domingo, 11 de novembro de 2007

3º Festival Nacional de Blues



Durante três dias, após muita reclamação, os cariocas, enfim, puderam ter um festival que privilegiasse o blues. O palco do Circo Voador, considerado sagrado por muitos, novamente recebeu este estilo musical, que teve o seu auge ao final dos anos 80. Esquecido pela mídia local, os amantes da boa música e as bandas tiveram que isolar-se em lugares pouco conhecidos e sem a infra-estrutura necessária. Renato Arias, um dos organizadores do evento, fala sobre a falta de incentivo:

- Mais importante do que ter casa cheia todos os dias, é tirar o cenário do blues carioca da inércia. É importante mostrarmos à mídia que ainda há um público grande e forte. Mas é claro, se encher, melhor ainda...

Ao longo dos três dias, músicos consagrados, como Blues Etílicos, Flávio Guimarães e André Christovam, este que não tocava na cidade há cinco anos, puderam mostrar o melhor do blues nacional. Os espectadores ainda tiveram a oportunidade de assistir shows de músicos que ainda não têm o devido reconhecimento, entre eles Big Joe Manfra e Igor Prado, ambos estreiando na casa. O Festival ainda deu oportunidade para bandas como Cristiano Crochemore, Mamute e Júlio Maya que lutam pelo objetivo de se destacar no circuito independente de blues e conseguir um contrato com alguma gravadora.

O primeiro dia de Festival, Classic Blues Day, trouxe como banda de abertura o Beale Street, trio carioca de blues-rock de primeira qualidade. Alternando músicas autorais e alguns clássicos de Albert King, Willie Dixon e Freddie King, o grupo mostrou suas influências roqueiras, porém não deixando de lado o blues tradicional. A segunda banda da noite, Like a Rolling Stone, apresentou um repertório recheado de clássicos de Howlin’ Wolf e Muddy Waters que a mega banda de Jagger e Richards, regravou em quase 40 anos de estrada. Após, foi a vez do bluesman carioca, Big Joe Manfra, mostrar sua música enraizada no rockabilly e blues-rock, sempre com um toque de swing e linhas de baixo funkeadas. Com covers de Stevie Ray Vaughan, Eric Burdon e Jimi Hendrix, o peso pesado e sua excelente banda levaram a platéia ao delírio. O encerramento da noite ficou por conta do Blues Etílicos. Liderados pelo americano Greg Wilson (vocal e guitarra base) e o gaitista Flávio Guimarães, o quinteto carioca justificou o título de melhor banda do país. Retornando à Lapa, onde fizeram por volta de 300 shows entre 88 e 96, apresentaram, além de canções do novo disco Viva Muddy Waters (Delira Blues), alguns hits dos 20 anos de carreira, como Dente de Ouro e o cover de Raul Seixas Canceriano sem Lar.

Já o segundo dia de Festival, Bluesy Day, guardou algumas surpresas. O gaúcho Cristiano Crochemore, certamente uma das gratas revelações do evento, mostrou boa pegada na sua Stratocaster e deu o seu cartão de visitas ao fazer uma apresentação impecável. Seguido pelo Mamute, banda com influências claras de rock, os cariocas puderam escutar clássicos de Cream, Rory Gallagher e John Mayall. Outro que retornou à casa foi Maurício Sahady & Blues Groovers. Guitarrista da elite brasileira, esbanjou técnica nas suas músicas da carreira solo e em versões mais agitadas de Albert King, BB King e ainda dividindo o palco com Ricardo Werther em The Hunter, imortalizada pelos ingleses do Free. Apresentando-se pela segunda vez, Flávio Guimarães exibiu o repertório do novo CD ao vivo, VIVO (Delira Blues). Homenageando grandes nomes, como Charlie Musselwhite, Little Walter e Buddy Guy & Junior wells, o gaitista fez um concerto perfeito, que ainda teve participações de Igor Prado e o mais novo contratado da Delira Blues, Álamo Leal.

O terceiro e último dia, Guitar Day, reservou fortes emoções. Após os shows de Blues Power, formada por ex-integrantes de duas das maiores bandas de blues do Rio de Janeiro, Baseado em Blues (Fábio Mesquita e Sérgio Rocha) e Big Allambick (Beto Werther), e Júlio Maya, que mostrou todo seu virtusionismo na guitarra, Igor Prado Band apresentou seu som vintage ao público. Ainda não muito conhecido no Brasil, com excessão de São Paulo, o guitarrista paulista cantou, ao melhor estilo shoute, o west coast blues ou swing jazz. Com carreira exterior respeitada e com indicação de Melhor Disco de 2007, pela Real Blues Magazine, Igor fez sua estréia no Circo Voador com o pé direito, levando grande parte dos presentes a dançar. André Christovam mostrou o porque foi o escolhido para encerrar o festival. O mestre do blues brasileiro tocou, com a elegância de costume, clássicos de Buddy Guy & Junior Wells, Jimmy Reed, entre outros. Com um novo repertório, exibiu toda a sua técnica que transcede o blues. Sua apresentação foi marcada por um cover emocionante de Little Wing e pela participação do guitarrista paulista da nova geração e também produtor, Amlet Barboni.

O evento, de suma importância, renovou o público blueseiro. Há quem tenha conhecido e tornado fã deste estilo na mesma noite. Este é o caso da estudante Joana Stingel:

- Eu não conhecia, a fundo, blues. Para falar a verdade, desconheço todas essas bandas, mas, ao assistir aos shows do Igor Prado e André Christovam, fiquei apaixonada por essa música. Ficarei torcendo pela reedição deste Festival ano que vem!

Durante o feriado de Finados, o blues reviveu na Cidade Maravilhosa e proporcionou bons momentos a todos os seus devotos. Renato comentou sobre o sucesso do Festival:

- Fico muito feliz de ter participado da produção deste evento tão especial para a cidade. Estou satisfeito de ter tido a aprovação do público. Que venha o 4º Festival Nacional de Blues!


A grande revelação

Cristiano Crochemore foi considerado por muitos a mais grata surpresa do 3º Festival Nacional de Blues. O guitarrista gaúcho que tocou no CACOS três dias antes, em evento promovido pela REC, bateu um papo conosco e revelou, entre outras coisas, que é grande fã de Eric Clapton e Stevie Ray Vaughan:

- Eu sempre escutei muito Eric Clapton, Johnny Winter, BB King, entre outros. Sempre gostei do jeito deles de tocar e cantar. Mas, de todos os que mais gosto de escutar, sem dúvida, são o Clapton e Vaughan. Um na elegância e outro na grosseria, respectivamente, conseguem fazer uma história perfeita com suas guitarra.

O bluesman que começou tocando em bandas de rock e punk, falou, também, da emoção de tocar no Circo Voador:

- Hoje foi a terceira vez que toquei aqui, no Crico Voador. Toquei em outra oportunidade com os “Garotos da Rua” e em outra vez, com uma banda de rock pesado, nada a ver com o que faço hoje. Porém, foi a primeira com a minha banda, meu projeto. Te confesso que fiquei bem tenso: queria mostrar o meu som, mas rolava uma pressão. Mas, foi muito emocionante, único.



Fotos: João Marcelo Dias

2 comentários:

Bernardo disse...

Excelente matéria Ugo!
Eu mesmo a distância consegui me sentir no show vislumbrando até o som das guitarras e os dedilhados pela sua descrição, tenho certeza de que foi um sucesso, espero novas edições, pois o Blues precisa disso

Apostem no Blues, vale a pena!

anamaria disse...

Você escreve com tanta paixão por música e em especial pelo blues que uma pessoa como eu que não sou conhecedora do estilo sente curiosidade de conhecer. bjs. titia.