sexta-feira, 4 de julho de 2008

Uma viagem ao mundo Floydiano


Londres, 1966. Enquanto os jovens londrinos curtiam o final da adolescência ao som do recém-criado rock, outros entravam para faculdade. Em uma atmosfera psicodélica que continha blues, surf music dos Beach Boys, orientalismo e muitas drogas, grandes bandas foram formadas. Uma, em especial, aparecera em um lugar improvável, na escola técnica de Arquitetura. Roger Waters (contra-baixo), Nick Mason (bateria) e Richard Wright (teclados), que se conheceram durante os primeiros períodos, se juntaram ao estudante de Artes, Syd Barrett (guitarra e voz). Após as primeiras experiências como um grupo de blues, mudam de nome algumas vezes, até chegar em Pink Floyd.

O nome da banda foi uma idéia de Barrett. Surgiu da junção do nome de dois nomes de bluesmans os quais era fã: Pink Anderson e Floyd Council.

Há estórias de que o nome seria referência ao LSD da época. A ampola chamava-se “Floyd” e tinha uma cor semelhante ao rosa.

Cabe cada um crer na versão que mais agrada...

Aos poucos, Syd lapida o som ao seu gosto e introduz novas idéias. Com seu jeito hippie, personalidade forte e genialidade musical única, torna-se o líder do grupo, levando-o ao destaque na cena do rock psicodélico inglês, junto com nomes como Soft Machine e The Move. Ao longo do ano, gradativamente, o quarteto ganha respeito da imprensa local e passa a ser uma das bandas mais requisitadas para os clubes noturnos.

Com bastante cores, alegria, drogas e um sentimento lúdico de poder mudar o mundo através da música, gravam o primeiro álbum, Piper at the gates down, em 1967. O disco de estréia traz inovações culturais únicas. A estética da capa remete ao movimento da psicodelia urbana inglesa buscando nas raízes do beatnick, tendo Barrett como grande responsável, uma forma de expressão literária e ao mesmo tempo contemporânea à onda lisérgica. Um disco que contempla desde o legítimo rock psicodélico inglês, como Lucifer sam e Take up thy stethoscope, o space-rock, como Astromy domine e Interstellar overdrive, e passando até por baladas, como Flaming e Scarecrow. Se as letras ainda não eram politizadas e existencialistas, não havia solos perfeitos de um guitar hero e uma mega produção, trazia em sua simplicidade a possibilidade de um artista poder expressar-se, através da música, seu fantasioso mundo.

Se as vendas iam bem e a popularidade aumentava a ponto de serem convidados para uma turnê pelos EUA, o mesmo não podia dizer sobre o seu líder. O excessivo uso de LSD o transformara numa pessoa distante da realidade. Os integrantes tinham medo de entrar em seu apartamento (sem móveis), a casa era um templo para a perdição: todos tomavam uma gota de ácido pela manhã misturado ao chá e toda água era contaminada com algum tipo de droga, pois haviam lançado químicos na caixa d’água. Ensaios não faziam mais parte da rotina, assim como shows com seu guitarrista e vocalista. Em muitos concertos, o empresário da banda, Peter Janner, convencia algum guitarrista presente a assumir o fardo. Em outras ocasiões, Syd ficava sentado ao fundo do palco, restringindo-se apenas a arranhar sua guitarra. Porém, enquanto não encontrasse um vocalista e compositor tão competente e peculiar, todos viveriam em função da loucura de Barrett...

Durante as gravações de programas na televisão americana, Syd se recusava a gravar em playback e permanecia de boca calada, com um olhar frio e perdido. Na volta à Terra da Rainha, um amigo de infância de Syd e Roger, David Gilmour fora convidado a se juntar. Com a promessa de bebedeiras e mulheres, assume os vocais e a guitarra. Entre final de 67 e começo de 68, o grupo passara a ser um quinteto.

Barrett se tornara um músico esporádico: quando se sentia bem ia ao show; quando sentia-se mal, ficava em casa. A gota d’água fora quando ele abandonou o palco no meio da apresentação. Ficava clara que sua doença, a esquizofrenia, evoluíra rapidamente. Infelizmente o mundo da música e suas transições comerciais era algo muito cruel e selvagem para um poeta simples e sincero.

O difícil (re)começo

A crítica e os fãs do Pink Floyd estavam aflitos e preocupados em saber se a banda declararia o seu fim, após a perda de seu líder e compositor. Enquanto alguns acreditavam que Wright assumiria o papel criativo da banda, outros viam com pessimismo o fato de Gilmour ser apenas um bom imitador de Barrett.

De fato, a banda tocava seus antigos sucessos de forma satisfatória, porém a banda passava por uma crise de identidade: como fazer um som psicodélico ao estilo Sydiano sem o próprio? O resultado foi um sequência de discos medianos que nunca conseguiram atingir o gosto de seu público. Em 1968 era lançado A saucerful of secrets: o grupo sentia dificuldade de encontrar um vocal que se encaixasse de forma satisfatória nas novas músicas. Se a canção que abria o disco, Let be more light fora uma boa música comercial (e nada mais), o restante era bastante irregular. As duas de Wright, See-Saw e Remember a day não foram bem recebidas pelo público e as de Waters tentavam em vão, naquele momento, lançá-lo como compositor e vocalista da banda. Infelizmente, até a última canção de Barrett fora alvo de duras críticas: Jugband blues era o retrato do esgotamento de uma mente genial.

Após o fracasso de vendas, ainda gravariam os discos More (1969), Ummagumma (1969) e Atom heart mother (1970). Todos ainda sem um som apropriado às novas tendências da banda. Não obtiveram grande sucesso. O rock inglês seguia claramente por duas vertentes: o hard rock (Led Zeppelin, Black Sabbath, Deep Purple) e o progressivo (Yes, ELP, Camel).

Em 1971, o disco Meddle chegava às lojas com a promessa de mostrar um rock mais atualizado com as novas características da dupla Waters/Gilmour. Alternando um rock mais maduro, One of these days, com músicas mais leves, San Tropez e Seamus, o grupo conseguia uma boa química, ousando até a gravar a épica Echoes: 23 minutos de uma viagem perfeita em solos de slide de Gilmour, linhas de baixo agressivas e uma letra que mostrava indícios do começo de uma nova fase, o progressivo.

Meio as gravações do limitado Obscured by the clouds (1972), Waters assumia de vez o papel de líder criativo da banda e Gilmour ganhava liberdade para mostrar porque era considerado um guitar hero. Se o álbum, que seria trilha sonora de um filme italiano chamado La Valée, estava acabado, a banda passaria a moldar seu mais novo projeto.

A tentativa de inovar, ao unir música com espetáculo de lasers e sonoplastias diversas, fora realizada com a gravação de The dark side of the moon (1973). Após quase um ano em estúdio e muito suor, a banda concretizaria um dos discos mais importantes da história do rock. Para muitos é o divisor de águas da banda. Sem dúvidas o grupo atingia o auge de sua carreira.

The Dark Side of the Moon vendeu até hoje mais de 30 milhões de cópias e pemaneceu 724 semanas na lista dos 200 mais vendidos. Um recorde único.

Após o estrondoso sucesso, o Pink Floyd passa a tocar em estádios com públicos de 40/50 mil pessoas. É o passe para o grupo se juntar à seleta lista das grandes bandas de rock.

Trabalhando unidos, deixando richas pessoais de lado, mostraram o verdadeiro potencial dos quatro músicos. Falando sobre o cotidiano e a crise da geração dos anos 60 ao perder seus ideais, o disco abre com Speak to me/Breathe, seguida com On the run, uma sequência que guarda altas emoções aos que curtem uma “doidera”; a clássica Time é coroada com um dos solos mais brilhantes de Gilmour; The great gig in thes sky revela os dons musicais de Wright ao compor uma harmonia perfeita aliada à uma voz feminina poderosa; Money, uma crítica aos valores capitalistas enraizadas na sociedade ocidental; Us and them, a discussão sobre a vida e o preconceito; Any colour you like, uma linda transição de sintetizador até começar Brain damage, uma canção sobre a insanidade humana; Eclipse, o final, uma letra que expressa a emoção nas ações humanas. Enfim, um disco perfeito!

Com o sucesso assegurado, ainda gravaram duas das grandes obras do Floyd: Wish you were here (1975) e Animals (1977). O primeiro, uma homenagem ao ex-líder Barrett (que até a respectiva data, não dava notícias de seu paradeiro) e o segundo, um disco extremamente rock.

Tudo tem um fim...

Infelizmente, com o elogiado The wall (1979), as brigas entre Waters e Gilmour tornavam-se constantes. Roger, monopolizara toda criação da banda (letra e instrumental). Os problemas de uma infância sofrida interferiam na banda. Durante a turnê da ópera rock, Wright foi expulso da banda pelo egocêntrico baixista e a química entre o restante do grupo começava a se desgastar. O disco mostrava-se como o verdadeiro “começo do fim”.

Ainda com Waters a frente, agora com formação em trio, gravaram The final cut, para alguns um dos mais fracos, para outros um álbum mal-compreendido.

O líder sentia que o grupo ruía; era hora de seguir em frente com sua carreira solo. Até então, o Pink Floyd acabara em 1983.

Após briga judicial, Gilmour ganhou os direitos do Pink Floyd e retomou, mais uma vez com Mason e Wright, a banda. Infelizmente, como uma banda de estúdio e de músicas novas, o Floyd tornou-se uma ótima banda para tocar as antigas músicas e ao vivo (de preferência). Se os fracos álbuns A momentary lapse of reason (1987) e Division bell (1994), este superior, não faziam honra à tradição, o mesmo não se pode dizer sobre o disco ao vivo de 1996, P.U.L.S.E.

Com uma formação de palco que ultrapassava 10 músicos, esse registro é necessário a todo fã da banda. Com clássicos da era Barrett e outros como Another brick in the wall, Wish you were here, entre outros, o CD duplo ainda contém a execução ao vivo do Dark side.

De fato, vê-los sem Waters dá uma tristeza; mas mesmo assim, é sempre bom ver uma mega banda em turnê. O Pink Floyd tornou-se, com todo o mérito, uma referência, não apenas no mundo progressivo, mas no rock em geral. A banda conseguiu diferenciar a boa música de obras-primas.

O P.U.L.S.E é um disco repleto de curiosidades. Na capa constata-se a presença quase que imperceptível de desenhos que fazem referência ao Mágico de Oz: alguns dizem que o Dark side é sincornizado com o filme.

Durante um dos shows de sua turnê apareceram as palavras “Enigma” e “Publius”. Alguns dizem que é um mistério a ser resolvido. Aos interessados, na internet há algumas teorias sobre a origem desta lenda...

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Meus netos, eu vi um show do Chuck Berry!



Seria a minha primeira e, talvez, a última chance de ver um dos país do rock and roll, Chuck Berry, em ação. O show do último dia 17, no Vivo Rio, em um primeiro momento, quando eu esperava ver e escutar todos os maravilhosos riffs e agressivas palhetadas do velho roqueiro, poderia ser encarado como uma grande decepção.

Apesar de toda a simpatia do norte-americano nascido em 1926, na cidade de St. Louis, o público pode ter estranhado a performance do guitarrista de 81 anos. Sinceramente, acredito que todos pecaram por uma certa ingenuidade: é fisiologicamente impossível um senhor ocatagenário agüentar o pique, em uma turnê exaustiva por diversos países.

Notas desafinadas, acordes fora do tempo e voz desgastada. A banda que o acompanhava era bem fraca, incluindo seu filho, Charles Berry Jr., na guitarra. O cansaço era tanto a ponto dos solos serem executados pelo filho. Até mesmo a guitarra base sofria com o peso da idade. Acredito que um show em outro formato, talvez, uma guitarra, um microfone e um banquinho, desse ao mestre do rock um melhor desempenho, com músicas mais lentas.

O concerto começou com a clássica Memphis Tennessee e, logo na canção de abertura, infelizmente, mostrou a debilitação física de Chuck. Depois, vieram Maybeline, Sweet little Sixteen e Nadine, todas distantes anos-luz da boa forma de 40 anos atrás. O hino Johnny B. Goode teve seu emocionante solo esfacelado e seu refrão cantado pelos fãs. Ainda teve uma tentativa de cover de Yesterday, dos Beatles. Apenas uma tentativa.

Mas, todos esses comentários e críticas não passam de detalhes técnicos que um aspirante a crítico musical faz a fim de mostrar um limitado conhecimento. Após a adrenalina e um inicial desapontamento abaixarem, entendi o privilégio que tinha naquele momento. Porra, via, a poucos metros, o cara que desbancou o forte racismo estadunidense e conquistou por todo o mundo um imenso legado de fiéis amantes de rock.

Quisera eu com oitenta verões nas costas ter a vontade e o amor por algo que me fizesse tirar do boteco ou do carteado com antigos camaradas, cruzar um continente apenas pelo prazer de contagiar alguns estranhos com a sua música. Sem dúvida, a grande razão do coroa ainda viver. E daí se a voz e a pegada não são mais as mesmas? O importante foi vê-lo feliz.

O crazy legs ainda tirou forças para executar seus famosos pulinhos com a guitarra, apesar de ter acabado com seu fôlego. Foi emocionante constatar que o tempo não tira a alegria e o espírito fanfarrão de um homem, que na saidera pede para 12 mulheres da platéia subirem ao palco e dançarem (quase resultando em um uma invasão generalizada).

Infelizmente ainda não tenho uma máquina do tempo que me mande para os anos 60, de forma que eu pudesse me deliciar com shows de grandes bandas. Porém, depois de quase 50 anos, pude ver O Cara que criou aquilo que mais amo em minha medíocre vida e me dá ânimo de levantar da cama: o rock. Certamente, daqui a uns anos, quando eu colocar um rock para os meus netos conhecerem este estilo musical, contarei: “Meus queridos netos, eu tive a honra de ver um show do Chuck Berry. Vocês não o conhecem? Bem, ele foi um dos criadores do rock junto com...”.


Foto: Divulgação

Crianças, prestem atenção à aula de blues!



Este ano fui ao Rio das Ostras Jazz & Blues Festival. Fui na expectativa de ver o lendário John Mayall e os Bluesbreakers. Mas, antes do show do pai do blues inglês, tive um momento de aprendizado. Sim, aprendizado, e em pleno festival, no meio de mais de 15 mil pessoas. Quando o Blues Etílicos subiram ao palco e começaram seu concerto tive a impressão de estar em uma aula música, fazendo (escutando) a lição sobre blues.

Ao contrário do que muitos podem pensar, esta não foi a primeira vez que assisti ao show da banda. Seria mais um. Mas, um sentimento estranho, aos poucos, tomou conta de mim. Meio a releituras de Muddy Waters e algumas canções próprias, o grupo que tem 21 anos de estrada esbanjou técnica e mostrou o verdadeiro feeling do blues. Se em clássicos como I want to be loved de Willie Dixon, Good morning little school girl de John Lee Williamson, e Walking blues de Muddy Waters, o quinteto mostrava a intimidade com o estilo centenário, o mesmo pode ser dito em relação a Semms like the whole world was crying, um blues-rock do gaitista Charlie Musselwhite. Havia, ainda, espaço para interpretações brasileiras: um cover do saudoso Raul Seixas, Canceriano sem lar, e Dente de ouro, uma versão de blues com capoeira.

Ver a apresentação dos Etílicos foi participar de um imenso orgasmo musical coletivo, onde todos, sem excessão, entravam em um estado de insanidade devido à performance incendiária de Otávio Rocha, sem dúvida o melhor slide tupiniquim e ao virtuosismo de Flávio Guimarães, gaita e vocal, hoje um dos músicos brasileiros mais respeitados fora do Brasil. Há de se reverenciar esses desbravadores do blues nacional, que ainda conta com a guitarra base e o incrível vocal do americano Greg Wilson, natural do Mississipi, e uma cozinha em perfeita sintonia, Pedro Strasser (bateria) e Cláudio Bedran (baixo).

O show encaminhava-se para o final e, paulatinamente, o sentimento de êxtase diminuia. Após uma aula de como o blues deve ser tocado, o público parecia estar esgotado emocionalmente com o privilégio de ter visto a maior banda de blues brasileira. Porém, todos tinham uma certeza, aquele momento seria para sempre recordado: o dia em que a cidade de Rio das Ostras teve uma aula de música para 15 mil alunos insandecidos pelo calor da boa música.


Foto: Divulgação

domingo, 1 de junho de 2008

Hamilton de Holanda Quinteto, Brasilianos 2


Nos EUA ele é considerado o “Jimi Hendrix do bandolim”, na França é chamado de “Príncipe do bandolim” e em seu currículo constam importantes prêmios, como o Tim de melhor banda e performer 2007. Em show realizado no Circo Voador (RJ), Hamilton de Holanda Quinteto lançou neste último sábado, 31/05, seu novo CD, Brasilianos 2.

O repertório, composto por composições antigas e inéditas de seu novo trabalho, casos de Ano bom, Mundo não acabou, Tamandua e Ajaccio (em performance solo), contagiou o público, que se deixava embalar pelas belas melodias do excelente quinteto. A gaita cromática de Gabriel Grossi e o competente violão de Daniel Santiago garantiam uma harmonia leve e suave, enquanto que a cozinha, contra-baixo e bateria, André Vasconcellos e Marcio Bahia, respectivamente, ditavam o rítmo perfeito. “Considero o Brasilianos 2 como o meu amadurecimento. Fiquei muito feliz com o resultado pois foi gravado com muita união entre todos da banda”, conta o bandolinista.

O músico, que inova ao tocar um bandolim de 10 cordas, pode ser considerado a nova cara da música instrumental brasileira.

“Eu fiz esse instrumento sob encomenda. Sempre quis compor de forma orquestral, ou seja, fazer a harmonia, melodia e rítmo. Com a adição dessas duas cordas ganhei uma maior extensão e um som mais grave. Queria, e consegui, um novo jeito de tocar”, diz Hamilton.

Influenciado pela música popular (mestres do choro, samba e bossa nova) e música erudita (jazz e música clássica), Hamilton de Holanda consolida o seu trabalho com uma música que trascende classificações. “Sinceramente, eu não sei e nem pretendo rotular o meu trabalho. Acho importante esse elo entre o passado e futuro. Costumo dizer que o moderno é tradição. E, convenhamos, a tradição é moderna (risos)”.

No entanto, enganam-se aqueles que pensam que o carioca tenha escutado apenas nomes como Pixinguinha. O rock também o ajudou na formação de músico. “Cresci em Brasiília na época em que bandas como Legião Urbana e Paralamas do Sucesso estouravam nas rádios. Ainda tive um grupo chamado Entregadores de Pizza, onde eu tocava baixo”, revela. E do mundo roqueiro veio um dos momentos mais emocionantes de sua carreira: em terras francesas, dividiu o palco com John Paul Jones, baixista do Led Zeppelin.

- Eu dava aula em um workshop de bandolim, quando me pediram para fazer uma melodia no baixo. Foi quando apareceu um senhor que se ofereceu para tocar o instrumento, de forma que eu não parasse com o bandolim. Me falaram depois que era o Cara. Não acreditei! Conversamos um pouco e depois demos uma canja juntos. Até hoje nos falamos, pois temos amigos de bluegrass em comum - relembra Hamilton.

Hamilton de Holanda constrói, de forma sólida, uma carreira vitoriosa. Querido no Brasil e no exterior, o músico esbanja técnica e um virtuosismo ideal. Atualmente, já pode integrar a lista dos grandes nomes da música brasileira.



Foto:Ugo Medeiros

terça-feira, 29 de abril de 2008

Big Gilson e Johnny Winter


O bluesman Big Gilson encerrou essa semana sua segunda turnê pelos Estados Unidos e Canadá. Seria mais uma, dentre tantas realizadas, em sua longa carreira se não fosse por um show específico. O guitarrista teve a honra de abrir um show, no Canadá, de Johnny Winter, o gênio do blues-rock. “Foi um dos momentos mais felizes da minha vida. Ele foi um dos motivos para que eu escolhesse a música.”, revela Gilson, que ainda teve o privilégio de ser recebido no trailer do ídolo.

O brasileiro tocou com uma banda de apoio chamada Diesel Dog, um grupo de jam rock que recebeu bons elogios do bluesman: “Não conhecia esse tipo de banda. Gostei deles pois são roqueiros que tocam blues. Não gosto quando são blueseiros tocando rock.”. O único lamento foi o fato de ele não ter tocado as canções do seu último CD, Chrysalis, devido a falta de tempo para os ensaios: “Toquei um repertório com minhas composições antigas e releituras de clássicos do blues.” – conta ele.

Big Gilson, que fez uma excurssão pouco antes pela Inglaterra, explica que ainda tocaria na Espanha: “Fui forçado a cancelar a turnê por esse país, pois a chance de abrir para o Winter é única.”. Porém, os europeus poderão escutar suas blue notes em Agosto e Setembro. A passagem pela Europa também marcará um outro feito: abrir um show do The Animals com Steve Cropper.

Além de detalhar sua próxima digressão, ele revela, em primeira mão, que até junho lançará seu próximo trabalho, provavelmente entitulado de Sentenced to living. “Acredito que este disco seja o mais pesado. O ouvinte escutará algo novo, diferente de tudo que já gravei antes.” – confidencia.

O brasileiro e sua guitarra, devidamente assinada por Johnny Winter, estão fazendo história. Big Gilson realizou um sonho. E o blues nacional agradece por mais essa mostra de qualidade.


Foto: Ugo Medeiros

quinta-feira, 3 de abril de 2008

A consolidação de Celso Blues Boy


“Puta que pariu, é o melhor guitarrista do Brasil!”, gritavam os fans de Celso Blues Boy. O show deste 1º de abril, no Canecão Petrobras, Rio de Janeiro, marcou o lançamento do novo CD e primeiro DVD do músico, Celso Blues Boy ao vivo. Apresentando a técnica e a simpatia costumeiras, o bluesman levou o público ao delírio com a execução de seus clássicos, como Marginal, Tempos difíceis e Blues motel. A platéia recebeu com entusiasmo duas novas composições, Quem foi que falou que acabou o rock’n’ roll? e Casa da luz vermelha.

Ao lado de uma banda competente, Celso teve ainda convidados de luxo. Jefferson Gonçalves participou de Damas da noite e Aumenta que isso ai é rock’n’roll, Big Joe Manfra injetou sua guitarra em Amor vazio, Ivo Pessoa colaborou com sua potente voz em Fuscão preto e Renato Barros, um dos pais do rock nacional, mostrou seus dotes guitarrísticos em Blues motel.

A noite foi perfeita, apesar de o Canecão Petrobras insistir em estragá-la. Antes mesmo do início do espetáculo o público que estava na pista livre indignou-se por ter sido jogado para as laterais. Em qualquer casa de espetáculo as mesas (leia-se ingressos mais caros) ficam nas laterais, enquanto que a pista (ingresso da plebe) no centro. Ou seja, há um equilíbrio, conforto bom/localização inferior, conforto ruim/localização superior. Mas o que tudo indica, a casa ignora este fato e preza pela elitização da cultura.

Fui a trabalho cobrir o evento porém, infelizmente, não consegui tirar fotos para essa matéria (a foto acima é do Circo Voador) já que os seguranças são instruídos para não permitirem fotos, nem mesmo para a imprensa. Isso sem falar dos abusivos preços das bebidas. Lamentável. Enfim, quem perde é o estabelecimento com a decepção de muitos consumidores. Felizmente, o rock sobrevive a esses percaussos!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Um trem chamado Grand Funk!


Outro dia, com alguns amigos, em uma mesa de bar, conversávamos sobre qual teria sido a banda mais rock dentre todas do estilo. Alguns citaram Led Zeppelin, outros lembraram do Iron Maiden, e houve até quem opinasse em nomes mais “recentes”, como U2. Chegou a minha vez de opiniar. Fiquei por pensar alguns segundos. Acabei escolhendo o Led Zeppelin, considerado como o maior nome do hard-rock, quissá do rock em geral. Após algumas garrafas de cerveja fui para casa.

Adentrei no meu quarto e, cambaleando por causa do álcool, liguei o cd-player. Estava com um álbum do Grand Funk Railroad. Puta que pariu, GRAND FUNK RAILROAD! Era a porra da resposta que deveria ter dado! Peguei imediatamente o Caught in the Act. Logo na primeira música, uma porrada: Footstompin’ Music. Este disco ao vivo, certamente integrante da lista dos melhores ao vivo da história do rock, mostra uma legítima banda de rock no seu auge, na primeira metade da carreira. O show possui um set list com clássicos como Rock and Roll Soul, We’re an American Band e Inside Looking Out.

A banda era formada por jovens pobres, que sofriam em uma cidade com pouca esperança, Flint (sim, a mesma cidade de Michael Moore), em finais dos anos 60. Se a situação política-social era conturbada e o noticiário ainda tratava sobre o assassinato de Robert Kennedy e a eleição do republicano Nixon, a manutenção da Guerra do Vietnã e a resposta pacífica vinda de um rancho chamado Woodstock, o filme de Moore, Roger and Me, mostraria, quase duas décadas depois, como essa cidade beirava o caos social. Sede de fábricas da indústria automobilística, a população era, basicamente, formada por operários e tinha uma economia voltada para esse setor. De acordo com o senso comum da época, dificilmente nasceria alguma expressão artítisca naquele local. Ironia do destino, surgia o Grand Funk Railroad, uma puta banda de rock!

O poderoso power trio, formado pelo guitarrista e vocalista Mark Farner, pelo baixista Mel Schacher e pelo baterista, e depois vocalista, Don Brewer, possuía toda a força de um trem, literalmente um expresso do rock. Constantemente em comparação com outras bandas em formato de trio, como Cream e Jimi Hendrix Experience, o Grand Funk uniu o espírito rock’n’roll, extrema competência no som, atenção aos seus fãs e uma firme ideologia. Representando um novo rock americano, um hard rock crú com influências no blues e no baixo de funk e soul, os três jovens faziam um som pesado, mostrando o declínio das ideologias hippies ou seja, que a realidade era bastante dura.

Os três primeiros discos de estúdio, respectivamente, On Time, Grand Funk e Closer to Home, ajudam o Grand Funk a entrar na lista das bandas mais pesadas daquela época. Assim como o Black Sabbath e o Led Zeppelin, que lançaram de cara uma trinca de discos matadores (respectivamente, Black Sabbath, Paranoid, Master of Reality, e Led Zeppelin, Led Zeppelin II e Led Zeppelin III), o trio de Farner levaria o rock pesado a um novo patamar, agora com o fiel apoio dos jovens americanos.

Dizem que a primeira faixa de um disco é a mais importante; se for brochante o ouvinte dificilmente não terá a mesma alegria para escutar o restante. Isso não acontece com o primeirão do Grand Funk, On Time, de 1969. Are you Ready? introduzia o ouvinte a um mundo do rock selvagem, sem frescuras, e logo na sequência, mantendo a linha agressiva, Anybody’s Answer. Time Machine e High On a Horse, duas blueseiras com bastante peso; T.N.U.C. revela um dos grandes bateristas do rock, onde Brewer sola durante alucinantes quatro minutos; Into the Sun e Heartbreaker, dois hard-rock melódicos, com um show a parte de Farner; e ainda há espaço para um rock que flerta com psicodélico, Can’t be Too Long. Uma estréia arrasadora!

O “Disco Vermelho” (Grand Funk), de 1970, como ficou conhecido por alguns, praticamente continuou o trabalho anterior. Aos que pensavam que o peso fosse reservado apenas para o álbum de estréia, uma grande decepção. A faixa de abertura, Got this Thing on the Move, é capaz de levantar os mortos, tamanha a porrada. Please Don’t Worry, High Falootin’Woman e Mr. Limousine Driver representam a sonoridade peculiar da banda: distorção crua, bateria num rítmo incansável, um baixo com influências de black music e um vocal poderoso que alcançava as notas mais altas. A bolacha ainda conta com o clássico Inside Looking Out, uma canção de quase 10 minutos que alterna momentos psicodélicos, solos incendiários de Farner e um verdadeiro duelo entre o vocal e os demais instrumentos.

Grand Funk Railroad x Led Zeppelin,

o duelo pelo clamor dos fãns.

Coincidentemente, um dos maiores confrontos em palco aconteceu entre essas duas bandas. Durante a turnê americana do Led, o Grand Funk ficou encarregado por abrir os shows da mega banda. A parceria duraria pouco já que durante um show em Detroit, o “quinto” integrante do grupo inglês, Peter Grant, desligou a energia do palco. Isso tudo porque a versão de Inside Looking Out levava o público ao delírio, e assim poderia vir a ofuscar a apresentação principal. O resultado foi uma tremenda confusão diante a platéia e contando, ainda, com o empresário dos norte-americanos, Terry Knight, gritando em um microfone que o londrinos estariam com medo... Pior para o Zeppelin que amargou um show vazio, já que o público indignou-se com a atitude.

O último da trinca, Closer to Home, mantém o selo “Grand Funk de Qualidade” num disco completo. Lançado no mesmo ano que o anterior, tem canções, como Sin’ a Good Man’s Brother e Aimess Lady, que mostram uma banda de rock experiente. Há composições sobre amor: a depressiva Mean Mistreater (como a escutei quando tomei o pé na bunda), o rock de Hooked on Love e a clássica I’m Your Captain. Considerado por muitos fãs como o melhor da carreira, o disco ainda guarda fortes emoções em faixas como a semi-instrumental, Get it Together. Se o governo Norte-americano tem sua sede em Washington, o rock teria a sua em Flint.

Os fãs enlouquecem, e cada vez mais consomem o rock do Grand Funk. Capazes de arrastar multidões e lotar estádios eram apontados por muitos, ao lado do Cactus, como o grande rival americano do Led Zeppelin. Os EUA tinham certeza da grandiosidade daquela banda, a aceitação e a consequente adimiração foram instantâneas. As vendas eram exorbitantes e, como toda banda que consquistara o mercado fonográfico, poderiam embolsar uma tentadora quantia. Porém, não esquecendo as origens, a banda exigia um preço mais compatível com a realidade financeira de um jovem recém-formado na high school, sem perspectivas de um emprego que o remunerasse decentemente. Portanto, os lucros eram menores e anos mais tarde, viriam a descobrir que eram inclusive menor do que de seu empresário, Terry Knight...

Apesar de toda essa comoção, a crítica não perdoava. A cada disco lançado, um áspero julgamento. Felizmente, a banda, que ao mesmo tempo conseguia ser a mais amada e odiada, não deixou os fatores externos abalarem a moral e a criatividade.

Ainda lançariam pérolas como o Survival, E Pluribus Funk (“o disco da moeda”), Phoenix e We’re an American Band, endeusados pelos fãs, e é claro arduamente criticado pelos “especialistas”. Em pouco tempo o trio bateria recordes históricos, como o de ser a única banda americana a receber 10 discos de platina seguidos (incluindo o ao vivo Live Album).

Porra, falar do Grand Funk emociona, ainda mais em momentos alcoolizados. Apesar de alguns dizerem que o grupo teria se afundado após colocar Craig Frost nos teclados, a partir do Phoenix, deixando o som mais “macio”, considero o Grand Funk Railroad como um dos legítimos dinossauros do rock. Evidente que como toda banda com tantos anos de estrada, sempre há algum trabalho fraco, caso de All the Girls in the World Beware!! e Born to Die, mas a trajetória dessa fantástica máquina de rock os coloca num patamar único.

Injustiçado eternamente, inclusive em terras tupiniquins, o trio deu uma aula de como o rock deve ser tocado. Em tempos de masturbações distorcidas (alô Malmsteen...) e discos produzidos de forma artificial e sem qualquer conteúdo, o Grand Funk Railroad deveria ser comumente escutado. Eles eram, são e sempre serão uma verdadeira banda americana, uma puta banda de rock’n’roll!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Entrevista Kléber Dias


Ele toca baião, rock, blues, jazz, entre outros tantos estilos. Ao lado de Jefferson Gonçalves (ver a entrevista realizada anteriormente), cria um blues único com pitadas de sonoridades tipicamente nordestinas, mas sem esquecer elementos tradicionais ao estilo norte-americano. Fã de Hendrix e Luís Gonzaga, Kléber Dias conta como foi o começo de sua carreira e as novidades sobre o último disco, Ar Puro.

Ugo Medeiros - Como começou a parceria com o Jefferson?

Kléber Dias - Eu tinha uma banda, em 2000, chamada Experimental Blues. Aos poucos, os arranjos ficaram mais elaborados, a banda estava numa ascendente. Infelizmente, o nosso baterista faleceu nesse ano, e demos um tempo. Passei a tocar numa peça de teatro, “Francisco de Assis”. Dentre os músicos que compunham o casting, fiquei amigo do Beto Silva (percussão). Junto com ele, fizemos um quarteto de blues que tocava Muddy Waters, Howlin’ Wolf e outros nomes do estilo. Fizemos alguns shows. Teve um, no Néctar (casa de shows em Vargem Grande), que abrimos para o Baseado em Blues (primeiro grupo do Jefferson). Nós já havíamos sido apresentados, mas nunca tinha me visto tocar. Após a apresentação, fez questão de ir ao camarim nos parabenizar. Conversamos um pouco, e dentre os assuntos, falei das minhas origens musicais nordestinas. Ele sempre gostou dessas misturas. Acredito que, mesmo naquela época, ele já pensava na carreira solo, pensando no seu futuro musical. Em 2003, após fazer uma turnê da peça pela Itália, o Jefferson me ligou. Já estamos juntos nessa empreitada há quase quatro anos.


UM – Após dois excelentes discos, vocês se preparam para lançar o terceiro álbum, Ar Puro. Dizem que o terceiro é o decisivo da carreira. Como você o definiria?

KD – Ele já está pronto! Representa o amadurecimento como músico, parceiros e banda. Estamos crescendo juntos. Ar Puro teve um upgrade no quesito criatividade. O Jefferson, o Fabio Mesquita (baixo) e eu estamos juntos desde o começo, e podemos ver a evolução enquanto grupo. Essa última formação, que inclui um novo baterista, é maravilhosa. Ele se encaixou perfeitamente com o nosso percussionista. A união é tão grande que todos os arranjos são coletivos. Certa vez, perguntaram ao Santana o motivo de sua carreira de sucesso e ele respondeu que todos os músicos que estavam ao seu lado eram ligados entre si pela música. Acho que é por aí...

UM – Você toca blues, country, folk, rock, baião, entre outros estilos. Qual o seu favorito? Qual estilo melhor te definiria enquanto músico?

KD – A música regional, de uma maneira geral, me deixa bem à vontade, apesar de estudar bastante jazz e fusion. A minha ecleticidade é muito grande. Sempre que possível dou uma pitada de outros estilos e músicos: desde Jeff Beck e Jimi Hendrix a Luís Gonzaga, passando por Rachmaninoff. Sofri muitas influências de “cantadores” e de roda de viola. O trabalho com Jefferson propicia a minha volta à raiz nordestina, já que minha família é daquela região.

UM – Como toda entrevista de guitarrista, não poderia faltar “Como foi o seu primeiro contato com o instrumento?”.

KD – O primeiro contato, significativo, foi com dois primos da minha mãe, no interior do Ceará. O primeiro, tocava nomes como Dilermando Reis e Villa Lobos. O impressionante era que ele tirava tudo de ouvido. O outro primo tocava com as cordas invertidas. Ver aquilo, aos 15 anos, me tocou. Quando voltamos, vendi algumas coisas, fiz alguns trabalhos e comprei um violão. A partir daí fui, aos poucos, aprendendo sozinho...

UM – Em alguns shows que fui, você vestia camisas do Hendrix. O quanto ele foi importante para sua formação?

KD – Só em falar dele já me arrepio. Eu queria muito tê-lo conhecido. Ele passava uma felicidade, irradiava uma alegria, cativava por aquele jeito de ser. Por mais que fosse obrigado a fazer aquele misancene com a mídia, tinha um jeito peculiar. Ele criou toda uma atmosfera mágica. Além de a sua trajetória ter sido fantástica. Sua riqueza melódica era imensa, nunca deixando de lado a simplicidade.

UM – Você também tocava numa banda cover dos Beatles, “Os 4 caras”. Como o quarteto te influenciou?

KD – Os Beatles são o começo para qualquer músico. A partir deles pode-se escolher um caminho que o levará ao blues, rock and roll, progressivo, hard rock, etc. Mostraram que era possível percorrer novos caminhos musicais. “Helter Skelter” é um rock pesadíssimo, e não me intimido em dizer que foi uma grande influência ao heavy metal.

UM – Você tem pretensões de fazer uma carreira solo, com uma musicalidade mais ao seu gosto?

KD – Com certeza! A todo momento me cobram isso. O problema, agora, é a falta de tempo. Eu gostaria de fazer algo blues, tendendo ao folk. Eu devo muito ao blues.

UM – Voce já teve a oportunidade de tocar Brasil a fora. Como você enxerga o atual cenário blueseiro? E no Rio?

KD – Aqui no Rio de Janeiro está bad (risos). Temos alguns focos de resistência, na verdade, heróis. O Jefferson, o Big Gilson, Blues Etílicos, Big Joe Manfra, ou seja, o pessoal mais maduro que faz questão de tocar no Rio e acaba sofrendo as consequências: casas sem estruturas e cachês muito baixos. Como o nosso trabalho é, de longe, o mais diferenciado, nos chamam para alguns festivais. São limitados, mas nos possibilita continuar o trabalho. Se fosse apenas pelo Rio de Janeiro, estaríamos ferrados.

UM – Além de musico, você também é luthier. Ainda é dificil para um músico, no brasil (em especial o de blues), viver da música?

KD – Levar uma carreira de blues e sobreviver com dignidade é difícil para caramba. Com o Jefferson, dividimos tudo irmamente. Se não fôssemos tão unidos, seria muito pior. O problema é que tem muito otário por aí que se diz bluesman, mas não sabe, ao menos, o que é blues. Isso é uma falta de respeito até com a cultura norte-americana. Se o músico consegue um gig para trabalhar com algum nome grande pop, a coisa melhora. É triste pois, às vezes, deixamos de tocar algo que gostamos (de qualidade) devido à falta de infra-estrutura mínima. Acho que falta um pouco de organização, como no meio sertanejo, por exemplo, estão firmes e fortes até hoje...

UM – Você tem uma invejável técnica guitarrística. Você acha que os novos guitarristas brasileiros, principalmente os de rock, têm abandonado o estudo da técnica?

KD – Justamente o contrário. Hoje em dia os caras estão enfeitando muito. O problema é que a música está muito racional, abandonando aquele lado intuitivo. A magia se perdeu. Eu sou praticamente autoditada. Costumo dizer que a minha técnica é a “técnica do amor” (risos). Ao mesmo tempo, felizmente, vejo que tem uma nova geração legal que curte o som setentista que eu também curtia. O feeling não pode se afastar da técnica.

UM – Para finalizar, que conselho você daria à molecada que tem pretensões com a música, principalmente com a guitarra?

KD – Sejam físicos nucleares (risos)! O importante é se dedicar com amor ao instrumento. Uma vez feito isso, o resto é consequência. Veja bem, apenas nos EUA são quase 10 milhões de guitarristas. É coisa para cacete. Nem todos serão bem sucedidos. O importante é ser exigente no que escuta, para que o som a ser feito também seja de qualidade.

(Foto: arquivo pessoal Kléber Dias)