosidade daquela banda, a aceitação e a consequente adimiração foram instantâneas. As vendas eram exorbitantes e, como toda banda que consquistara o mercado fonográfico, poderiam embolsar uma tentadora quantia. Porém, não esquecendo as origens, a banda exigia um preço mais compatível com a realidade financeira de um jovem recém-formado na high school, sem perspectivas de um emprego que o remunerasse decentemente. Portanto, os lucros eram menores e anos mais tarde, viriam a descobrir que eram inclusive menor do que de seu empresário, Terry Knight...

Apesar de toda essa comoção, a crítica não perdoava. A cada disco lançado, um áspero julgamento. Felizmente, a banda, que ao mesmo tempo conseguia ser a mais amada e odiada, não deixou os fatores externos abalarem a moral e a criatividade.

Ainda lançariam pérolas como o Survival, E Pluribus Funk (“o disco da moeda”), Phoenix e We’re an American Band, endeusados pelos fãs, e é claro arduamente criticado pelos “especialistas”. Em pouco tempo o trio bateria recordes históricos, como o de ser a única banda americana a receber 10 discos de platina seguidos (incluindo o ao vivo Live Album).

Porra, falar do Grand Funk emociona, ainda mais em momentos alcoolizados. Apesar de alguns dizerem que o grupo teria se afundado após colocar Craig Frost nos teclados, a partir do Phoenix, deixando o som mais “macio”, considero o Grand Funk Railroad como um dos legítimos dinossauros do rock. Evidente que como toda banda com tantos anos de estrada, sempre há algum trabalho fraco, caso de All the Girls in the World Beware!! e Born to Die, mas a trajetória dessa fantástica máquina de rock os coloca num patamar único.

Injustiçado eternamente, inclusive em terras tupiniquins, o trio deu uma aula de como o rock deve ser tocado. Em tempos de masturbações distorcidas (alô Malmsteen...) e discos produzidos de forma artificial e sem qualquer conteúdo, o Grand Funk Railroad deveria ser comumente escutado. Eles eram, são e sempre serão uma verdadeira banda americana, uma puta banda de rock’n’roll!

8 comentários:

ricardo disse...

e digo mais: tiveram um álbum (good singin' good playin') produzido por frank zappa.
abração!

jebar437 disse...

Tocar Grand Funk - mesmo que ninguém conheça - sempre apavora, nos shows da minha banda.

Lailson Castanha disse...

Saúde companheiro Ugo.

Você definiu com muita propriedade a trajetória e o som do Grand Funk Railroad.
Realmente, trata-se da maior banda de hard Rock da história. É uma banda completa! Tem um puta vocalista, a guitarra de Farner é econômica mais muito competente, o baixo de Mel é um passeio, e a batera.... sem comentários.
Tenho vários ábuns, e até hoje não sei qual é o melhor.
Deixei vários amantes do hard Rock estaziados com a sonzera da trupe de Michigan, inclusive toda vez que me reúno com a camaradagem para escutar um som e trocar idéias, o som do Grand Funk agora, depois que eu apresentei para a camaradagem, é requisitado, pelos caras que antes só conheciam e idealizavam bandas Sabbath, Led e Maiden, um deles disse que toda vez que escuta um som, a primeira banda que lhe vem a cabeça o Grand Funk.
Não tem pra ninguém!

Joel Macedo disse...

Ugo, acho que vc usou a palavra certa: "Injustiçado".
Isso é o que Grand Funk tem sido.
Por todos nós.
É uma puta banda de roquenroll sim. Uma das maiores. E pensar que em "Albatroz" eu só cito Grand Funk naquele balaio de nome de bandas junto com muitas outras. Eles mereciam um destaquezinho que acabei não dando.
Injustiça!

hommerprates disse...

Tocar Grand Funk - mesmo que ninguém conheça - sempre apavora, nos shows da minha banda. [2]


Puta banda, emociona ler um artigo tão bonito sobre o Grnd Funk, de fato a banda mais roqueira do rock (junto com Thin Lizzy, na minha humilde opnião!)

Sniv disse...

Lynyrd Skynyrd? Achei que tinham morrido em uma acidente de avião.

ze disse...

Oi cara
Nasci em Moçambique, vivo em Portugal
e não me esqueço do disco que comprei
na Swazilândia,há mais de 30 anos quando andava passeando de carona:
MARK, DON & MEL (duplo)
que puta disco caras, um duplo vinil de GRAND FUNK
realmente um trem avassalador
nunca encontrei em cd
cumptos
jay jay

Fernando Capela disse...

Tocar Grand Funk - mesmo que ninguém conheça - sempre apavora, nos shows da minha banda. [2]

"Vira o disco seu imbecíl!!!"