quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Entrevista Jefferson Gonçalves


Fundador de uma das bandas mais importantes do blues brasileiro, o Baseado em Blues, Jefferson Gonçalves trilha novos caminhos em sua carreira solo. Mesclando musicalidades nordestinas com a tradicional música americana, inova no cenário blueseiro ao mostrar que o brasil também possui grandes músicos do estilo. Seu último trabalho, Gréia ao vivo, foi muito bem recebido pelo seu fiel público e já trabalha no seu terceiro álbum. Em entrevista durante o 5º Rio das Ostras Jazz & Blues Festival, o gaitista revela suas influências e projetos futuros.

Ugo Medeiros – Atualmente a sua carreira solo toma novas vertentes. Um som com influências nordestinas, sonoridades regionais. De onde vem isso?

Jefferson Gonçalves – Esta influência veio desde novo. Se você for ver minha discografia, eu tenho de música clássica à Blues, música nordestina, banda de pau e corda, banda de pife, etc... Gosto de estudar o rítmo. Sempre procurei tocar gaita percusivamente. A música brasileira, principalmente a nordestina, é uma das mais ricas ritmicamente. Encaixa muito dentro da gaita; é possível pegar muita coisa de sanfona e pife e transportar pra gaita. Comecei a ver uma ligação. Acho que essa mistura está dando certo...

UM – Você tem um projeto paralelo com o Big Joe Manfra, o Blues Etc. Comente.

JG – Gravamos um CD, viajamos quase todo o Brasil. Infelizmente teve que parar pois o vocalista, Pedro Quental, casou-se com uma pernambucana e agora mora em Recife. A banda está parada até encontrar alguém para o lugar dele. Tem muita gente cantando tão bem quanto ele, mas tem que haver a química: bom astral no estúdio, no palco, nas viagens... Não é apenas tocar. Não queremos colocar alguém apenas para ganhar dinheiro; se for assim, há o risco de acabar a magia que foi o Blues Etc. Começamos tocando em bar, de brincadeira. Acabou dando certo e gravamos um CD. Temos que manter essa filosofia. Para este ano ainda devemos tocar, mas com outra pessoa cantando. Já fizemos alguns shows com essa pessoa e deu certo. O próximo álbum será ligado ao Blues mais tradicional, mais acústico.

UM – Você acabou de fazer uma Tour com o Big Gílson na Europa. O estrangeiro está começando a respeitar os bluesmans brasileiros?

JG – Não apenas os músicos de blues, mas de qualquer estilo! Música instrumental logo é associada ao Naná Vasconcelos, Hamilton de Holanda, Carlos Malta. Entre outros. No mundo da gaita todos falam do Maurício Einhorn. Eles conhecem Fernando Noronha! A nossa música não deixa nada a desejar. Temos uma vantagem: o swing e a rítmica. Eles acham legal que a gente não toque aquele blues tradicional. É impossível, temos que tocar da nossa forma com um toque de swing. Fomos muito bem recebidos. Foi a minha primeira tour pela Europa, gostei muito.

UM – Você faz uma análise positiva ou negativa do cenário de blues brasileiro atual?

JG – O blues assim como a música instrumental nunca vai acabar. Está sempre resistindo. No Brasil, teve altos e baixos, desde que eu comecei a tocar. Tinha época em que o Rio de Janeiro tinha um forte circuito de blues no Circo Voador. Agora parou um pouco. Há muitos festivais pelo Brasil afora como este (Rio Das Ostras), o de Guaramiranga e muitos no Nordeste. A agenda de blues e instrumental está sempre lotada. Às vezes temos que nos adaptar: viajar com a banda completa, ou tocar em trio ou sozinho mesmo. São poucas as bandas que se mantêm como o Blues Etílicos. É muito difícil manter a formação original. O custo é alto, o que acaba nos obrigando a adequar às exigências do mercado. Mas o blues nunca acabará. Ao contrário, está sempre se renovando, aparecendo caras novas. O festival de Rio das Ostras comprova: está em sua 5ª edição, cada vez maior e melhor.

UM – A criação da Blues Time, é uma esperança ao Blues brasileiro?

JG – Não sou sócio, sou apenas um músico da Blues Time. O Manfra montou o selo e eu apenas o ajudei com alguns contatos: Peter Madcat, Jamie Wood, Big Gílson, etc... É mais um selo que agora está sendo distribuído pela Tratore. Fico feliz pois está tendo boa aceitação. É a luta diária, vencendo um leão a cada dia. Um selo pequeno, mas que dá valor ao Blues.

UM – Quando começou esta atração pela gaita?

JG – Sempre gostei desde novo. Escutava Bob Dylan, Neil Young e Jethro Tull (o fato de ter uma flauta). Sempre fui ligado ao Rock and Roll, Folk e até à música nordestina (gosto muito de bandas de pífanos). Mas quando tive a coragem de comprar o meu primeiro instrumento, foi a gaita. Comecei a tocar aos 20 anos, mas gosto de música desde os meus 10 anos.

UM – O Charles Musselwhite é uma grande influência na sua formação musical?

JG – Eu gosto da sua música, mas não é a minha influência como gaitista. Já escutei muito o trabalho dele, mas eu não tenho muito do estilo dele. A minha maior influência na gaita diatônica foi Little Walter e Sonny Terry e na cromática Toots Thielemans e Maurício Einhorn, além de muita coisa de bandas de pífano.

UM – Você fez parte de uma banda que fez história no Rio de Janeiro, o Baseado em Blues. Como você analisa sua participação nessa banda?

JG – O Baseado em Blues foi a minha primeira banda. Na época eu tinha acabado de terminar a aula com o Flávio Guimarães e Zé da Gaita. Eu arrumei um show para o Zé; então ele me mandou formar uma banda e abrir o show. Assim nasceu o Baseado em Blues. Ficamos 14 anos na estrada rodando o Brasil. Nós éramos muito inexperientes, aprendemos no palco. Aprendíamos juntos a como se portar. Aprendemos muito na estrada. Foi a banda que me colocou no mundo da música. Se não fosse pelo Baseado, não estaria dando esta entrevista. Infelizmente a banda acabou, mas abriu o mercado para cada um fazer seus trabalhos solos...

UM – Há algumas semanas entrevistei o Celso Blues Boy. Perguntei quem seria o nome de maior destaque da nova geração. Não hesitou em responder que era você. Como sente-se ao escutar do mestre do Blues brasileiro?

JG – Temos uma relação de amizade muito forte. A primeira vez que toquei no Circo Voador, foi na banda dele. O engraçado é que ele não gosta de gaitista, mas ele gosta de como me encaixo no trabalho dele. Vai ver porque eu também sou vascaíno. É claro que fico lisongeado. Ligarei para ele e agradecerei (risos).

4 comentários:

Isabella disse...

Estrelinha
Muito legal! Continue escrevendo.
Bjos

leonardo disse...

Legal a entrevista.
Continue com o bom trabalho!

anamaria disse...

boas perguntas. bom entrvistador. e onde está a que vc fez com o celso bluesboy?

Digital disse...

Teu blog foi lido no restaurante Margaridas, em Paraty,ontem.
Indiquei pra uns paulistas que estavam falando em blues.